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Índios Wayana e Aparai visitam Alto Rio Negro (AM) para conhecer experimentos com arumã

Instituto Socioambiental - http://www.socioambiental.org/
Autor: Adeilson Lopes da Silva
06 de mai de 2010

Assessorados pelo Iepé, eles cruzaram Amazônia vindos do extremo norte do Pará, na Serra do Tumucumaque, até a Cabeça do Cachorro, no extremo noroeste amazônico, para conhecer de perto as experiências que várias comunidades baniwa, animadas pela Organização Indígena da Bacia do Içana (Oibi), iniciaram há cerca de dez anos, em conjunto com o ISA e Instituto de Pesquisas da Amazônia (Inpa)

Há exatos cinco anos o ISA divulgava a colheita do primeiro experimento participativo de plantio de arumã, de que se tem notícia, feito na Amazônia, e contando com os próprios indígenas como pesquisadores. "Nosso arumanzal continua vigoroso. Daqui já extraímos muita fibra para tecer nossos utensílios e artesanatos. Levamos arumã daqui e apresentamos bonita Arte Baniwa em Paris, no Ano do Brasil na França. Até já enviamos arumã para pesquisadores que estão experimentando reforçar estruturas de concreto com fibra de arumã, assim como ocorre com outras fibras vegetais", contam Moisés Luis e Luis Laureano, Baniwa, e os principais monitores da experiência de plantio desde que ela foi iniciada na comunidade de Itacoatiara-mirim, em São Gabriel da Cachoeira (AM).

Quem escuta atentamente é a comitiva Wayana-Aparai, formada por Apowaiko Aparai, Jehje Aparai Wayana, Amiakaré Aparai, Jamae Wayana e pelo biólogo do Iepé (Instituto de Pesquisas e Formação Indígena), Iori van Velthem. Os Aparai e Wayana vivem no norte do Pará, fronteira com o Suriname, nas TIs Parque do Tumucumaque e Rio Paru de Leste. "Vendo assim, na prática, a gente fica mais animado em voltar pras nossas aldeias e repetir as experiências lá com o nosso povo", disse Apowaiko Aparai. Durante a visita, realizada entre 22 e 29 de abril, eles discutiram a importância em testar as experiências apresentadas pelos Baniwa, na região onde vivem no Amapá, uma vez que as respostas dos experimentos do Alto Rio Negro podem ser diferentes das que podem ser obtidas ali.

O intercâmbio faz parte de um programa de pesquisa e manejo de arumã que os Wayana-Aparai pretendem implementar junto com o Iepé, e com apoio financeiro do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA), motivados pelas mesmas circunstâncias que motivaram os Baniwa dez anos atrás. Com a ampliação da produção de arte de arumã para comercialização, arumã vai acabar? Perguntavam os compradores, preocupados com a emergente responsabilidade socioambiental."Não acaba não, sinhô! Enquanto você cuidar dele, essezinho [arumã] não acaba", afirmou prontamente o velho capitão Vicente, da comunidade de Santa Rosa, ao receber a comitiva e saber das razões que a levaram até o Alto Içana. Em sua comunidade vive grande parte dos mais atuantes mestres do projeto Arte Baniwa, de comercialização de cestaria de arumã. O capitão Vicente e vários outros moradores da comunidade explicaram aos visitantes de que forma estão manejando seus arumanzais e resumiram algumas de suas práticas:

:: Abrir roças em áreas de floresta onde já existem algumas touceiras de arumã. Essa prática resulta em capoeiras com maior densidade dessa planta, capoeiras que são o ambiente preferido onde os artesãos coletam o recurso. E se as mulheres dos artesãos, que manejam essas roças, permitirem que algumas touceiras cresçam junto com suas manivas no centro da roça, essas vão formar super-touceiras, conhecidas como Poápoa Makapokódapi, que produzirão cerca de 10 vezes mais talos que as touceiras que crescem espontaneamente nas bordas das roças.

:: Outra dica importante é cortar o arumã que será utilizado com muito cuidado para não ferir os brotos e talos jovens que poderão ser colhidos no futuro. Se em vez do terçado o artesão usar uma faca, a recomendação ficará fácil de ser seguida.

:: Plantar as cabeças (leque de folhas) dos talos colhidos. Isso funciona bem com a espécie Ischnosiphon arouma (Poápoa Kantsa em Baniwa), e ajuda a adensar arumanzais, sobretudo aqueles localizados em cabeceiras de igarapés. Essa lição foi apresentada na prática pelo mestre artesão Armando Fontes, também de Santa Rosa. Ele passeou pelo arumanzal com a comitiva apontando várias novas touceiras formadas dessa maneira desde que começou a experimentar a técnica, em 2002.

Experimentos controlados

A expedição prosseguiu até as imediações da Escola Indígena Baniwa-Coripaco-Pamáali e da comunidade de Tukumã-rupitá, onde Armindo Brazão, um dos principais pesquisadores baniwa apresentou os experimentos controlados de corte de arumã. "Queríamos saber quanto por cento dos talos maduros um artesão pode colher sem matar uma touceira ou prejudicar sua produção futura", explicou Brazão. "Nesse experimento cortamos 100% dos talos maduros de algumas touceiras, 50% e 30% em outras. Em algumas não cortamos nada. Acompanhamos o desenvolvimento dessas touceiras por três anos seguidos e o melhor resultado foi onde cortamos 30% dos talos maduros. Essas touceiras se desenvolveram igual ou até melhor do que os lugares de onde não foi tirado nada". O experimento foi repetido em várias comunidades da bacia e com as duas principais espécies usadas pelos artesãos, Ischnosiphon arouma e Ischnosiphon obliquus, em baniwa Poápoa Kantsa e Halépana.

Recentemente a equipe de pesquisadores baniwa, do ISA e do INPA, apresentou no livro Manejo do Mundo, lançado recentemente pelo ISA e Foirn, uma comunicação sobre as pesquisas envolvendo arumã no Içana. Essas pesquisas, apoiadas pelo CNPq e Fapeam seguem sendo referência, quase dez anos depois, para vários povos que usam e manejam a planta. A propósito, os baniwa já planejam receber uma nova comitiva de indígenas Wayana e Wajãpi da região do Parque Amazônico da Guiana Francesa, que também entraram em contato e pretendem conhecer um pouco mais do jeito de fazer pesquisa colaborativa e manejo de arumã, experimentados pioneiramente no Rio Negro.

Arumã, matéria-prima da cestaria

Arumã, nome de origem tupi, refere-se a um conjunto de espécies de ervas do gênero Ischnosiphon (Família Marantaceae) que ocorre amplamente nos trópicos úmidos da América. São os utensílios elaborados com as fibras retiradas de várias espécies botânicas de arumã, como abanos, peneiras, balaios e tipitis, que movimentam grande parte da poderosa "indústria" da mandioca na Amazônia. A arte de arumã produzida por povos como os Baniwa do Alto Rio Negro e os Wayana-Aparai da Bacia do Paru do Leste goza de amplo reconhecimento em todo o mundo e expressa rica cultura estética através das diferentes sílabas gráficas que podem ser tecidas pelos mestres artesãos.

Saiba mais mais sobre os Aparai (http://pib.socioambiental.org/pt/povo/aparai) e sobre os Wayana (http://pib.socioambiental.org/pt/povo/wayana).

http://www.socioambiental.org/nsa/detalhe?id=3079

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