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O planeta doente

CB, Opiniao, p.14
02 de abr de 2005

O planeta doente
A avaliação Ecossistêmica do Milênio, relatório produzido por 1.350 especialistas a pedido da Organização das Nações Unidas (ONU), mostra que a humanidade explora os recursos naturais do planeta acima de sua capacidade de regeneração. 0 resultado previsível será o colapso futuro dos ecossistemas globais, com possíveis riscos de fome endêmica a partir de 2015.0 estudo examinou 95 países, inclusive o Brasil, entre os anos de 2001 e 2005, e se trata do mais completo diagnóstico da saúde dos meios ambientes e de sua relação com a manutenção da vida humana.
As conclusões são preocupantes: quase dois terços dos serviços ambientais estão em declínio acelerado. Como se não bastasse, as alterações promovidas nos últimos 50 anos aumentaram o risco de mudanças climáticas abruptas e explosão de epidemias. As ameaças são de caráter emergencial. A degradação dos solos e a baixa disponibilidade de água doce, especialmente na África e no sul da Ásia, devem impedir o mundo de alcançar o Objetivo do Milênio e reduzir à metade o número de famintos em 2015. Segundo os cientistas, 20% das florestas do mundo serão convertidas em lavoura e pasto até 2050. Além disso, a superexploração dos estoques de peixe deve crescer ainda mais, com redução da biodiversidade.
Uma das recomendações do estudo aos tomadores de decisão é a mudança dos cálculos econômicos das áreas florestais remanescentes. Atualmente, a conta é feita sobre o valor material em madeira e produtos industrializáveis, como castanhas, essências, extratos e frutos. Para os pesquisadores da ONU, deveria ser computado também o potencial das florestas como áreas de lazer e de atração turística, capazes de embasar grandes empreendimentos econômicos, sem dano ambiental de monta. Países como Equador, Cazaquistão e Etiópia, que tiveram aumento do PIB em 2001 e experimentaram perda de florestas e recursos energéticos, teriam na verdade prejuízo, caso o passivo ambiental fosse incluído.
A maioria dos serviços ambientais, como preservação de mananciais, ainda não têm mercado, embora o intercâmbio de cotas de carbono, responsáveis pelo efeito estufa, já esteja regulamentado pela entrada em vigor do Protocolo de Kyoto. Esse precedente merece ser seguido. As perdas econômicas causadas por desastres naturais no mundo cresceram dez vezes de 1950 a 2003 e atingem hoje a absurda cifra anual de US$ 70 bilhões.
As nações desenvolvidas, que já arruinaram seus recursos florestais e esgotam recursos hídricos em velocidade cada vez maior, recusam-se a financiar os países em crescimento, onde está preservada a maioria da oferta remanescente de água, biodiversidade e cobertura vegetal. Pelo contrário, ao permitirem a fabricação de móveis a partir de madeiras nobres em extinção, caso do mogno, aceleram o processo de desmatamento no Terceiro Mundo. 0 relatório das Nações Unidas mostra que, além de global, o problema da preservação tem caráter de urgência. Falta uma legislação internacional ampla que regule o assunto. Ela não pode afetar a soberania, mas deve garantir os direitos das gerações futuras.
CB, 02/04/2005, p. 14

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