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Muito além do 'meio ambiente'

OESP, Espaço Aberto, p. A2
Autor: NOVAES, Washington
19 de mai de 2006

Muito além do 'meio ambiente'

Washington Novaes

Pode ser até que tenha alguma eficácia - no sentido de conseguir adeptos para a prática - a anunciada decisão do prefeito de Londres, Ken Livingstone, de não mais acionar a descarga em sua casa ou no gabinete quando apenas urinar. Quer ele dar exemplo para que as pessoas economizem água, pois, em sua opinião, não há problema algum em manter a urina no vaso. A sensação que fica, entretanto, é a de que se tentam confinar ao terreno da "educação ambiental" possíveis soluções para problemas extremamente graves. Que são econômicos, financeiros, políticos, sociais, culturais, de comunicação. Mas que, confinados numa suposta "área ambiental", criam a ilusão de que são apartados do restante e podem ser resolvidos sem questionamentos naquelas outras áreas.
Mais complicado ainda, esses problemas estão assumindo em toda parte gravidade extrema. Quaisquer que sejam, por exemplo, a visão e/ou opinião que se tenha sobre recentes conflitos internos e internacionais envolvendo o Brasil, na área dos recursos e serviços naturais, não há como fugir à evidência de que o tema tende a ocupar o centro das preocupações e exige novas posturas de governo. Mas exige também que o empresariado e a sociedade tratem essas questões com mais profundidade, num nível muito além da simples preocupação.
Como recursos e serviços naturais são o fator escasso no mundo, obrigarão, sem mais perda de tempo, a que se chegue a estratégias competentes. Para citar apenas alguns poucos casos, podem-se mencionar as questões em torno da exploração de gás na Bolívia; o não-licenciamento de uma siderúrgica brasileira em território boliviano - e seu deslocamento para Corumbá (MS), com novos conflitos; o atrito entre Argentina e Uruguai em torno de fábricas de celulose na bacia do Rio Uruguai; os confrontos com unidades produtoras de celulose no Brasil que plantam eucaliptos e outras espécies; a concessão de florestas públicas na Amazônia a empresas privadas; o licenciamento de novas megausinas nessa região, envolvendo a concessão de subsídios ao custo da energia elétrica para produtoras e exportadoras de eletrointensivos - entre muitos outros.
Há quem pense que não cabem estratégias nessa área. Ao contrário, seria indispensável simplesmente garantir o livre acesso aos recursos e serviços, sem condicionantes - postura que se traduz na indignação com as chamadas exigências ambientais. Mas é uma postura dificilmente sustentável. Seja diante da legislação vigente no País, seja diante de realidades que não há como esquecer. E a mais contundente de todas é a afirmação que está em vários relatórios internacionais - Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, WorldWatch Institute (WWF), entre outros - e tem sido reiterada pelo secretário-geral da ONU, Kofi Annan: as ameaças à sobrevivência da espécie humana estão nas mudanças climáticas em curso e na insustentabilidade dos padrões globais de produção e consumo, já além da capacidade de reposição da biosfera terrestre.
Uma história recente, levantada pelo competente jornalista inglês Fred Pearce, é um exemplo significativo dessa questão básica. Mostra ele que, em extensa região da Índia, 21 milhões de agricultores dobraram em 20 anos a produção de alimentos para 200 milhões de pessoas, mas triplicaram o uso de água subterrânea na irrigação. A água, que há 50 anos era encontrada a dez metros de profundidade, hoje está sendo extraída de 400 metros e pode exaurir-se em breve. E não é um problema apenas regional ou indiano. Índia, China e Paquistão, juntos, utilizam anualmente 400 quilômetros cúbicos de água subterrânea - o dobro do que é reposto por chuvas.
Não é problema apenas deles. Em todo o mundo, um décimo dos alimentos já é produzido com irrigação por águas subterrâneas e vai na mesma direção. Não por acaso, o chamado "comércio mundial de água virtual" está de vento em popa, com muitos países preferindo reduzir sua produção própria em diversas áreas, substituída pela importação de frutas, carnes, grãos e outros vegetais de países abundantes em recursos hídricos (como o Brasil) ou descuidados do problema. E assim agem porque o fator ambiental neste momento não é utilizado para agregar valor aos produtos que importam. Com isso, esse comércio hoje inclui mil quilômetros cúbicos anuais de "água virtual". Fred Pearce chega a alinhar números que já fazem parte de relatórios como o Water for People, Water for Life (Fórum Mundial da Água, ONU, 2002). Um quilo de café precisa em todas as etapas, para ser produzido, de 20 mil litros de água; um hambúrguer, 11 mil litros; uma camiseta de algodão, 7 mil litros; um quilo de açúcar, 3 mil litros; um litro de leite, 2 mil; um quilo de trigo, mil litros. Tanto consumo de recursos e serviços naturais está até levando países como a Suécia a reduzirem sua produção própria de papel e transferi-la para outras países. Em muitos (como Brasil, Argentina, Uruguai) estão pipocando os conflitos em torno desses empreendimentos.
Não faz sentido fechar os olhos e fugir às questões econômicas, financeiras, sociais e culturais envolvidas nessas atividades. A comunicação terá de aprofundar-se na informação a esse respeito. E a sociedade terá de aprender a posicionar-se, incluir essas preocupações na sua agenda política. Não há como pretender que o "desenvolvimento" esteja acima e além.
Também não basta - embora seja importante - a Presidência da República anunciar, como anunciou, que o governo brasileiro investirá em novas fontes de energia renováveis. É fundamental ir além - e ter uma estratégia nacional em que a base física, de recursos e serviços naturais, seja o centro da questão, o início de qualquer discussão.
Washington Novaes é jornalista

OESP, 19/05/2006, Espaço Aberto, p. A2

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