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Dez anos depois, impactos de Belo Monte seguem sob questionamento internacional

O Globo - oglobo.globo.com
Autor: Míriam Leitão; Luciana Casemiro
04 de Mai de 2026

Dez anos depois, impactos de Belo Monte seguem sob questionamento internacional

Míriam Leitão
Por Luciana Casemiro - 04/05/2026

Dez anos após a ativação da primeira turbina de Belo Monte, uma carta aberta destaca um processo na CIDH sobre violações de direitos humanos ligadas à usina. Associações como AIDA e COIAB esperam que o caso seja levado à Corte IDH, após parecer que liga direitos humanos e mudanças climáticas. A carta destaca a perda do fluxo hídrico na Volta Grande do Xingu, afetando pesca e cultura local. As comunidades impactadas buscam reparação e medidas que impeçam novos danos. Além disso, a licença para a mineradora Belo Sun preocupa os moradores.
Dez anos depois de a primeira turbina de Belo Monte ser acionada, uma carta aberta chama atenção para o fato de que tramita, desde 2011, na Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), um processo que reúne um conjunto consistente de evidências sobre violações de direitos humanos associadas à instalação da usina hidrelétrica. A Associação Interamericana para a Defesa do Ambiente (AIDA), a Justiça Global, a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB), o Movimento Xingu Vivo para Sempre (MXVPS) e o Conselho Indigenista Missionário (CIMI) - signatários do texto - dizem esperar que o caso seja admitido pela Comissão e submetido à Corte IDH. Essa perspectiva se abriu após o parecer concedido em julho do ano passado pela CIDH, o parecer 32, reforçar a vinculação de direitos humanos e mudanças climáticas, o que eleva a importância da proteção, dizem as instituições. A carta ressalta que mais de cem quilômetros da Volta Grande do Xingu perderam seu fluxo hídrico natural desde a instalação de Belo Monte.
Se a denúncia à Comissão for finalmente admitida, isso levaria ao reconhecimento da responsabilidade do Estado brasileiro, explicam as entidades signatárias da carta. A partir daí, a expectativa é que sejam exigidas a adoção de medidas que incluem a implementação de um hidrograma ecológico que garanta as condições mínimas de reprodução da vida na Volta Grande do Xingu; a instalação do território ribeirinho; a reparação integral das comunidades afetadas; a suspensão de novos projetos de alto impacto na região enquanto os danos existentes não forem reparados; e a adoção de medidas efetivas de não repetição.
Segundo o documento que será divulgado nesta segunda-feira, "o hidrograma operacional imposto pela usina não assegura as condições ecológicas mínimas para a reprodução da vida aquática, resultando em colapso da pesca artesanal e insegurança alimentar severa para populações que dependem do rio como fonte primária de alimento e renda". As instituições signatárias ressaltam que "a perda do acesso ao rio é, ao mesmo tempo, perda de cultura, território e direitos".
- Desde que desviaram nossa água para gerar energia, houve mudança radical da nossa vida, do povo Juruna. Sobre a nossa alimentação, tudo mudou para a gente. Todo ano a gente perde um pouco mais a nossa área de pesca, vão assoreando, o que reduz o volume de água; os peixes morrem, perdemos a navegação. Não tem mais piracema aqui na Volta Grande do Xingu. Vi muitas pessoas quase entrando em depressão diante da mudança radical no modo de vida do povo. Antes da hidrelétrica, a gente conseguia deixar nossas embarcações no rio, conseguia dormir mais tranquilo; hoje nossas casas são trancadas. O sentimento de hoje é de tristeza. Veio muito mais impacto do que a gente imaginava e do que eles falavam que ia acontecer - diz Eliete Paksamba, liderança dos Paksamba.
Dona Eliete, como é conhecida na comunidade, ressalta ainda que hoje outra preocupação assombra o povo do Xingu: a licença concedida para a extração de ouro à mineradora Belo Sun, no Pará:
- A gente ainda tem que pensar em outro empreendimento que já foi liberado, a licença de instalação da Belo Sun. Imagine todos esses impactos que vivemos e ainda virem outros. Tudo isso num pequeno território que é a Volta Grande.

https://oglobo.globo.com/blogs/miriam-leitao/post/2026/05/dez-anos-depo…

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