Samaúma - sumauma.com
Autor: Guilherme Guerreiro Neto
16 de Jul de 2026
Contra o capitalismo que come a Floresta, expedição científica mergulha nos caminhos ancestrais
Pesquisadores dos territórios e da Academia percorrem juntos rotas históricas dos povos humanos e mais-que-humanos na Amazônia para lembrar ao mundo que existe outro jeito de viver
Guilherme Guerreiro Neto, Rio Iriri, Terra do Meio, Altamira, Amazônia
16 julho 2026
A voadeira sai em disparada sobre as voltas e revoltas do Rio Xingu. Numa dança, contorna os pedrais. E alcança um tempo liberto, que não corre numa só direção.
Ele, o tempo, regressa à descida Kayapó dos planaltos do Cerrado para a Amazônia, onde parte do povo Mebêngôkre se aldeou com a mata e as águas. Acompanha Ribeirinhas e Beiradeiros que vivem conforme o rio nos vãos entre o Xingu e o Iriri. Volta aos passos seringueiros varando o chão que separa duas bacias irmãs, a do Xingu e a do Tapajós.
A antropóloga Sônia Magalhães, veterana pesquisadora da universidade, e os Munduruku Antony Dace e Delinaldo Saw, jovens pesquisadores indígenas, viajam juntos por essas veredas do passado e do presente. Há outros com eles. Animados a atravessar caminhos, trançar mundos, tramar conhecimentos que nem figuras criadas a muitas mãos em jogos de barbante.
A ciência, como a vida, é travessia.
O projeto Caminhos Ancestrais vai percorrer dois itinerários pelo rio e três por terra no Médio Xingu e no interflúvio com o Médio Tapajós. E, entre eles, atalhos estreitos que moram em cada comunidade, em cada gente. Para examinar as dinâmicas ecológicas, sociais e históricas desses espaços de trânsito dos povos, o estudo recorre a uma conversa de disciplinas como a etnobiologia, a arqueologia e a antropologia com conhecimentos tradicionais.
Vão ser feitos inventários da fauna aquática, dos vertebrados terrestres, das espécies de plantas. Levantamentos dos sítios arqueológicos e do patrimônio biocultural. Estudos dos modos de vida, das formas de relação com o território, dos sistemas de produção agroextrativistas. Cada cientista do Xingu e do Tapajós se embrenha num desses rumos, repara a vida que não para em seu entorno e leva à pesquisa suas descobertas.
Os caminhos ancestrais contam histórias da biodiversidade. Ou da sociobiodiversidade, esse encontro entre espécies produtor de existências. Encontro que envolve a espécie humana, em versão despida da fúria colonial por dominação e extinção. Os caminhos trazem testemunhos da conservação e das transformações do ambiente. Falam também das ameaças, que impõem caminhos de outra natureza.
Os olhos da cacica das mulheres Kainaru Arara não viram, mas ela tem a memória povoada pelos dias em que a Transamazônica atropelou a casa de seus mais velhos. A pescadora Rita Cavalcante foi arrancada da beira do rio por Belo Monte e agora luta para que o lugar que a hidrelétrica reduziu a reservatório torne a ser território. Kainaru e Rita estão nessa jornada rio acima.
Há novos planos em curso para desfigurar caminhos da vida como rotas de mercadoria. A mina de ouro da canadense Belo Sun, com o depósito de lixo tóxico na já violentada Volta Grande do Xingu. A Ferrogrão, com vagões de soja e milho envenenados por pesticidas vindos de Sinop para entupir os portos privados de Miritituba, no Tapajós.
Enquanto os poderes da República e do mercado agromineral se movem para rasgar a Floresta, barrar o rio e comer a terra, os rumos antigos desviam a prosa na contramão de tudo isso. Enquanto o progresso produtor de colapso climático se apresenta como única via, destino inescapável, os caminhos ancestrais abrem caminhos.
Andanças de Assis e Chico entre o Xingu e o Tapajós
A chuva espera a chegada da voadeira e da noite para se derramar na comunidade São Francisco, dentro da Reserva Extrativista Rio Iriri, na Terra do Meio, no Pará. Em São Francisco, por todo lado, pisamos em terra preta ou terra de maloca, chão fértil, escuro e coalhado de antigos cacos de cerâmica. Sinal de que há séculos, milênios, muita gente viveu ali. É diante do Rio Iriri, ou banhadas por ele, na primeira semana de maio, que as expedições científicas começam.
Um dos anfitriões é Francisco de Assis de Oliveira, o Assis, extrativista de 62 anos, jito no tamanho e grande na oratória. Ele preside a Rede Terra do Meio, articulação que reúne organizações comunitárias indígenas, extrativistas e tradicionais da região e faz girar a economia da Floresta, integrando-a a políticas públicas como o Programa de Aquisição de Alimentos, o PAA, do governo federal. Assis atravessa seu cacoal para ouvir e contar sobre os caminhos.
As áreas entre as bacias do Xingu e do Tapajós formam o maior corredor de sociobiodiversidade da Amazônia oriental, têm imensa lacuna de estudos e são cada vez mais pressionadas pelos desatinos do capital. A passagem terrestre no interflúvio envolve dois trajetos: o Paga Conta e o Itapacurá. Essas trilhas se cruzam com os caminhos de Assis.
A família de Francisco de Assis de Oliveira e Maria do Socorro Duarte, da Terra do Meio. A memória de Assis cruza varadouros seringueiros. Foto: Guilherme Guerreiro Neto/SUMAÚMA
O avô de Assis veio do Ceará no tempo da seringa. Sua mãe, Celina, nasceu na Terra do Meio. Seu pai era Munduruku, das bandas do Tapajós. Atravessou o Itapacurá até o Riozinho do Anfrísio, onde se engraçou com ela. Depois que o filho nasceu, o pai foi-se embora e nunca mais voltou. Assis aprendeu a cortar seringa com seu tio Herculano e com Francisco, o homem que se casou com sua mãe.
Ele lembra de ouvir falar sobre o Paga Conta, um velho caminho indígena que virou varadouro seringueiro. "O nome era Paga Conta porque, naquele tempo, o cara ficava devendo pro patrão e aí, na hora de tentar passar, como é estreito, o outro 'pul!', matava", conta Assis. Era o sistema de aviamento que imperava, em que os seringalistas submetiam os seringueiros a um regime quase cativo de endividamento, com monopólio comercial dos patrões. Mesmo diante do mercado global a se infiltrar na Amazônia, os seringueiros mantinham a Floresta viva.
No Itapacurá, por onde seu pai alcançou os lados do Xingu e o próprio Assis se embrenhou para buscar borracha quando jovem, os rastros de grilagem, roubo de madeira e garimpo hoje deixam degradação. Mais ainda no rumo do Tapajós, nas proximidades com a BR-163 e o distrito de Miritituba, em Itaituba. Ali os trilhos da Ferrogrão são o novo monstro. As vias da monocultura, diferentemente dos caminhos extrativistas, passam por cima da vida e espalham colonização ao redor.
Nem as áreas protegidas escapam à expansão ruralista. Em 20 de maio de 2026, para legalizar a ocupação ilegal na Floresta Nacional (Flona) do Jamanxim, a Câmara dos Deputados - com articulação do ex-governador do Pará Helder Barbalho e sua família - transformou quase 40% da Flona em área de proteção ambiental, um tipo de unidade de conservação bem menos protegida, decisão depois referendada pelo Senado. No dia seguinte, o Supremo Tribunal Federal (STF) validou uma lei de 2017 que havia retirado 862 hectares de outra área protegida da região, o Parque Nacional (Parna) do Jamanxim, para a Ferrogrão passar.
Um levantamento feito pela arqueóloga Bruna Rocha, professora da Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa), identificou 393 sítios arqueológicos no traçado da Ferrogrão e apontou um processo de apagamento cultural capaz de causar o genocídio de povos indígenas. Bruna trouxe seus anos de pesquisa no trecho encachoeirado do Tapajós e na Terra do Meio para o projeto Caminhos Ancestrais.
Rotas do capital como a Ferrogrão ameaçam os povos. Em 2024, Indígenas protestaram contra a ferrovia na Cargill em Santarém. Foto: Michael Dantas/SUMAÚMA
Para Bruna, que preside a Sociedade de Arqueologia Brasileira, há uma história compartilhada em várias escalas entre o Tapajós e o Xingu. Desde as antigas trajetórias indígenas até o tratamento dado pelo Estado e a resistência dos povos. A pesquisa arqueológica, que por muito tempo escavou pontos de habitação ancestral onde havia aldeias, agora segue também os pontos de travessia, caminhos.
O mateiro e pesquisador beiradeiro Francisco Firmino Silva, o Chico Caititu, é fruto das andanças que fazem confluir, mesmo que as águas não se toquem, esses dois afluentes da margem direita do Amazonas. Sua mãe, Maria Firmina, de sangue indígena, vem do Xingu. Em Gurupá conheceu seu pai, Pedro Firmino, com quem se casou. Os dois rumaram para Mojuí dos Campos. Foi lá que Chico nasceu e começou a virar doutor em floresta. Ele ainda passou pelo Curuá-Una até chegar, mais de 40 anos atrás, à centenária comunidade Montanha e Mangabal.
"Todo o tempo, até hoje, com 76 anos, eu tô dentro da Floresta, lutando por essa Floresta", diz o mateiro. Por quatro vezes ele precisou fugir de casa porque pistoleiros queriam acabar com ele. Chico luta por seus caminhos. O Xingu, barrado por Belo Monte. Mojuí dos Campos, onde a Floresta cada vez mais vira um deserto dos campos de soja. O Curuá-Una, invadido por uma usina hidrelétrica ainda na ditadura empresarial-militar (1964-1985). Montanha e Mangabal, que enfrenta a contaminação do rio e as dragas do garimpo.
Enquanto pelejavam contra grileiros que tentavam tomar suas terras, contra o governo federal que ameaçava um complexo hidrelétrico para a bacia do Tapajós, os beiradeiros do assentamento agroextrativista Montanha e Mangabal ataram aliança com os guerreiros dos territórios Munduruku, seus vizinhos no Tapajós. A aliança começou no Xingu, em 2013, quando os Munduruku ocuparam os canteiros de Belo Monte para pressionar e impedir que o Xingu e o Tapajós fossem represados. Chico Caititu estava lá, diante do próprio passado, diante das águas que pariram sua mãe.
O pesquisador beiradeiro Francisco Firmino Silva, o Chico Caititu, é fruto de andanças entre o Xingu e o Tapajós. Foto: Guilherme Guerreiro Neto/SUMAÚMA
Vieram as autodemarcações e a aliança se fortaleceu. Por quase três meses, o mateiro ajudou os Munduruku a marcar os pontos do território Sawré Muybu no GPS. Depois, os Indígenas foram à Montanha e Mangabal em auxílio aos beiradeiros.
A comunidade de Chico entregou o georreferenciamento ao Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária, o Incra, responsável pelos assentamentos, mas o órgão federal perdeu os dados e a titulação de Montanha e Mangabal até hoje não saiu. Procurado, o Incra Oeste do Pará alegou que o HD queimou e que o computador onde estavam os dados era de um servidor que se aposentou e nunca mais atendeu ligações. O processo de demarcação da Terra Indígena Sawré Muybu avançou só em 2024, com a assinatura da portaria declaratória pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública.
Os jovens pesquisadores indígenas Antony Dace e Delinaldo Saw querem espichar o trabalho de seus mais velhos pelo território Munduruku. Eles fazem o monitoramento da área. As ameaças de garimpeiros diminuíram depois que saiu a declaração da terra, mas Antony e Delinaldo não deixam de monitorar. Sabem que sempre vão precisar proteger seus caminhos dos invasores. Também por isso eles, assim como Chico Caititu, levaram o Tapajós ao Iriri.
Memórias ribeirinhas e indígenas diante do rio
Depois do almoço com pacu gordo e saudável como há tempos não via, Rita Cavalcante desce a ribanceira para se banhar no rio. Ao pisar nas pedras do fundo do Iriri, seu corpo-memória entra nas águas do Xingu, um Xingu que não existe mais. "Trouxe uma lembrança muito boa dum rio que eu conhecia outrora lá onde eu moro." Francineide de Sousa, a França, mergulha junto com ela. "Nós chegamos a ver a terra. No reservatório não tem mais isso. É todo o tempo lama."
Joana da Silva também está no banho. Antes do Xingu, seu mundo era o Iriri. Aqui ela nasceu e se criou. Seu pai, Raimundo, veio do Tocantins para ser soldado da borracha. Foi cortando seringa rio acima até chegar à localidade Triunfo, onde se casou com Raimunda, mãe de Joana. Enquanto o pai saía para o seringal ou para quebrar castanha, a menina ia pescar com a mãe, para dar de comer aos irmãos. "Minha mãe na proa e eu na popa da canoa com um canicinho, pegando aquelas matrinxãzinhas que só faltavam tomar o caniço da minha mão."
Na comunidade São Francisco, França reencontra Laura Mendes, amiga que não via desde a juventude. Memelo, o pai de França, era regatão. Levava açúcar, café e outros mantimentos pelo rio e trocava com o povo por peixe, borracha, castanha. Quando os Beiradeiros precisavam ir à cidade, iam com Memelo no barco e muitos se arranchavam na casa dele. Foi assim que Laura e França se conheceram.
No Iriri, a pesquisadora ribeirinha Francineide de Sousa, a França, lembrou do Xingu que existia antes de Belo Monte. Foto: Guilherme Guerreiro Neto/SUMAÚMA
A Terra do Meio não está imune à pressão de desmatamento, à criação de gado irregular e ao garimpo ilegal. Em junho, durante a Operação Pasto Nullus, o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, o ICMBio, apreendeu 436 bois, maquinários, ouro e mercúrio usados em garimpos na Estação Ecológica da Terra do Meio. Houve reação de pecuaristas, que interceptaram caminhões, abriram carrocerias e soltaram animais apreendidos. As águas da Terra do Meio, no entanto, ainda respiram.
Rita, França e Joana são pescadoras e pesquisadoras ribeirinhas no projeto Caminhos Ancestrais. Desde que a usina de Belo Monte começou a operar no Xingu, há dez anos, elas foram confrontadas com o fim da vida que conheciam. Perderam a terra, perderam o rio. Como conselheiras do Conselho Ribeirinho, a luta que travam é para que a concessionária Norte Energia cumpra sua obrigação de reassentar à beira do lago as famílias que foram expulsas, de garantir o direito dessas famílias de voltar para casa e refazer a vida, o direito ao Território Ribeirinho.
A destruição gerada pela hidrelétrica golpeou a sociobiodiversidade. Arrastou vidas humanas e mais-que-humanas do rio tanto no lado do reservatório, onde fica o Território Ribeirinho, quanto no lado do trecho de vazão reduzida, a Volta Grande do Xingu. O Monitoramento Ambiental Territorial Independente da Volta Grande do Xingu, o Mati, que em abril de 2026 virou instituto, todo ano registra a morte das piracemas no seco, o barramento do ciclo de desova das peixas. Antigos berçários de alevinos viraram cemitérios.
Com 80% das águas sequestradas por Belo Monte, a Volta Grande sentiu a perda dos igapós, o rio-floresta das beiras. Josiel Juruna, o Diel, pesquisador indígena e diretor do Mati, precisava conhecer um dos caminhos onde a vida acontece na Reserva Extrativista, a Resex do Iriri, para se misturar de novo com um igapó são. Fazia tanto tempo... Ele se atira da voadeira com uma câmera GoPro e registra o substrato bem concentrado no fundo, os peixinhos ainda miúdos nadando e merendando as frutas que caem no rio antes de seguirem seus destinos.
O pesquisador indígena Josiel Juruna, o Diel (à esq.), encontrou no Iriri um igapó sadio, como não se vê mais na Volta Grande do Xingu. Foto: Soll/SUMAÚMA
"A gente tem aquela memória de antes da barragem. Quando visita um lugar desse, isso renasce na gente", diz Diel, Juruna da Terra Indígena Paquiçamba. Nele renasce a memória e nasce o sonho de um monitoramento integrado dos territórios nesse caminho que vai da sufocada Volta Grande às reservas extrativistas da Terra do Meio. Na Terra do Meio, com apoio do Instituto Socioambiental, o ISA, as comunidades já monitoram seus modos de vida e as caças que aparecem.
Se não bastasse Belo Monte, outra ameaça ronda os caminhos da Volta Grande do Xingu: a mineradora Belo Sun. A multinacional canadense está prestes a revirar aquelas terras ancestrais e abrir ali o que anuncia como a maior mina de ouro a céu aberto do Brasil, acompanhada de uma barragem de rejeitos quase três vezes maior que a de Brumadinho, em Minas Gerais - cujo rompimento, em 2019, matou 272 pessoas, contaminou o Rio Paraopeba e uma porção da Mata Atlântica.
Em fevereiro e março deste ano, o Movimento de Mulheres Indígenas do Médio Xingu ocupou a sede da Fundação Nacional dos Povos Indígenas, a Funai, em Altamira, contra a extração de ouro que vai enriquecer investidores estrangeiros e contaminar suas terras e suas águas. Kainaru Arara, cacica das mulheres em sua aldeia na Terra Indígena Cachoeira Seca, apoia a mobilização das parentas. "A luta desse movimento é pra não deixar destruir. A gente não quer mais isso pro Médio Xingu."
Kainaru se preocupa com os karei, os brancos de fora que são atraídos por monumentos do progresso como Belo Sun, Belo Monte, como a Transamazônica. Os Arara são um povo de recente contato. Seria melhor dizer de recente invasão branca, militar e patriarcal, com o corte da estrada e o Programa de Integração Nacional, que estimulou a migração de colonos para onde havia Floresta e Indígenas.
A imensa castanheira assassinada diante do ditador general Emílio Garrastazu Médici, em 1970, no início da construção da Transamazônica, e seu toco tornado monumento dois anos depois, como marca da entrega do trecho rodoviário aberto até o Tapajós, narram a tragédia que obrigou os Arara a se dispersarem. O monumento dessa história e dessa via de violação é conhecido como "pau do presidente".
A luta que move Kainaru e seu povo é pela desintrusão da Cachoeira Seca, a retirada dos invasores que fazem dessa Terra Indígena a segunda mais desmatada da Amazônia Legal na série histórica do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, desde 2008. No dia 28 de maio, o presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Edson Fachin, determinou à União que em 90 dias apresente um plano de desocupação do território de Kainaru e que faça um comitê de governança para proteção de povos indígenas isolados e de recente contato.
Caminhos do passado projetam outros futuros
Dias depois da expedição no Iriri, o biólogo e pesquisador da Academia Juarez Pezzuti, o Juca, professor da Universidade Federal do Pará, a UFPA, viaja até os territórios Kayapó para fazer um reconhecimento inicial dos caminhos indígenas. Estamos na virada de maio para junho de 2026. Foram os próprios Kayapó, pela Associação Floresta Protegida, que apontaram suas rotas para o projeto Caminhos Ancestrais. Pouco se sabe sobre a biodiversidade que vai ser encontrada ali.
"As características desses caminhos são a ausência de inventários biológicos e a ocupação ancestral desses territórios", relata Juca. Os caminhos Mebêngôkre, que remontam à trajetória dos Kayapó, seguem apenas nas histórias dos anciãos. Há décadas não são pisados por humanos. Agora, jovens pesquisadores indígenas vão refazer o itinerário guiados pela memória de seus mais velhos. Talvez lá a expedição se depare com maiores densidades de espécies mais-que-humanas fazendo dos caminhos suas casas.
O pesquisador da Academia Juarez Pezzuti, o Juca, visitou as terras Kayapó para conhecer os itinerários Mebêngôkre. Foto: Morgan Schmidt/Caminhos Ancestrais
Mais de um século atrás, naturalistas europeus tocaram expedições no Xingu e no interflúvio com o Tapajós. O geógrafo francês Henri Coudreau, em 1896, fez sua Viagem ao Xingu. Em 1909, a ornitóloga alemã Emília Snethlage enveredou, guiada por Indígenas Xipai e Kuruaya, por A Travessia entre o Xingu e o Tapajós.
De lá para cá, a tomada colonial do Brasil republicano feriu esses rios, seus povos, desfez os fluxos entre espécies. Na ciência, por outro lado, a crítica ao colonialismo desloca Indígenas, Ribeirinhas, Beiradeiros, Extrativistas da condição de guias ou informantes para a de pesquisadores. O projeto Caminhos Ancestrais assume o desafio ético de ser uma pesquisa intercultural, de fazer ciência misturando diferentes regimes de conhecimento.
"A gente está diante de epistemologias diversas. No fundo, o que a gente busca são respostas. Sobretudo agora, com a crise climática iminente, da qual a gente não vai poder escapar. Esse é um momento de se abrir para soluções. E não podemos passar sem os conhecimentos tradicionais", reconhece a antropóloga Sônia Magalhães, professora da UFPA, uma das coordenadoras do trabalho. Participam ainda pesquisadores de universidades como as federais do Amazonas e de Mato Grosso, Ufam e UFMT, a estadual de Campinas, Unicamp, e do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, o Inpa.
Há mais de 30 anos, Sônia estuda os deslocamentos forçados por barragens na Amazônia. Pergunto a ela sobre a mobilidade dos povos como prática de liberdade. Sônia responde que o mover-se faz parte das sociedades humanas. As guerras, as perseguições e a expansão dos domínios do Estado-capital dão ao verbo um caráter compulsório em vez de voluntário. Nos casos que mais nos afetam na Floresta, a ideologia do desenvolvimento encobre a dor e a perda de ser desterrado.
Os territórios não cabem em si. Transbordam pelas rotas por onde os trânsitos da vida viajam. Por isso os caminhos entre os povos também são parte dos territórios. "Essa pesquisa se propõe a recompor esses caminhos, revisitar essas histórias e propor formas de manter os territórios vivos, como os povos que ali habitam os pensam, os defendem, os projetam pro futuro", explica a pesquisadora da universidade que, mesmo sem estar presencialmente na expedição, embarcou na viagem.
A voadeira retorna ao Xingu levando a ponta do barbante que enreda tantas lutas. Contra as rotas da expropriação, os percursos ancestrais feitos de biodiversidade e as vidas do grande e diverso território tecido entre o Xingu e o Tapajós são caminho. E caminho é muito.
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