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De volta à Amazônia, Céline Cousteau produz documentário sobre a saúde de índios do Vale do Javari

Amazônia Real- http://amazoniareal.com.br
Autor: Elaíse Farias
07 de ago de 2014

No início da década de 80, com nove anos de idade, Céline Cousteau esteve na Amazônia pela primeira vez, junto com o avô, o oceanógrafo e documentarista francês Jacques Cousteau (1910-1997). Já adulta e atuando como documentarista, ela retornou à região em 2006 e 2007 para acompanhar o pai, Jean-Michel Cousteau. Um dos lugares visitados na Amazônia foi a Terra Indígena Vale do Javari, no extremo sudoeste do Estado do Amazonas, fronteira com o Peru.

Ali, Céline Cousteau se deparou com uma realidade pouco conhecida para além das fronteiras do país: a alarmante situação da saúde dos povos da Terra Indígena Vale do Javari. Durante a viagem pela reserva, Céline consolidou amizades com algumas lideranças.

Sete anos depois, Céline Cousteau voltou à Terra Indígena do Vale do Javari. Atendeu o chamado de um amigo, o indígena Beto Marubo, que em 2010 escreveu uma carta à documentarista sugerindo que ela produzisse um filme sobre a situação da saúde dos povos da reserva. Na carta, Beto informou que os índios continuavam morrendo de doenças como hepatite e a assistência de saúde permanecia negligenciada pelo poder público.

Para viabilizar o projeto, a neta de Cousteau esperou quatro anos para então ter condições de desenvolver a expedição, o que foi ocorrer apenas entre os meses de maio e junho deste ano. A primeira etapa do documentário, que se chamará "Tribos no Limite" (Tribes On The Edge) encerrou-se em junho passado.

Na Terra Indígena Vale do Javari vive uma população estimada em 5.000 índios das etnias maioruna, marubo, kanamari, kulina e matis, além de grupos isolados, entre eles, os korubos e etnias ainda desconhecidas, segundo dados da União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (Univaja).

Leia a entrevista a seguir:

Amazônia Real - Como foi a sua primeira visita ao Vale do Javari?

Céline Cousteau - Fui ao Vale do Javari em 2007 para a produção do documentário "Retorno ao Amazonas", junto com meu pai (Jean-Michel Cousteau), que voltou aos locais que meu avô Jacques Cousteau havia visitado em sua lendária expedição dos anos 80. Fomos conhecer o povo matís, recém contatados. Fomos a uma conferência dos povos indígenas na aldeia Rio Novo, do povo marubo. Estivemos lá junto com a Funai e outros órgãos responsáveis pelos povos indígenas. E descobrimos nesse momento que havia uma situação grave de saúde, com casos de hepatite entre os indígenas. Tuberculose e malária também foram detectados entre os indígenas. Parecia impossível que uma enfermidade que tem como prevenir fosse tão grave para os indígenas da região. E que nada estava sendo feito para ajudá-los.

AR - Qual foi a dimensão do impacto dessa visita?

Céline Cousteau - Saí de lá em 2007 sabendo que precisaria fazer alguma coisa. Em 2010 um dos líderes dos marubo (Beto Marubo) escreveu e me pediu para contar a história deles para o mundo. Tudo isso levou muito tempo para organizar, montar equipe e logística, reunir fundos para uma expedição. Conseguimos realizar a primeira expedição agora. Em maio e junho estivemos no rio Ituí, visitando o povo marubo, no rio Novo e Boa Vista, e fomos também ao rio Branco para ver os matís, que migraram do rio Ituí para este lugar ancestral dessa etnia. O documentário vai levar mais dois anos para ser concluído, mas, de qualquer forma, para mim já é um grande orgulho ser a pessoa que eles escolheram para contar suas histórias.

AR - Qual sua percepção da realidade dos indígenas do Vale do Javari?

Céline Cousteau - Eles gostariam de ter a possibilidade de escolher o seu modo de vida. Mas não é mais assim. Apesar desse dilema, por conta do contato com a civilização que conhecemos (a nossa), há fartura nas aldeias. Tem muito alimento proveniente da floresta, além da caça. Mas a vida de pessoas totalmente isoladas não é fácil. Tem muito trabalho para ser feito para manter a vida no meio da floresta. De qualquer forma é uma vida muito saudável. Não há poluição, ruídos, contaminação. É um paraíso.

AR - Quais as maiores dificuldades no cotidiano dos povos indígenas, na sua opinião?

Céline Cousteau - Da floresta também saem todos os remédios para as enfermidades conhecidas por esses povos. Agora, para as enfermidades provenientes dos povos brancos, tudo é muito mais complicado. E agora se enfrentam uma dualidade. De viver como desde sempre ou viver com o contato fora do Vale do Javari. Receber recursos dos governos. Por exemplo, eles têm que sair do Javari para receber esse dinheiro nas cidades. Esse percurso pode ser de dois a cinco dias de viagem a bordo de uma canoa com um motor de 9 hp que faz um ruído espantoso. É muito difícil, quase impossível entendermos essa situação, pois se precisamos ir ao banco ou ao médico tomamos um táxi e pronto. Mas uma pessoa doente ou até mesmo uma mulher grávida tem que se deslocar por todo esse tempo em condições muito desagradáveis. Não há conforto em um barco, tampouco equipamentos como uma maca para poder deitar-se.

AR - Como você descreveria o atendimento médico em um lugar tão remoto e com tantas dificuldades logísticas?

Céline Cousteau- Percebemos que há uma grande dificuldade de receber atendimento nesses locais, muito distantes de qualquer estrutura necessária para receber indígenas. Uma pessoa com hepatite tem que se deslocar até Atalaia do Norte (município amazonense onde está localizada a reserva Vale do Javari) para ser atendida. Nós mesmos levamos mais de 14 horas de barco para chegar a aldeia Rio Novo. Se acontece algo na aldeia, como uma picada de cobra, super comum na região, essa pessoa tem que ter muita sorte para não perder sua perna ou sua vida.

AR - Você poderia citar algumas dificuldades vividas pelos indígenas, além das doenças?

Céline Cousteau - São muitas dificuldades. A governança do local, por exemplo, não oferece qualquer segurança a essas tribos, que estão sendo ameaçadas por madeireiros, pescadores, caçadores. São invasores que estão ocupando um espaço que não é seu. Pertence aos povos indígenas. E os indígenas já sinalizaram que não querem esse tipo de exploração em suas terras. Os recursos que estão lá são desses povos. Mesmo assim eles estão sendo constantemente ameaçados sem que tenham o respaldo necessário dos órgãos que cuidam da situação indígena no País.

AR - Há outras ameaças?

Céline Cousteau - Outro problema são os missionários. Parece que estão entrando sem autorização. Chegou um avião missionário ao rio Ituí sem permissão da Funai, sem um convite da Univaja, os representantes dos indígenas do Vale do Javari. E isso é totalmente ilegal, não importa se é madeireiro, caçador ou representante de Deus. Se há uma lei que protege os indígenas é uma lei que vale e deve ser cumprida por todos. Outra ameaça é a atividade petrolífera. Os indígenas afirmaram que não querem que empresas petrolíferas entrem no Vale do Javari. E isso é ponto final. Eles entendem muito bem que os recurso econômicos não valem a pena pois há grande possibilidade de contaminação de suas terras e, principalmente de suas águas. Isso para os povos indígenas é vida. E não há dinheiro que possa pagar por isso.

AR - O que seu documentário vai retratar?

Céline Cousteau - Essa história que vimos no Vale do Javari não é nova. Conhecemos histórias de outros povos e em outras regiões do mundo e sabemos que a destruição de povos e ecossistemas não é boa para ninguém. No ecossistema do Vale do Javari há muitos recursos que podemos usar para a medicina e diversas outras áreas. E acredito que se explicarmos dessa forma para as pessoas, muitos vão se sensibilizar. Se cortarmos árvores não vai mais chover na Amazônia e as correntes de ar não vão levar a umidade até São Paulo e outras regiões do Brasil. Assim que o que estamos falando é importante para todos no Brasil e no mundo. E mais que isso, são pessoas que estão morrendo. E não podemos deixar isso acontecer com vidas humanas. A responsabilidade é de todos nós. E estamos mostrando essa realidade do Vale do Javari como uma proposta de prevenção a esses fatos.

AR - Como foi a expedição em cada aldeia visitada?

Céline Cousteau - Fiquei três dias em cada aldeia. É muito pouco para ter uma opinião sobre um povo e as pessoas, quem são, como se comportam entre eles. Assim, tenho uma opinião muito superficial. Cada aldeia é muito diferente uma da outra. Mesmo sendo de mesma etnia há grandes diferenças das aspirações, os projetos, seu sofrimento, entre cada uma das aldeias, que funcionam como uma grande família distinta uma da outra, apesar de eles mesmos se tratarem como irmãos. Mesmo os povos isolados, essas aldeias que já têm contato com o mundo daqui são responsáveis por esses povos e os defendem daquilo que não conhecem.

AR - Além dos problemas e das dificuldades, o Vale do Javari também tem beleza natural e cultural. O que mais lhe encantou ali?

Céline Cousteau - O que me encantou e a minha equipe é que o Vale do Javari é uma região única no mundo, seu povo é único. Aprendemos muito sobre nós mesmos estando lá nessa última expedição. A Unesco declarou que essa região é insubstituível em termos de biodiversidade. Também temos que saber que é o lugar do mundo com o maior números de pessoas isoladas de todo o resto. Estima-se que de 1.500 a 2.000 indígenas nunca tiveram contato com o mundo como nós conhecemos.

AR - Fale sobre o documentário. Quando ele será finalizado e quais os planos para sua exibição?

Céline Cousteau - O documentário está previsto para 2016. Acredito que os Jogos Olímpicos vão trazer uma visibilidade interessante para o Vale do Javari. Já temos um site (tribesontheedge.com) que mostra um pouco do que foi essa última expedição. Teremos uma plataforma multimídia onde serão apresentados o making off das gravações e também fotos interessantes de nossas expedições. Haverá outro website, que ainda estamos elaborando, que vai reunir informações para antropólogos, conservacionistas, médicos, imprensa, e todos os profissionais que de alguma maneira poderão contribuir e trabalhar com as questões do Vale do Javari.

AR - De que forma seu documentário vai ajudar os povos indígenas?

Céline Cousteau - Eu posso ajudar a difundir a voz dos indígenas em todo o mundo. Essa é a minha intenção. Por parte deles, segundo os relatos que tivemos nas aldeias, eles não querem ser extintos, não querem desaparecer. Querem que o mundo conheça quem são, saibam de sua existência. A minha parte é contar essa história e ser portadora dessa mensagem para o mundo. E espero que possa dar minha contribuição.

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