Samaúma - sumauma.com
Autor: Eliane Brum
06 de Mai de 2026
Belo Sun Mining Corp: nem conhecemos o nome dos investidores que querem destruir a nossa casa
A Volta Grande do Xingu, assombrada pela fantasmagoria de uma empresa listada na Bolsa de Valores de Toronto, tornou-se o corpo a ser destroçado pelo capital globalizado
Eliane Brum, Amazônia, Rio Xingu, Amazônia, Altamira
5 maio 2026
Neste momento, se desenrola na Volta Grande do Xingu o que poderia ser uma tese sobre o capitalismo. A mineradora canadense Belo Sun decidiu abrir o que anuncia ser a maior mina de ouro a céu aberto no Brasil, numa das regiões mais biodiversas da Floresta Amazônica, lar de pelo menos três povos indígenas, populações ribeirinhas e camponesas e de milhares de espécies, algumas delas que só existem lá, caso do precioso acari-zebra. Como explicar a povos originários e tradicionais que serão brutalmente atingidos o que é essa fantasmagoria que embora se desmanche no anonimato das ações no pregão da bolsa de valores provoca um genocídio no corpo da Floresta?
Como explicar que a milhares de quilômetros de distância, na outra metade do globo terrestre, pessoas muito muito ricas, supermilionários e bilionários, investem seu dinheiro para lucrar - muito - com o ouro que vai destruir um pedaço da Floresta da qual depende a vida de todos? Como explicar que essas pessoas nem prestam atenção aos impactos porque seu cálculo é financeiro, que elas provavelmente não têm nenhuma atenção ao que se passa na Floresta porque não lhes importa, que talvez nem saibam onde fica a fonte de seus lucros e de onde jorra o sangue dos corpos que arrasam?
Como explicar que as ações de Belo Sun aumentaram de valor em 2026, quando o projeto avançou para engolir uma volta do Rio, em vez de diminuir, porque destruirá um pedaço da maior floresta tropical do planeta? Como explicar o capitalismo a quem vive como floresta? Como explicar essa força de destruição só comparável ao poder de divindades? Como explicar uma bolsa de valores em que a vida é o que não conta? Como explicar que isso esteja acontecendo bem aqui, bem agora, na Floresta tão perto do ponto de não retorno? Que isso está acontecendo bem aqui, bem agora, na região já gravemente devastada pela Usina Hidrelétrica Belo Monte?
Como explicar isso às mulheres Xikrin Mebêngôkre, a elas que empunham o facão de Tuire para anunciar que estão prontas pra luta?
Belo Sun avança no território de base de SUMAÚMA. Comprometida com a vida, com a justiça e com os direitos dos povos humanos e outros-que-humanos, nossa equipa tem buscado entender e denunciar o que vai acontecer. E, quando entendemos, partes de nós se paralisam, porque é horrendo demais, é sórdido demais, é cínico demais. É letal.
Quando entendemos, precisamos juntar nossas forças para que o horror não nos paralise, porque vivemos aqui. E desde Belo Monte conhecemos a dor que não se deixa descrever que é a de ver as ilhas serem incendiadas, o rio ser barrado com toneladas de concreto, os animais morrerem, os peixes desovarem no seco, os Ribeirinhos morrerem de perdição, que ganha o nome de doenças reconhecidas pela medicina. Mas sabemos, ah como sabemos, que morrem de horror. "Tá tudo escuro... só vejo escuridão... o buraco da minha vida... o buraco da minha vida...", dizia João Pereira da Silva entre o primeiro e o segundo AVC.
As ilhas do Xingu onde viviam famílias ribeirinhas foram incendiadas em 2015 para a construção de Belo Monte. Foto: Lilo Clareto/SUMAÚMA
É escuro, é um buraco entender como opera uma empresa transnacional como Belo Sun. Listada na Bolsa de Valores de Toronto, no Canadá, qualquer pessoa pode investir nas ações da mineradora. Mas só temos um nome quando alguém ou um grupo de investidores passa a deter mais de 10% das ações ou quando faz parte do grupo de administradores e diretores da empresa. Neste momento, o único com essa porcentagem de ações que aparece nos documentos da empresa é o grupo La Mancha, uma consultoria de investimentos especializada na mineração de ouro e metais para transição energética, que também não revelará seus clientes. Isso significa que nem sequer sabemos o nome de nossos assassinos.
Ao investigarmos Belo Sun e tudo o que a envolve, vamos nos horrorizando mais e mais. Como na reportagem que acabamos de publicar: os jornalistas Plínio Lopes e Hyury Potter descobriram que a mineradora canadense diz uma coisa no Brasil e outra a seus acionistas. No Brasil, afirma que vai arrancar da Floresta 55,6 toneladas de ouro. A seus acionistas, afirma que será quase o dobro disso, perto de 100 toneladas. Nos documentos que anexou ao pedido de licenciamento à Secretaria de Meio Ambiente, Clima e Sustentabilidade do Estado do Pará, a Semas, dimensiona a barragem de lixo tóxico em 35,4 milhões de metros cúbicos. Mas SUMAÚMA descobriu que esta seria apenas a "barragem inicial", como afirmou Belo Sun à reportagem, a que suportará "os primeiros anos de operação". O total poderá chegar a quase o triplo: 101,6 milhões de metros cúbicos.
Nós, aqui no Médio Xingu, já éramos atravessados pelo pavor com 35,4 milhões de metros cúbicos de produtos como cianeto na nossa casa. Essa barragem já seria quase três vezes o tamanho da barragem da mina Córrego do Feijão, operada pela Vale em Brumadinho, no estado de Minas Gerais, que rompeu em 2019 e provocou a morte de 272 pessoas, contaminou 300 quilômetros do Rio Paraopeba e destruiu mais de 200 hectares de floresta. Mas não, será quase o triplo disso, um arranha-céu de lixo tóxico a 2 quilômetros do Rio Xingu.
Temos tantas perguntas... Como a Semas deu licença de instalação a Belo Sun em um processo cujos estudos datam de antes de 2017, antes de Belo Monte operar em toda a sua potência? Como, se em quase dez anos todo o território se transfigurou com o impacto da hidrelétrica? Como o governo federal, na figura do Ibama, lutou para não fazer o licenciamento de um projeto que atinge povos indígenas? Como um desembargador, Flávio Jardim, autorizou a licença numa decisão monocrática, ou seja, apenas dele, impactando a vida de todos?
Belo Sun já foi autorizada a desmatar 600 hectares em uma região dolorosamente ferida da Floresta, mesmo com tantos pontos de interrogação e informações contraditórias. Como? Por quais forças?
Há ainda uma outra grande pergunta: como é possível que isso esteja acontecendo e não tenha se transformado num escândalo dentro e fora do Brasil? Sim, porque Belo Monte teve grande parte da opinião pública, inclusive de autodeclarados de esquerda, que defendia a obra porque supostamente geraria energia para o Brasil. Mas e Belo Sun? Por que defender uma mineradora canadense que vai arrasar com a Volta Grande do Xingu apenas para encher os bolsos de supermilionários e bilionários do Norte Global com 80 bilhões de reais, à custa da vida, da nossa e a da Floresta?
E, sim, omissão também é um tipo de defesa do indefensável.
Precisamos de todas, todos, todes. Nem que seja porque todas as pessoas deste planeta dependem da Floresta para seguir vivendo. Se Belo Sun avançar, em breve os moradores da Volta Grande vão dormir e acordar ao som das dinamites explodindo rochas bem perto da barragem principal de Belo Monte. Hora após hora, dia após noite. Não quero jamais ter que chegar ao ponto de contar a vocês o que é testemunhar a Floresta sendo explodida - e com ela a nossa vida.
Não nos deixem sós numa luta que vai muito além de nós.
A pergunta da ativista na Marcha pelo Clima, durante a COP de Belém, é a que cada um deve fazer a si mesmo enquanto dá tempo. Foto: Lela Beltrão/SUMAÚMA
Texto: Eliane Brum
Edição de arte: Cacao Sousa
Edição de fotografia: Lela Beltrão
Checagem: Plínio Lopes
Revisão ortográfica (português): Valquíria Della Pozza
Tradução para o castelhano: Meritxell Almarza
Tradução para o inglês: Diane Whitty/
Montagem de página e acabamento: Flávia Coimbra
Coordenação de fluxo editorial: Viviane Zandonadi
Editora-chefa: Talita Bedinelli
Diretora de redação: Eliane Brum
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