OESP, Aliás, p. J3
Autor: CANDOTTI, Ennio
22 de Jul de 2012
Veneno metálico
Recente resolução estabelece algumas normas para uso do mercúrio nos garimpos da Amazônia, mas não menciona sua toxicidade nem indica como mitigar acidentes
Ennio Candotti
O mercúrio metálico Hg+2, e particularmente o metilado Hg (CH3)+, e uma substancia muito toxica para o organismo humano e animal. O desastre na Baia de Minamata, no Japão, em1956, revelou as consequências do seu descarte no ambiente. Contaminadas por causa do consumo de peixes, milhares de pessoas da região morreram e um número maior sofreu distúrbios neurológicos severos. Desde então a legislação que regula o uso do mercúrio tornou-se em todo o mundo mais severa. O Brasil o proíbe desde 1989 (decreto 97.507), sem autorização especifica, nos garimpos de mineração artesanal.
Por sua afinidade com o ouro, o mercúrio e usado para separá-lo do cascalho. Adicionado a areia, ele forma com o ouro, e só com ele, um amálgama. Ao ser aquecido a alta temperatura, esse amalgama se separa em gás de mercúrio e ouro liquido, que rapidamente se solidifica no recipiente de operação. Assim, nesse processo, o mercúrio entra no meio ambiente na forma gasosa, liberada para a atmosfera na hora da queima, e na liquida, no descarte da areia contaminada.
Ocorre que a fiscalização do uso do mercúrio no garimpo - e fora dele - e precária, se não inexistente. Não ha também nenhuma ação do governo alertando os garimpeiros sobre sua toxicidade ou capacitando seu uso com perdas mínimas para o ambiente.
Recente resolução (011 de 2012) do Conselho Estadual de Meio Ambiente do Estado do Amazonas (Cemaam), com o propósito de regulamentar os garimpos que operam clandestinamente no Estado, estabelece normas para os procedimentos com mercúrio.
Não menciona, porém, sua toxicidade e muito menos as normas nacionais e internacionais que disciplinam seu uso. Alem disso, não indica os instrumentos de monitoramento e os meios de mitigação de acidentes a disposição dos agentes de fiscalização no cumprimento da resolução.
Essas exigências seriam satisfeitas se o garimpo estivesse sujeito a um sistema de seguros coletivos, como no manuseio de qualquer material radioativo. As resoluções que regulamentam, por exemplo, a operação dos reatores de Angra definem os procedimentos a tomar em caso de acidente e os meios e instrumentos a serem utilizados. Trata-se de exigências e definições não apenas do bom senso, mas também das companhias seguradoras de instalações nucleares e da operação de substancias radioativas.
Dados de 2008 do Departamento Nacional de Produção Mineral indicam a produção de 6 toneladas de ouro em garimpos que empregam cerca de 200 mil garimpeiros. A maior parte dessa produção se dá na Amazônia. Considerando que as estimativas mínimas de perdas totais de mercúrio para o ambiente são de 1,3 kg de mercúrio por quilo de ouro, temos uma estimativa (otimista) da quantidade de metal descartado no ambiente que alimentará, metilado, a cadeia alimentar de peixes. Com o uso do cadinho, equipamento que permite a recuperação do mercúrio gasoso, na hora da queima, um procedimento mitigador proposto pela Resolução da Cemaam, essa perda seria de apenas 15%.
Convém notar que na Amazônia o nível natural de mercúrio nas águas de muitos rios é por vezes elevado, chegando a 70 partes por milhão no Rio Negro, comparável ao de áreas contaminadas por ação humana em outras partes do mundo e superior ao nível considerado perigoso para a saúde humana pela OMS (50ppm). Acréscimos de mercúrio nessas águas podem alcançar taxas de periculosidade elevadas, particularmente em populações que consomem principalmente peixe.
O mercúrio se acumula no organismo, uma vez que sua eliminação ocorre de modo muito lento, e ao ingerir peixe em dias sucessivos suas taxas no corpo crescem rapidamente. Estudos realizados no Rio Tapajós revelam distúrbios neurológicos e mutagênicos recorrentes nas populações ribeirinhas.
A Resolução 011 não menciona o compromisso do Estado ou da Federação em oferecer os necessários recursos financeiros e humanos especializados no controle dessas atividades. Trata-se da saúde de todos, e a Amazônia não pode ser tratada como a vedete das noites de gala. Aqui vive um povo, pobre, mas laborioso, cuja saúde deve ser respeitada e nenhum ouro pode pagar.
(Colaboraram Bruce Forsberg e Vera F. da Silva, pesquisadores do Inpa)
Ennio Candotti é físico e diretor-geral do Museu da Amazônia
OESP, 22/07/2012, Aliás, p. J3
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