OESP, Metrópole, p. C3
09 de Jul de 2012
Trecho Leste do Rodoanel tenta ser 'sustentável'
Para diminuir impacto da obra, que deve ser inaugurada em 2014, uma ponte de 8,8 km está sendo construída sobre a várzea do Tietê
BRUNO RIBEIRO
O Trecho Leste do Rodoanel entrou no segundo ano de obras com três canteiros simultâneos e a preocupação de ser uma construção "ambientalmente correta". Para isso, técnicas ainda inéditas estão sendo usadas para minimizar impactos da construção dos 43,8 quilômetros de pistas.
O Estado visitou os canteiros, com exclusividade, na semana passada. O maior destaque é o chamado "encontro leve" - uma ponte de 8,8 quilômetros de extensão que está sendo construída sobre a várzea do Rio Tietê na cidade de Suzano, na Grande São Paulo. A área é um dos pontos ambientalmente mais sensíveis da Região Metropolitana.
A sensibilidade vem do risco em se aterrar uma área que sempre fica alagada. Nos meses do verão, naquela área, o rio sobe cerca de oito metros de altura.
Solução. Segundo o engenheiro responsável pela obra, José Alberto Berthônico, do consórcio SPMar, a solução para construir a pista sem aterrar a várzea do rio foi, literalmente, construir uma ponte marítima sobre terra firme. "Decidimos usar um cantitravel, usado para pontes no mar. A diferença é que, no mar, temos acesso à obra de qualquer ponto, com barcos. Nesse caso, não temos isso", afirmou.
"Cantitravel" é uma estrutura metálica que sustenta guindastes e mantém guias com roldanas para orientar a instalação das estacas da ponte. Quando uma estaca é martelada no solo, a estrutura é transferida para a nova estaca, sem que nenhum operário tenha de pisar no solo da várzea do rio.
Nem a água usada para o processo de cura do concreto da ponte cai na várzea. "Um sistema de dutos direciona a água para reservatórios, onde elas são coletadas", explica Berthônico.
Outro canteiro é a abertura do Túnel Santa Clara, que ocupa a área de antiga pedreira de mesmo nome. Lá, a água usada para resfriar as máquinas que estão escavando o túnel é reciclada. O consumo diário dos equipamentos é de 100 mil litros por dia - o que já resultou em economia de 15 milhões de litros de água.
As pedras retiradas no túnel estão sendo processadas e vão ser usadas na fabricação do asfalto. Há também outro canteiro, na conexão com o Trecho Sul, onde um viaduto está sendo erguido sobre a Avenida Jacu-Pêssego.
Investimentos. O Trecho Leste, que deverá ser entregue em 2014, está sendo construído pelo consórcio SPMar. Esse grupo vai administrar metade do Rodoanel, pois já gerencia o Trecho Sul. O investimento é de R$ 2,4 bilhões e a concessão das pistas será de 35 anos.
'Poluição de carros já trará impacto', diz ambientalista
Para ambientalistas, cuidados ambientais minimizam danos mais graves, mas não fazem com que o Rodoanel não tenha impacto. "Só a poluição emitida pelos carros quando a pista estiver pronta já trará grande impacto", diz Maurício Waldman, doutor em Geografia pela USP. "O Rodoanel reproduz o gigantismo de São Paulo, mas é mais do mesmo. Quando estiver saturado, me pergunto se não será preciso fazer outro Rodoanel, passando por Campinas, dando a volta pelo Atlântico. Obra ambientalmente correta é transporte público."
O processo de licenciamento ambiental do Trecho Leste do Rodoanel ainda está em andamento. A obra é dividida em dez lotes e só trechos já em execução conseguiram autorização.
Segundo o consórcio SPMar, o lote 4 - ligação do trevo do Rodoanel Sul ao Túnel Santa Luzia - e o lote 7, trecho de 4km que passa por Itaquaquecetuba, devem sair nos próximos dias. Com elas, 46% da nova rodovia já terá permissão para ser construída.
Dos restantes, o lote 5, entre o túnel e o encontro leve, já teve autorização solicitada. Segundo a concessionária, a licença dos demais lotes começará a ser pedida nas próximas semanas. O fim da obra, já na conexão com as Rodovias Ayrton Senna e Dutra, ainda depende de definições.
OESP, 09/07/2012, Metrópole, p. C3
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