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Teatro a serviço do verde

CB, Brasil, p. 14-15
Autor: MINC, Carlos
21 de Dez de 2008

Teatro a serviço do verde
Conhecido pelos gestos performáticos, o ministro do Meio Ambiente confessa que interpreta e explora o marketing pessoal.
Tudo, garante, em nome da causa ecológica

Entrevista: Carlos Minc

Leonel Rocha
Da equipe do Correio

Aos 19 anos, o ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, já tinha sido guerrilheiro urbano e estava no exílio, depois de ter ficado um ano preso pela ditadura militar brasileira. No começo da juventude, conviveu na Argélia com gente como o ex-governador de Pernambuco Miguel Arraes, já falecido, e o herói da independência da Guiné Bissau, Amílcar Cabral, assassinado pela direita lusitana. Morou na Argentina, Chile, Cuba e França. Em Paris, foi aluno de Renèe Dumont, um agroecologista ex-candidato à Presidência francesa pelo PV, que questionava o uso dos agrotóxicos. Em Portugal, onde conheceu sua mulher, fez doutorado em desenvolvimento econômico e o tema foi Amazônia.
As teses de Marcuse e Rosa de Luxemburgo o afastaram dos comunistas stalinistas guerrilheiros. Terminou se aproximando da libertação sexual, do feminismo, do movimento gay e do antimilitarismo. Define-se como um ecologista libertário. Quando voltou ao Brasil, abraçou de vez a causa da ecologia.
Agora, aos 57 anos e com dois filhos adultos, assumiu a arma do marketing como ação política. Hoje, ele aproveita o que aprendeu em alguns meses de aula de teatro com Augusto Boal, quando os dois estavam exilados, para burilar suas performances. No primeiro mandato de deputado estadual, uma das suas primeiras ações foi vestir com uma supercamisinha o obelisco do Rio de Janeiro. Pedia uma campanha menos hipócrita em favor do uso do preservativo para combater a Aids. Depois, parava os ônibus nas ruas, entupindo com batatas os canos de descarga dos veículos poluentes. Hoje, usa uma coleção de coletes como marca do marketing pessoal. Em Brasília, há seis meses e meio substituindo Marina Silva no ministério depois de seis mandatos de deputado estadual, constatou: "O poder federal é muito complicado pela diversificação e dimensão dos problemas". Sua maior dificuldade é implantar o Plano Amazônia Sustentável (PAS). "O plano está devagar, travado", lamenta, em entrevista ao Correio.

O marketing como ação política tem dado resultado?

Acho que sim. Até a hora em que levar um petardo, que cair do trator. Minhas ações acabam sendo um instrumento de dissuasão, de constrangimento para criminosos ambientais. Quero animar quem está na linha de frente, dissuadir quem está cometendo crimes ambientais e incentivar as denúncias da população, que passa a acreditar que o governo está fazendo algo. Mas o melhor fiscal, mesmo, é o povo consciente. Vou ao Rio todo fim de semana, ando sem segurança e paro para falar com todo mundo, e as pessoas que encontro me veêm na TV e depois em cima do trator derrubando fornos de carvão, como eu fazia na época das batatas nas descargas dos ônibus. Gostam das minhas ações porque enfrento a barra pesada.
Outro termômetro é o Congresso, onde estive 18 vezes. Quando viajo para as operações, sempre tem repercussão nos jornais locais. Faço isso também para dar moral aos fiscais do Ibama que estão na ponta. Eles ficam animadíssimos. Eu poderia ter uma posição mais cautelosa, mandar o presidente do Ibama falar sobre temas polêmicos. Mas não evito polêmica. Faço isso de forma consciente, como instrumento de ação política. Mostro para a sociedade que estou fiscalizando e aos transgressores que serão punidos.

O senhor está ganhando a guerra contra os agricultores ilegais?

Seria muita pretensão dizer isso com seis meses no ministério. Mas vários fatores me levam a ser otimista. Primeiro, os próprios agricultores melhoraram a consciência. Hoje em dia, várias cooperativas, federações, a CNA (Confederação Nacional da Agricultura) querem fazer parcerias com o Meio Ambiente para conscientizar os grandes. O agricultor já está percebendo que ele é a principal vítima do desmatamento, da erosão, da supressão de área de proteção permanente e da retirada da reserva legal. Além do mais, ele fica com o estigma de criminoso ambiental quando ocupa estas áreas. E também tem o pessoal da agricultura familiar, que acorda às 4h, rala desde o dia escuro, tem problema de preço, não consegue pagar o empréstimo e não tem educação ambiental. Temos que reverter esse quadro e mudar a economia, o modelo, ter mais orçamento, porque este tipo de problema não se resolve com polícia.

Mas os agricultores querem mais liberdade para trabalhar….

Os agricultores estavam querendo afrouxar e ocupar áreas que não devem ser ocupadas. Usei o exemplo de Santa Catarina na reunião com a Frente Ruralista, com a presença do ministro (da Agricultura, Reinholds Stephanes). Lá, as enchentes foram agravadas porque desmataram as encostas, assorearam os rios, suprimiram de áreas de preservação permanente e terminou vindo tudo abaixo, matando muita gente. Será que depois disso estão querendo afrouxar a preservação das áreas de proteção? Não aprendem com a tragédia?

O desmatamento ilegal zero na Amazônia é uma utopia?

É viável a médio prazo porque não podemos fazer isso em três anos. Deve ter polícia, educação e alternativa econômica. Se hoje é muito mais barato desmatar ilegalmente, não vamos resolver a questão econômica com policiamento. Para isso, temos que concluir a regularização fundiária, cobrar multas e apreender o produto do bem ambiental para inibir o enriquecimento ilícito.
Depois, temos que criar mecanismos de sustentação, de crédito, para ser mais barato recuperar um área desmatada, erodida, para que o produtor possa produzir em área já desmatada.

Não é uma contradição uma ação política como o senhor faz e ter liberalidade na emissão de licenças ambientais, como a que permitiu a construção de Angra 3, por exemplo?

Não há liberalidade. As licenças são muito mais rigorosas do que antes. Significaria liberalidade se tivéssemos menor rigor, condescendência, e adotássemos os prazos do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento). Quando houve a discussão hidroelétrica de Jirau, não aceitei pressão para emitir a licença para que a obra começasse antes da chuva. Suspendemos por 60 dias a pavimentação da BR-319 para atender as questões ambientais. No caso de Angra, eu era e sou contra esse tipo de combustível, porque não resolvemos ainda a questão do rejeito das usinas. Para alguns países, eu até entendo a utilização de energia nuclear.
Mas para nós, que somos a terra do sol, do vento e da biomassa, não. Além disso, a nuclear é muito mais cara. Na definição da Comissão Nacional de Política Energética, a Marina (Silva, ex-ministra do Meio Ambiente) votou contra, perdeu porque era minoria, mas deu continuidade ao processo de licenciamento com o rigor da lei. Quando cheguei, o licenciamento estava adiantado. O que fiz foi exigir monitoramento externo, entre outras coisas. Se as exigências legais foram cumpridas, não tenho como não ceder. Se dependesse de mim, não teríamos Angra 3. Mas o conjunto de ministros definiu esta política do governo. E eu não sou presidente da República. Ou faço isso ou saio do governo.

Mas sua militância contra a energia nuclear não seria uma bandeira importante e que exigiria uma atitude dessas?

Não acho. Até porque a (ex-ministra) Marina também era contra, perdeu na votação do conselho e deu seqüência ao processo do licenciamento.
Não posso sair do governo por causa de uma divergência. Nestes seis meses e meio no governo, o presidente Lula assinou o decreto de crimes ambientais, permitindo o leilão do boi pirata, criou 3 milhões de hectares de reservas e o serviço de guarda-parque, assinou o decreto da Mata Atlântica, vamos contratar 3 mil fiscais federais ambientais, teremos o fundo Amazônia e adotamos o plano do clima com metas de emissão. É um bom saldo.

Não está faltando a letra s,de sustentável, no Programa de Aceleração de Crescimento?

Poderia ter. Tenho conversado muito com a ministra Dilma (Rousseff, da Casa Civil) e ela tem me apoiado em muitas questões. Ela bancou que o ministério do Meio Ambiente presidisse o Fundo Amazônia por três anos, também apoiou o plano de emissão com metas. Quando sugeri o desmatamento zero, ela assumiu a bandeira.
Conseguimos, com o apoio dela, estabelecer metas para dobrar a quantidade de esgoto coletado e tratado em 10 anos. Ela tem me bancado dentro do governo.

Como anda a implantação do Programa Amazônia Sustentável?

Está meio devagar. É um programa de política integrada, um bom plano, mas nós não vamos alcançar as metas que nos comprometemos só com o aumento da nossa fiscalização. Tivemos uma primeira reunião há quatro meses com o ministro Mangabeira (Unger, ministro-chefe da Secretaria de Assuntos Estratégicos) e os colegas da Agricultura (Stephanes), Nelson Jobim (Defesa), Tarso Genro (Justiça), Guilherme Cassel (Desenvolvimento Agrário), Geddel Vieira Lima (Integração Nacional), e nós chegamos a 90% de acordo para implantar o plano, tirá-lo do papel. Foi marcada uma segunda reunião para 15 dias depois com os mesmos ministros e os governadores, com o acordo entre os ministros do governo federal.
Faltava os governadores definirem o que fazer nos estados para a coisa começar a funcionar. A segunda reunião nunca aconteceu. Deveria ter ocorrido há mais de três meses. Para alcançar as metas do PAS, temos que ter um novo modelo econômico previsto no programa. Mas isto não está acontecendo.

CB, 21/12/2008, Brasil, p. 14-15

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