OESP, Viagem, p. V2
Autor: CANTERAS, Diogo
19 de Set de 2006
Sustentabilidade e inconseqüência
Diogo Canteras
Estruturar empreendimentos turísticos de maneira sustentável é uma arte. Garantir a sustentabilidade econômica, ambiental e social, ao mesmo tempo, é um eterno andar sobre o fio da navalha, que as limitações impostas por uma economia emergente deixam ainda mais complicado.
Os órgãos de desenvolvimento do turismo no Brasil, incluindo o Ministério do Turismo e as secretarias estaduais e municipais, têm feito um trabalho admirável nesse sentido. Não é fácil, mas eles pacientemente têm construído essa sustentabilidade nos últimos 20 anos, entendendo a vocação natural de cada destino, as necessidades e aspirações das comunidades locais, elaborando um planejamento turístico consistente, investindo na infra-estrutura necessária e atraindo investidores e empreendedores.
O investimento em infra-estrutura para o turismo não é um item menor. Estamos falando de estradas, aeroportos, saneamento básico, promoção, etc. - tudo balizado por um planejamento criterioso, muitas vezes com o apoio de órgãos de fomento internacionais e seguindo parâmetros aplicados no mundo inteiro.
Paralelamente ao investimento em infra-estrutura, os órgãos de desenvolvimento do turismo têm sido muito competentes em atrair investidores e empreendedores. No Nordeste, da Bahia até o Ceará, mais de 50 projetos turísticos de grande porte estão em desenvolvimento, descortinando uma nova dimensão econômica para a região que pode virar o grande centro de lazer do mundo.
Depois de duas décadas de trabalho, é chegado, finalmente, o momento de colher os frutos do que se plantou!
Não, ainda não. Por estranho que pareça, ainda não.
Exatamente neste momento surgem outros órgãos públicos, que se colocam agora como senhores absolutos da verdade e interrompem projetos em andamento, sem nenhuma transparência, independentemente de se provar ou não a fundamentação de suas desconfianças.
Estamos falando especificamente da atuação de alguns órgãos ambientais e de algumas intervenções estabanadas dos Ministérios Públicos Federal e Estadual.
No Ceará, observamos uma seqüência de projetos embargados. Na Bahia, acaba de ser embargado um projeto de um empreendimento que deveria criar mais de 300 empregos diretos e estava a poucos meses da inauguração, alegando-se, entre outras coisas, que o empreendimento não era de interesse social (apesar dos 300 empregos diretos).
Em Foz do Iguaçu, depois de uma brilhante condução pelo Ministério do Turismo do Processo de Licitação do Hotel das Cataratas, o processo é suspenso por "forças do alto", sem nenhum tipo de satisfação a seus participantes, e o tal empreendimento alavancador fica suspenso sine die.
RISCOS
A verdade é que os parâmetros do setor público parecem ser diferentes dos do setor privado. Para um funcionário público uma receita adiada não significa nada; para um empresário, uma receita adiada pode significar a inviabilidade do seu projeto ou a impossibilidade de pagar um financiamento.
A falta de transparência com que alguns órgãos públicos suspendem os empreendimentos nos dias de hoje é realmente alarmante. Muitas vezes apoiados pela claque do fundamentalismo ecológico que carece da mais elementar base técnica, não imaginam o mal que estão causando, na medida em que inviabilizam projetos que poderiam contribuir para a melhoria de vida da população e também para preservar o meio ambiente, pois o principal inimigo do meio ambiente é a pobreza.
Essa atitude, além de injusta, inutiliza um esforço de décadas feito pelos construtores do turismo, afugentando eventuais investidores e aumentando a sua percepção de risco.
Conseguimos construir uma excepcional oportunidade para o desenvolvimento de um turismo sustentável neste país. Esse tipo de arbitrariedade precisa deixar de existir. Antes de qualquer atitude extrema devem vir o diálogo, o perfeito entendimento do problema, um processo transparente e bem embasado tecnicamente. Caso se conclua pela necessidade de interrupção, que seja feita com o rigor necessário. Atirar antes para perguntar depois não faz sentido.
Diogo Canteras, Professor da FGV e sócio-diretor da HVS International para o Brasil
OESP, 19/06/2006, Viagem, p. V2
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