O Globo, Economia Verde, p. 30
Autor: VIEIRA, Agostinho
01 de Nov de 2012
Sobre empresários e bandidos
Marcos Valério começou como bancário, foi vereador e depois entrou no ramo da publicidade. Primeiro como sócio da agência SMP&B e depois da DNA. No entanto, há anos ele não é chamado de empresário ou de publicitário. Virou o operador do mensalão, condenado pelo STF a mais de 40 anos de prisão, por formação de quadrilha, corrupção ativa, lavagem de dinheiro, evasão de divisas e peculato.
Aparentemente, Valério perdeu o "título" de empresário ou de publicitário porque isso envergonhava seus pares. Pares? Um empresário não faria o que o operador do mensalão fez. Será? Essa é uma das minhas dúvidas. Em que momento um empresário, médico, engenheiro ou jornalista deixa de ser reconhecido pela sua atividade profissional e passa a ser sonegador, assassino, contrabandista, explorador de trabalho escravo, poluidor ou simplesmente criminoso?
Talvez exista uma medida a partir da qual o título caduque. Mas qual seria? O empresário que não deposita o FGTS dos funcionários é ladrão? E o que cria manobras contábeis para não pagar impostos? Dizem que o bom jornalista deve trazer respostas e não encher os leitores de perguntas. Portanto, desculpem as minhas dúvidas. Na verdade, tudo isso é para contar que, nos últimos dias, surgiram várias notícias sobre crimes ambientais no Brasil. E não sei se classifico alguns dos envolvidos como empresários, fazendeiros ou bandidos.
O governo, por exemplo, divulgou que a área de soja plantada em terras que sofreram novos desmatamentos na Amazônia cresceu. Passando de 11,69 mil hectares na safra de 2010/2011 para 18,41 mil hectares no ciclo 2011/2012. Um aumento de 57%. Acredite se quiser, mas esse número pode ser comemorado.
Na safra anterior, o plantio irregular crescera 85%. E tudo isso em plena vigência da Moratória da Soja. Uma iniciativa de exportadores e organizações da sociedade civil para boicotar a soja produzida em áreas desmatadas na Amazônia.
A Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove) diz que apenas 2,1 milhões de um total de 25 milhões de hectares cultivados de soja estão na Amazônia. Dessa área, somente 0,41% estariam em terras de desmatamento ilegal. Logo, a indústria da soja não seria responsável pelo desflorestamento da região. O problema é que muito antes da Moratória da Soja, criada em 2006, já existia a famosa lei da oferta e da procura. Se o plantio em áreas desmatadas cresceu 85% num ano e 57% no outro é porque tem mercado. Tem alguém comprando. Quem são essas pessoas? São empresários ou bandidos?
57% FOI O CRESCIMENTO das plantações de soja em áreas que sofreram novos desmatamentos na Amazônia. Na safra 2010/2011, foram 11,69 mil hectares e agora são 18,41 mil hectares. Há um ano, o aumento foi de 85%.
Na semana passada, o Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon) anunciou que 47% da extração de madeira em Mato Grosso, entre agosto de 2010 e julho de 2011, tiveram origem ilegal.
Quase 100% dessa exploração não autorizada ocorreram em áreas privadas, devolutas ou que estão sendo objeto de disputa. Normalmente em lugares próximos de madeireiras. Neste caso, os donos de madeireiras e os fazendeiros envolvidos podem ser chamados de criminosos?
Enquanto isso, a cada seis meses, o Ministério do Trabalho segue atualizando a chamada Lista Suja do Trabalho Escravo. A versão mais recente conta com 294 nomes de empresas e pessoas físicas que foram flagradas explorando mão de obra escrava. Quem entra na lista fica impedido por dois anos de obter empréstimos em bancos oficiais. Além disso, pelo menos em tese, grandes indústrias e exportadores evitam fazer negócios com fornecedores que estejam nesta lista de exploradores.
Agora, o Instituto Ethos e a Serasa Experian fizeram uma parceria que pode ajudar a dirimir algumas dúvidas.
Funciona assim. A Serasa fornece ao Ethos uma lista com todas as empresas pequenas, médias ou grandes que possuem qualquer atividade na Amazônia. A relação mostra quem tem ou não licença ambiental para atuar, quem está no cadastro ambiental rural, quem trabalha em área embargada, quem explora trabalho escravo ou sofreu qualquer outro tipo de autuação.
Já o Ethos fica com a tarefa de organizar todas essas informações e divulgá-las. A entidade tem um projeto chamado "Conexões Sustentáveis: São Paulo-Amazônia", que reúne 60 grandes instituições. Elas assinaram um compromisso de não fazer negócios com fornecedores que tenham a ficha ambientalmente ou socialmente suja. Só que, entre a promessa e a ação, há uma floresta de diferença. Como sempre, a transparência e a ética em todas as atividades são a melhor maneira de separar o joio do trigo.
O Globo, 01/11/2012, Economia Verde, p. 30
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