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Segurança alimentar em risco

O Globo, Amanhã, p. 26-28
12 de Mar de 2013

Segurança alimentar em risco
ONG que luta contra a pobreza faz um balanço das dez maiores empresas do setor de alimentos, sob a ótica social

FELIPE SIL
felipe.sil@oglobo.com.br

As dez maiores empresas dos setores de alimentos e bebidas do mundo movimentam anualmente cerca de US$ 800 bilhões (o equivalente a R$ 1,6 trilhão). É um valor equivalente a cerca de 17% do produto interno bruto (PIB) brasileiro de 2011. Nesse universo estão Coca-Cola, Danone, General Mills, Kelloggs, Mondelez International (Kraft), Mars, Nestlé, PepsiCo, Unilever e Associated British Foods (ABF) - a única da lista que não atua no Brasil. Juntas, elas geram receitas diárias de mais de US$ 1,1 bilhão e empregam milhões de pessoas direta e indiretamente. É uma cadeia produtiva gigantesca que começa a ser monitorada, especialmente quando o assunto é uso da água.
Só que outros indicadores igualmente importantes, como apoio a pequenos agricultores, mão de obra feminina no campo e direito à terra, não recebem por parte dessas empresas o mesmo tratamento.
As informações são da britânica Oxfam, associação de organizações que trabalham pelo fim da pobreza e da desigualdade no mundo. No início do mês, o grupo divulgou o relatório "Por trás das marcas". Entre os problemas analisados estão fome, miséria, concentração de terra, exploração de mão de obra e acesso e uso da água, além da transparência de informação. As marcas foram avaliadas em suas atuações no Brasil, Costa do Marfim, Nigéria e Indonésia, todos grandes produtores de cacau. Entre elas, são raros os compromissos claros para questões relacionadas aos detalhes da enorme movimentação do mercado.
A publicação faz parte da campanha "Cresça: abra a boca para acabar com a fome", lançada pela Oxfam em mais de 45 países.
O mote, aliás, tem causado polêmica por sugerir que os bancos negociadores de commodities agrícolas "especulam com a fome".
O objetivo do estudo, porém, não segue por esse caminho. A ideia é sensibilizar os consumidores sobre a questão das cadeias produtivas ao alertar sobre a corresponsabilidade das empresas estudadas na redução das desigualdades sociais e econômicas ao longo de todo o processo de produção.
Notas para as empresas
No trabalho, são sete os temas considerados cruciais para uma produção agrícola sustentável.
Mulheres, agricultores familiares e de pequena escala, trabalhadores rurais, água, terras, mudança climática e transparência.
Cada uma destas categorias foi classificada em uma escala de um a dez. As empresas se saíram melhor nos indicadores de transparência e uso da água. As menores pontuações foram para o tratamento às mulheres e as políticas que buscam proteger os direitos dos pequenos agricultores.
- A análise que fazemos é que as empresas têm promessas fracas para diversos destes setores.
A questão das terras dos agricultores é um exemplo. Elas precisam conhecer o impacto de seus negócios neste tipo de trabalhador - diz Rafael Cruz, assessor de políticas públicas da Oxfam no Brasil.
Dentro dos critérios estabelecidos, a Nestlé e a Unilever apresentaram melhor desempenho que as outras empresas. De 0 a 100%, obtiveram 54% e 49%, respectivamente. Estas, de acordo com a Oxfam, têm desenvolvido e publicado políticas que visam combater os riscos sociais e ambientais dentro das cadeiras de fornecimento. As notas obtidas, porém, não foram consideradas satisfatórias. Na outra ponta do ranking estão a ABF (19%) e a Kellog (23%), que receberam as piores notas.
A pesquisa teve como base os dados disponíveis nos sites das matrizes das empresas e seus relatórios de sustentabilidade. O maior obstáculo da Oxfam foi o excessivo sigilo sobre suas cadeias de fornecimento de matérias-primas. O controle tornou as alegações de responsabilidade social e cuidados com o meio ambiente difíceis de serem verificados.
Junto com o trabalho, foi realizada uma pesquisa com os consumidores. No Brasil, 49% dos entrevistados discordaram da afirmação "eu realmente não tenho interesse em saber como os alimentos que compro são produzidos". Dos países avaliados (Estados Unidos, Filipinas, Espanha, Índia e Reino Unido), o país foi a nação que mais se mostrou interessada em saber todos os detalhes envolvidos no processo.
Em alguns casos, as políticas das empresas põem em risco a segurança alimentar. É que, segundo a Oxfam, as práticas do agronegócio seriam conflitantes com agricultura familiar, responsável por um terço dos alimentos consumidos pela população mundial.
De acordo com o Instituto Internacional de Pesquisa sobre Políticas Alimentares, a maioria dos agricultores familiares e produtores de pequena escala produzem para sua subsistência e para mercados locais e regionais.
Ou seja, não integram as cadeias internacionais de abastecimento (com exceções para o cacau e o café). A presença do agronegócio, portanto, pode causar impacto sobre a capacidade de acessarem recursos naturais, mercado, crédito e assistência técnica.
Uma conclusão do trabalho é que as empresas não têm tomado medidas suficientes para evitar os altos níveis de emissão de gases de efeito estufa decorrentes da agricultura. Cinco delas nem chegam a divulgar em seus relatórios de sustentabilidade os dados referentes a emissões e nenhuma delas definiu metas para reduzir suas próprias emissões.
A questão da água também é abordada.
Segundo pesquisadores da Oxfam, se ela continuar a ser usada da maneira que é hoje, não haverá o suficiente para todos no futuro. O aumento da sua utilização, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), foi duas vezes maior que o crescimento populacional do século passado. Durante os próximos 40 anos, a água do mundo terá de servir os sistemas agrícolas para alimentar e criar subsistência para mais 2,7 bilhões de pessoas.
Mulheres desvalorizadas
A maioria das empresas não propicia o acesso adequado de produtores de pequena escala e agricultores familiares às suas cadeias de fornecimento. Ainda de acordo com o estudo, nenhuma empresa se comprometeu a assegurar que eles recebam um preço justo por seus produtos. O Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola (Ifad, sigla em inglês) diz que 400 e 500 milhões de pequenas áreas de cultivo fornecem meios de subsistência para aproximadamente dois a três bilhões de pessoas no mundo. A situação das mulheres foi outro tema estudado.
O trabalho concluiu que as empresas não demonstraram um compromisso com a promoção da igualdade de agricultoras e trabalhadoras rurais nas cadeias de abastecimento.
Mulheres possuem alta representatividade nas atividades de remuneração mais baixa, enquanto homens são empregados em cargos mais bem pagos.
Os pesquisadores demonstram que as mulheres representam 43% da mão de obra do trabalho agrícola. Em Camarões, por exemplo, elas produzem até 80% dos alimentos, apesar de serem donas de apenas 2% das terras do país.
Cruz acredita que o comportamento das empresas seja motivado por total desconhecimento sobre as formas de produção e as condições de trabalho.
- Não costuma ser má fé. Muitas vezes é um comportamento institucional da empresa que acaba deixando passar algumas injustiças durante a cadeira produtiva. Talvez não estejam maduras o suficiente no sentido de inclusão social.
É preciso levar em conta o tamanho do mercado alimentício. Em todo o mundo, segundo dados coletados pela Oxfam junto a empresas e pesquisas divulgadas na imprensa, as pessoas bebem mais de quatro mil xícaras de Nescafé a cada segundo e consomem produtos da Coca-Cola 1,7 bilhão de vezes por dia.
Muitas vezes, porém, não têm todas as informações sobre o que se passa em toda a cadeia de produção.
A Nestlé, por exemplo, revelou em novembro de 2011 que não tinha informações a respeito da mão de obra de 20% do cacau que compra da Costa do Marfim e descobriu numerosos casos de trabalho em condições análogas aos trabalhos escravo e infantil no país.
Para Cruz, os programas de responsabilidade social e sustentabilidade adotados pelas empresas só serão efetivos quando os grupos empresariais adotarem políticas adequadas para orientar corretamente as operações de suas próprias cadeiras de fornecimento.
Uma das medidas deverá ser em torno das condições dadas aos trabalhadores. Segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT), a agricultura continua sendo um dos três setores de maior risco para se trabalhar, juntamente com a mineração e a construção civil. A exploração de mão de obra, condições de trabalho insalubres e os acordos informais de trabalho são generalizados neste setor, diz estudo da OIT.
- Consideramos o que é dito pelas empresas.
Não temos como garantir a veracidade do que dizem. O faturamento da Nestlé, por exemplo, é três vezes maior que o PIB da Costa do Marfim. Como pedir para este governo fiscalizar a marca? - questiona Cruz.
Em nota, a Nestlé diz estar "orgulhosa" da primeira posição, mas reconhece que o aperfeiçoamento da segurança alimentar exige mais esforço.
A empresa garante estar comprometida com a melhoria do padrão de vida dos produtores e reconhece que a indústria tem desafios.
Em nota à imprensa, a Unilever reconhece que a inclusão de pequenos agricultores na cadeia alimentícia é essencial para o progresso e estabilidade de comunidades rurais. E concorda com a ênfase dada ao papel das mulheres no estudo.
Desde a divulgação do documento, as empresas têm se pronunciado à imprensa. De maneira geral, posicionando-se favoráveis a desenvolver suas ações para controlar os problemas citados.

POR TRÁS DAS MARCAS PROBLEMAS

NESTLÉ: Em novembro de 2011, admitiu que não tinha informações a respeito da mão de obra de 20% do cacau que compra da Costa do Marfim e descobriu numerosos casos de trabalho em condições análogas aos trabalhos escravo e infantil

UNILEVER: A empresa adquire cerca de 8% do total da baunilha produzida em Madagascar para uso em seus sorvetes. A produção do alimento por fornecedores de pequeno porte no país é marcada por problemas de preço junto ao produtor e a incidência de trabalho infantil

ABF: Segundo a Oxfam, a Associated British Foods não possui políticas claras sobre direitos à terra na sua cadeia de fornecimento, apesar de ser um dos principais produtores de açúcar no mundo.

O Globo, 12/03/2013, Amanhã, p. 26-28

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