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A seca que vem do mar

CB, Brasil, p. 8
14 de Out de 2005

A seca que vem do mar

Pesquisadores apontam que a estiagem no Norte do país, a maior desde 1963, pode estar relacionada às constantes queimadas e ao superaquecimento do Oceano Atlântico, conseqüências da ação do homem
Um levantamento feito pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) revela que a seca que atinge rios da Amazônia é resultado de um fenômeno natural semelhante ao El Niño, que superaqueceu as águas do Oceano Pacífico. Neste caso, o aumento de temperatura está ocorrendo no Oceano Atlântico. Esta é a pior estiagem no estado desde 1963. A mancha de água quente, observada pelos satélites do Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos do Inpe, atraiu as nuvens que deveriam estar despejando água na Floresta Amazônica.
A previsão é de que as chuvas torrenciais, que acontecem nesta época do ano na Região Norte, comecem no início de novembro, já com dois meses de atraso. A estiagem obrigou o governador do Amazonas, Eduardo Braga (PMDB) a decretar estado de calamidade pública no estado. Um total de 31 cidades estão em estado de alerta e quatro, em emergência.
Segundo a coordenadora do Centro de Previsão do Tempo do Inpe, Maria Assunção Dias, as queimadas também contribuem para a estiagem nos rios da Amazônia. Mas as partículas de carbono e poeira que ficam no ar depois dos incêndios evitam apenas as chuvas menores. "A fumaça cria um obstáculo sobre a floresta que funciona como um espelho para os raios solares, impedindo que a água do solo evapore até as nuvens, onde são despejadas em forma de chuvas", explica a cientista.
O superaquecimento das águas do Atlântico vem sendo observado há três anos por pesquisadores brasileiros, mas a causa ainda é um mistério para a ciência, diz o oceanógrafo Pablo Campos, da Universidade de São Paulo. Uma corrente de especialistas associa o fato ao aquecimento global, o que poria o homem como responsável pelo fenômeno. "Por enquanto, essas conclusões são especulativas. Ninguém sabe as causas desse aquecimento", assegura Maria Assunção.
Há dois dias, as chuvas voltaram a cair na Amazônia, mas em quantidades bem inferiores ao habitual para a época. Em anos anteriores, outubro é marcado por chuvas densas que varrem a floresta drenando o solo e abastecendo as cabeceiras dos rios. O volume de água despejado até agora não foi suficiente nem para deixar os rios que secaram navegáveis. "Depois que ocorrem fenômenos como este, é necessário pelo menos um mês de chuvas ininterruptas para os rios e a floresta se recuperarem da estiagem", ressalta Bernadete Acatauassú, pesquisadora da Universidade Federal do Amazonas (UFMA).
A Capitania dos Portos da Amazônia Oriental, órgão ligado ao Ministério da Marinha, observou ontem que a falta de chuvas já prejudica a navegação nos rios da região oeste do Pará, entre eles o Amazonas e o Tapajós. Ambos estão secando neste verão amazônico. Em locais mais secos do rio Arapiuns, afluente do Tapajós, os peixes estão morrendo asfixiados pela falta de água.
A pesca comercial no lago do Maicá, no Rio Amazonas, está proibida desde a semana passada. Em frente à cidade de Santarém, no Rio Tapajós, um navio cargueiro chegou a encalhar em um banco de areia. O acidente ocorreu num local onde o Tapajós deságua no Amazonas, o maior rio do mundo em volume d'água. Um levantamento feito pela Marinha já havia concluído que o Rio Tapajós está dois metros mais seco do que no mesmo período do ano passado. De acordo com a Companhia Docas do Pará (CDP), em outubro do ano passado, o nível das águas do rio atingiu a marca de 4,10 metros na régua. Este ano, o nível caiu para 2,10 metros.

Ajuda
O primeiro carregamento de cestas básicas e medicamentos para as famílias atingidas pela seca será entregue hoje. Os produtos serão transportados por balsas até sete municípios onde a situação é mais crítica. Seguiram em balsas, barcos menores e em helicópteros das Forças Armadas. Mais de 900 comunidades serão atendidas.
O Corpo de Bombeiros do Amazonas está priorizando o abastecimento de água potável para evitar surtos de doenças, como diarréia e cólera. "Estamos levando água a alguns lugares, em outros, furando poços ou apenas fornecendo hipoclorito de sódio. De acordo com a situação, estamos trabalhando para ter água potável e diminuir a chance de um surto de doenças", disse o coronel Franz Alcântara, comandante da Defesa Civil no Estado.

Pesquisa alertou sobre os riscos
Uma pesquisa feita por cientistas estrangeiros do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam), há seis anos, já havia alertado o governo para a estiagem na Amazônia. No trabalho, os pesquisadores isolaram uma parte da floresta, provocaram queimadas propositalmente e traçaram o cenário da maior floresta tropical do mundo para 2050, caso as queimadas e o superaquecimento continuem no ritmo atual.
Os pesquisadores isolaram com painéis de um plástico especial um hectare de floresta nativa, em Belterra, no Pará. Dentro da bolha gigante foram simulados climas que a mata enfrenta por conta das queimadas e da escassez de chuvas na região. Em algumas ocasiões, o índice pluviométrico, que mede as chuvas, foi reduzido em 50%, baixando a umidade do solo durante cinco anos.
No primeiro resultado, os pesquisadores revelaram que as árvores de menor porte resistem bem mais ao clima seco do que as espécies de grande porte. "Até então, os cientistas acreditavam que ocorreria o contrário", diz o coordenador da pesquisa, o ecólogo Daniel Nepstad. Ele é um dos cientistas que mais têm publicações científicas sobre a Amazônia em todo o mundo.
A experiência, que está orçada em US$ 1,2 milhão por ano, projeta para daqui a 45 anos um cenário de seca na Floresta Amazônica por conta de efeitos no clima provocados pela ação do homem, pelo efeito estufa e ainda pelo fenômeno natural que superaquece as águas do Atlântico. "Já que as árvores maiores sofrem maior impacto com a mudança climática, o reflorestamento será mais complicado, uma vez que as plantas menores ficariam a céu aberto e morreriam com mais facilidade", explica Nepstad, fundador do Ipam.
Primeiras a morrer
No cenário montado, os pés de louro (Octea ssp) foram os primeiros a morrer. A segunda espécie a secar foram os pés de Caraipé (Licania octandra), que são árvores de 30 metros de altura. Elas levaram apenas três anos tombar no chão. "O curioso é que, antes de morrer, as árvores param de produzir folhas e raízes. Com isso, elas param de fornecer madeira, principal fonte econômica da região", diz o pesquisador. Isso significa que, no futuro, faltará madeira na Amazônia.
Numa outra pesquisa do Ipam, foi descoberto que a Amazônia sofre um processo de savanização, que transforma a floresta densa em uma espécie de mata antrópica por causa das queimadas. "Nesse caso, a floresta nativa será substituída por uma savana empobrecida", diz Nepstad.
A simulação da savanização foi feita por entidades internacionais na fazenda Tamburo, no Mato Grosso. Nesse experimento, os pesquisadores isolaram 100 hectares e atearam fogo para simular uma queimada. Os primeiros resultados mostraram que labaredas rasteiras de 30 centímetros causam estragos enormes ao ponto de matar em poucas horas até árvores de 30 metros de altura.
Outra conclusão dos pesquisadores é que, mesmo com combustões menores, a floresta fica seca e isso aumenta o risco de incêndios maiores. E as árvores mortas pelo fogo ficam secas, o que aumenta a possibilidade de novas queimadas.(UC)

CB, 14/10/2005, Brasil, p. 8

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