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Salvem o Greenpeace

O Globo, Mundo, p. 55
Autor: CELESTINO, Helena
16 de Nov de 2014

Salvem o Greenpeace

Helena Celestino

Agora são eles que inspiram cuidados. O Greenpeace já mobilizou o mundo para salvar as baleias, os ursos pandas, a Amazônia, o Ártico. É, ninguém duvida, a organização é símbolo da luta contra o aquecimento global, mantra de seus três milhões de ativistas. Quinta-feira, protagonizou mais um dos seus protestos espetaculosos, marca registrada de seu estilo de fazer política: militantes se amarraram no alto de uma ponte em Londres e, com um imenso cartaz na mão, responderam a uma campanha institucional da Shell, em que a companhia se vangloriava de produzir energia para propiciar um futuro a uma garotinha fotografada lendo um livro na cama, iluminada pela luz do abajur. Em tempo recorde, os ecologistas lançaram um crowfunding, angariaram 280 mil libras - R$ 920 mil - usadas para levar às páginas dos principais jornais do Reino Unido as mesmas imagens da publicidade da petroleira mas com uma mensagem-choque: "Se a Shell continuar perfurando no Ártico, esta menininha não terá futuro."
A ação de guerrilha foi bem-sucedida, mas esta é uma cena já com gosto de passado: o Greenpeace está em plena fase de mudança de estratégia para se confrontar com a revolução digital. Qualquer menino, com um celular na mão e uma ideia na cabeça, pode fazer tanto barulho quanto a poderosa organização com orçamento de 200 milhões de euros (R$ 600 milhões), dinheiro indispensável à manutenção de sua capacidade de mobilizar cidadãos para salvar o planeta.
É só fazer as contas. Existem dois bilhões de celulares em uso, e toda essa gente é um ativista em potencial, pode usar seus telefones para compartilhar histórias, denúncias, mandar manifestos. Ou seja, atuar numa área tradicionalmente reservada ao Greenpeace e assemelhados. "É maravilhoso, dá às ONGs uma enorme possibilidade de ação, mas é também um enorme desafio: um computador e a tecla send viraram ferramentas de expressão política muito fortes e rápidas", diz Paulo Adário, o brasileiro estrategista sênior na área de florestas do Greenpeace, com décadas de experiência na Amazônia.
O maravilhoso mundo digital - sabemos todos - mudou para sempre o jornalismo, a indústria do livro, as gravadoras, a publicidade, as relações amorosas, o jeito de viver em sociedade. Desde a primeira eleição de Obama, fortemente apoiada nas redes sociais, nunca mais as campanhas eleitorais e os partidos políticos foram os mesmos. Mudaram junto os movimentos sociais, chacoalhados ou fortalecidos pela onda de protestos nas ruas, em que aplicativos facilitaram o encontro dos jovens dispostos a expressar opinião, desconforto ou raiva. Claro que as ONGs não ficariam encasteladas e protegidas das vertiginosas mudanças.
"Sempre haverá uma juventude dizendo que está insatisfeita com o mundo, rejeitando partidos e sindicatos, como ocorreu nos protestos no Brasil. As ONGs também correm perigo de viver esta situação: com a velocidade e a multiplicidade da informação, as nossas campanhas podem ficar distantes das pessoas", teme Paulo.
Risco e oportunidade vêm juntos, e a velha ONG se adapta rápido. Usou a experiência acumulada em anos de ativismo para denunciar a exportação ilegal de ipê do Brasil a uma empresa sueca. Plugou GPS em caminhões, seguiu a carga por satélite, fotografou do avião, denunciou a venda à União Europeia e interceptou o navio que chegava a Roterdã. Junto, mobilizou cem mil ativistas digitais para pressionar os europeus, e sexta-feira a Interwood comunicou o cancelamento das compras.
As novas e rápidas ferramentas de comunicação, como internet e câmeras digitais, dão mais transparência e ajudam a fiscalizar e cobrar. Na Argentina, 27 mil pessoas estão participando de um joguinho - Guardianes - em que elas monitoram o desmatamento na região de Salta. Controlam imagens de satélite no Google e, a cada vez que dez pessoas constatam derrubada da floresta, emite-se um alerta e o Greenpeace encaminha a informação à autoridade. O desmatamento pode ou não ser confirmado, mas cria-se uma pressão para os governos agirem.
Tudo muito tecnológico e eficiente, distante dos tempos heroicos em que o militante se sentia como um Indiana Jones do século XXI. O novo Greenpeace é mais focado nos países emergentes e menos eurocêntrico, refletindo as mudanças de poder. É também mais monotemático, concentrado na luta contra o aquecimento global. Continua bem na foto, aliando ações de confronto pacífico ao conforto digital, brigando para inspirar "atos de coragem" de cidadãos dispostos a mudar o comportamento das grandes corporações e governos vacilando para agir contra o desastre anunciado. Aprende com o ex-presidente Al Gore que esteve no Rio para formar ativistas digitais e organizar o maior abaixo assinado do mundo a ser apresentado em 2015 na Conferência do Clima de Paris. É assim mesmo: quem fica parado é poste, reinvenção é essencial para não perder a relevância.

O Globo, 16/11/2014, Mundo, p. 55

http://oglobo.globo.com/mundo/salvem-greenpeace-14569672

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