JB, Outras Opiniões, p. A13
Autor: PAIM, Gilberto
02 de Mai de 2004
A rainha do seringal
Gilberto Paim
Jornalista
A ministra Marina Silva fez do Conselho do Desenvolvimento Econômico e Social caixa de ressonância de uma declaração pomposa. Disse em reunião do órgão que não vai alterar a legislação ambiental para dar acolhida a ''interesses do capital privado, que pretende investir em infra-estrutura''.
A titular da importante Pasta do Meio Ambiente não só exibe a pobreza de sua ignorância, com a raivosa atitude contra o capitalismo, mas proclama o fim do governo do presidente Luiz Inácio. O governo petista acabou. Como a infra-estrutura é a mola mestra do progresso socioeconômico, a exclusão do investimento privado, que a ministra decreta, terá repercussão negativa duradoura.
Já não adianta substituir a ex-seringalista por um executivo impregnado do espírito realizador de Juscelino Kubitschek. Passou o tempo da recuperação. O primeiro semestre do segundo ano do governo petista está acabando e será seguido do semestre da campanha eleitoral, que tende a imobilizar os atuais ocupantes dos palácios brasilienses. Inscrevem-se na bandeira vermelha do PT, ao lado da desordem no campo, os símbolos da estagnação econômica e do desemprego.
Recorda-se que o chefe da desorganização da economia agrícola pretendia infernizar o governo com suas invasões e que o presidente Luiz Inácio declarava não querer reforma agrária no grito. Stédile replicou que só pretendia azucrinar, mas, desde então, contabiliza mais de 120 invasões. Não tem havido reação oficial, provavelmente porque as invasões traduzem um desejo oculto do presidente Luiz Inácio. Recebem os invasores alimentos do Fome Zero, enquanto os bispos de esquerda lhes fornecem transporte e toldos para cobertura dos barracos improvisados.
O investimento em infra-estrutura significa a execução ininterrupta de projetos de rodovias, ferrovias, portos, transporte urbano, energia elétrica, abastecimento de água e esgotos sanitários e outros serviços. O Estado falido não tem recursos para fazer face a essa demanda. Cabe a tarefa ao capital privado, que não se aplicaria nessas áreas, se a legislação pertinente não lhe desse segurança atual e futura. Além disso, o cumprimento da lei não poderia ficar a cargo de adversários ideológicos do capitalismo, tão bem representados no governo do presidente Luiz Inácio.
Episódios recentes contra empresas privadas modernas ativaram a desconfiança no governo petista. No Paraná, os falsos agricultores de Stédile invadiram uma plantação de eucaliptos de empresa do grupo Klabin. Desde os anos 50, a produção de celulose desse grupo está afinada com a defesa do meio ambiente. A empresa paranaense agredida planta três árvores para cada árvore derrubada. Na área industrial, Klabin demonstrou a sua capacidade de resistir à concorrência externa, modernizando a produção de papel de imprensa a ponto de dispensar a proteção aduaneira. O governo petista ficou em silêncio diante dessa agressão, praticada pelo grupo de Stédile, que usa desempregados urbanos para levar a desordem ao campo. Era inevitável que a opinião pública interpretasse a omissão do presidente Luiz Inácio como prova de concordância com essa forma de promover a revolução no campo.
Exemplo semelhante foi o começo de destruição de plantações de eucaliptos da Veracel, no extremo Sul da Bahia, por invasores do MST. A empresa pertence ao maior grupo mundial de fabricação de celulose e pretende exportar o equivalente a 1 bilhão de dólares por ano, quando estiver ultimado o seu projeto industrial. Diante do silêncio e da inação do governo federal, o governo da Bahia chamou a si a solução do problema e conseguiu deslocar o grupo invasor para outra área, longe das terras já plantadas de eucaliptos.
As empresas produtoras de celulose têm estado na mira de adversários. No Espírito Santo a Aracruz Celulose lutou por dois anos na Justiça até obter decisão do Supremo Tribunal Federal contra uma lei da Assembléia Legislativa capixaba que proibia a plantação de eucaliptos. Dizia a lei, vetada pelo governador, e revalidada por unanimidade da Assembléia, que ficava proibida a plantação de eucaliptos para fabricação de celulose. Nessa atmosfera, a Aracruz Celulose tentou vir para o Estado do Rio, mas se deparou com uma lei de zoneamento ecológico, que vetava o plantio de eucaliptos em área superior a 100 hectares.
Chegando à Presidência da República, o PT confiou o Ministério do Meio Ambiente a dona Marina Silva, que decidiu criar sucessivos impasses a projetos de infra-estrutura, tornando pétrea a estagnação da economia. Com essa demonstração de poder, a Rainha do Seringal provou que ocupa posição inabalável no governo do presidente Luiz Inácio.
Gilberto Paim escreve aos domingos nesta página
JB, 02/05/2004, Outras Opiniões, p. A13
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