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Quadrilha amazônica

OESP, Notas e Informacões, p. A3
04 de jun de 2005

Quadrilha amazônica

M enos por sua área de atuação do que pelas dimensões fantásticas de sua atividade criminosa, na extração e contrabando de madeira, pode ser chamada de "quadrilha amazônica" a que começa a ser desbaratada pela Operação Curupira, resultante de uma investigação de corrupção e fraude iniciada há nove meses, em ação conjunta da Polícia Federal, Ministério do Meio Ambiente e Ministério Público Federal. De fato, são de estarrecer tanto as cifras quanto as posições das pessoas envolvidas nessa rentabilíssima sociedade delinqüencial, sem dúvida uma das principais responsáveis pela devastação galopante de nossa floresta tropical - que atinge proporção três vezes maior do que a prevista pelo governo e, como não poderia deixar de ser, escandaliza o País e o mundo.
A derrubada ilegal de madeira, praticada por essa quadrilha, abriu em Mato Grosso uma clareira equivalente a 43 mil hectares. O valor da madeira extraída ilegalmente e contrabandeada - especialmente para os países europeus - chegou a R$ 890 milhões. E, para que se recompusesse a área devastada, o governo teria que investir cerca de R$ 108 milhões. Levantamento realizado pelo Ministério do Meio Ambiente mostra que o Estado de Mato Grosso (base de operação da megaquadrilha) foi responsável por 48% do total de desmatamento registrado entre 2003 e 2004, em toda a Amazônia.
Mas o que deixa atônita a sociedade brasileira, além das mais de 90 prisões (até agora) da Operação Curupira, que cumpre 130 mandados de prisão e 180 de busca e apreensão - já tendo apreendido carros importados, avião, lancha, R$ 140 mil em dinheiro, etc. -, é o fato de estarem envolvidos e capitanearem essa vasta operação criminosa, justamente, pessoas em altos postos, incumbidas de dar combate à extração e comercialização ilegal de madeira, especialmente os integrantes do Ibama. Entre os presos estão o diretor de Florestas, Antonio Carlos Hummel, o gerente-executivo do Ibama em Cuiabá, Hugo José Werle, além do presidente da Fundação Estadual do Meio Ambiente (Fema), Moacir Pires.
As fraudes tinham como ponto inicial a extração de madeira ilegal em Mato Grosso. Para "esquentar" o produto depositado nas madeireiras, eram falsificadas as Autorizações para Transporte de Produtos Florestais (ATPFs), documento elaborado na Casa da Moeda, utilizado como instrumento de fiscalização do Ibama e como uma espécie de certificado de origem da madeira. Segundo informações do vice-presidente do Ibama, Luiz Fernando Nerico, havia várias formas de fraude de ATPFs, tanto no preenchimento incorreto das vias quanto em sua "reciclagem", visto que, depois de usadas, eram submetidas a lavagem com produtos químicos, para nova utilização. Segundo a Polícia Federal a ATPF "em branco" era comercializada por R$ 2 mil e tais operações eram facilitadas pela criação de 431 empresas fantasmas.
A ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, faz questão de enfatizar que todo esse esquema fraudulento é anterior a sua gestão e teria se instalado em Mato Grosso em 1990. Entretanto, não dá para a ministra isentar-se de responsabilidade de ter mantido em cargos importantes pessoas como o gerente-executivo do Ibama, Hugo Werle (que durante os dois anos em que esteve no cargo teve um aumento patrimonial de R$ 426 mil), ou o diretor de Florestas Antonio Carlos Hummel. Afinal, é dever inegociável do administrador público, que assume cargo de alta responsabilidade - como o ministerial -, investigar em profundidade os subordinados que nomeia ou mantém.
Também é de estranhar declarações como a do chefe da Polícia Federal, Paulo Lacerda, dando conta de que durante um longo processo de investigação, que pode remontar a 2003, se permitiu que os criminosos permanecessem atuando para que melhor se reunissem provas que os pudessem incriminar. Seria necessário tanto tempo assim - mais de dois anos - para detectar volume tão grande de delitos? E o que dizer da enorme área de devastação que poderia ser reduzida nesse mesmo período, caso se tivesse colocado fora de circulação seus criminosos responsáveis?
De qualquer forma, há que se reconhecer o grande mérito do trabalho investigativo e da coordenação das instituições - Ministério da Justiça, Ministério do Meio Ambiente e Ministério Público Federal - que desbaratam essa devastadora megaquadrilha.

OESP, 04/06/2005, Notas e Informacões, p. A3

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