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Planos bilionarios para a agua

OESP, Notas e Informacoes, p.A3
09 de fev de 2004

Planos bilionários para a água
A solução para o problema do fornecimento de água à Grande São Paulo está muito distante daqui e exigirá investimentos bilionários. Sem mananciais próximos para atender à crescente demanda da população que, em 2025, deverá chegar a 22 milhões de habitantes (4,2 milhões a mais do que a população atual) , não há alternativa para a execução de obras complexas e caras para garantir água nas torneiras. Para aumentar em 105 metros cúbicos por segundo a oferta de água na região, que hoje é de 73 m3/s, será necessária a execução de pelo menos 11 projetos, a um custo estimado de R$ 5,5 bilhões, o que corresponde a 9% do orçamento estadual para 2004.
Entre os projetos previstos no Plano Diretor de Abastecimento de Água da Região Metropolitana de São Paulo, recentemente divulgado pelo governo estadual, está a construção de uma adutora capaz de trazer 30 m3/s de água do baixo Juquiá, no Vale do Ribeira, no sul do Estado. Além do custo da obra, estimado em R$ 1,5 bilhão, o bombeamento da água desde o nível do mar até São Paulo consumiria energia no valor de R$ 131,7 milhões por ano, custo quase nove vezes maior do que o exigido para realizar o bombeamento da água da bacia do Piracicaba para o Sistema Cantareira.
Das obras previstas, a mais cara é a construção de uma adutora de 280 quilômetros, orçada em R$ 1,8 bilhão, para trazer 10 m3/s desde o médio Tietê, em Barra Bonita, onde a vazão do rio é maior do que a encontrada na região metropolitana e o esgoto é diluído. O bombeamento consumiria R$ 35,1 milhões por ano em energia.
As grandes soluções - 'grandes' tanto do ponto de vista da tecnologia quanto dos investimentos necessários - reunidas no Plano Diretor são consideradas "bonitas" por especialistas em recursos hídricos. Em entrevista ao jornal Valor, o professor da USP Aldo Rebouças, especialista em recursos hídricos, criticou as soluções "típicas da engenharia". Segundo ele, trazer água de outros lugares e transformar os rios em esgoto era modelo já usado pelos romanos, antes de Cristo. Para ele, grande parte da solução para a crise do abastecimento de água se concentra na economia da água e na criação de uma rede secundária para a água de reúso, além do aumento da captação de água de chuva. Afinal, por que não usar os milhares de litros de água que se acumulam nos piscinões?
Dados da Secretaria de Estado de Recursos Hídricos mostram que, nos últimos cinco anos, o consumo de água na região metropolitana caiu de 280 litros por pessoa/dia para 170. A meta é chegar a 110 litros por pessoa/dia. A evolução da rede secundária para água de reúso, no entanto, é praticamente nula. Há anos, a Sabesp construiu cinco estações de tratamento para fornecer água de reúso para empresas instaladas em São Paulo. O objetivo era evitar o uso de água potável nos processos industriais, na irrigação de jardins, resfriamento de caldeiras, etc. Até o ano passado, apenas uma empresa na região do Ipiranga usava a água de reúso e as estações continuavam ociosas.
Somente em outubro, quando já havia ameaças de racionamento e funcionários da Prefeitura de São Paulo foram flagrados usando água potável na limpeza pública, a Sabesp e o Município firmaram acordo, estabelecendo o fornecimento de água de reúso para esse fim. É, porém, uma única iniciativa em anos. O desinteresse das indústrias está no fato de não haver uma rede de distribuição de água de reúso. O fornecimento é feito por caminhões, o que não oferece segurança para a manutenção da rotina de uma empresa.
As medidas de médio prazo incluídas no Plano Diretor prevêem obras de menor envergadura do que as anteriormente citadas, como a construção dos reservatórios de Biritiba-Mirim e Paraitinga - atualmente embargada pela Justiça -, a ampliação da Represa de Taiçupeba, além de captações nos Rios Itapanhaú, Itatinga e Juquiá, num braço da Billings. Essas obras elevarão em 80 m3/s a oferta, em dez anos.
A escassez de água disponível para a região metropolitana é grave e o primeiro passo para amenizar a crise compreende a criação de mecanismos capazes de garantir economia da água. Usar melhor a água disponível deve ser a prioridade de curtíssimo prazo.

OESP, 09/02/2004, p.A3

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