O Globo, Opinião, p. 6
26 de Mai de 2007
Pés no chão
A falta de energia leva à inevitável devastação da natureza
A definição de investimentos no setor de energia elétrica se tornou uma corrida contra o tempo.
Se a economia brasileira de fato conseguir sustentar uma taxa de crescimento de 4% a 5% nos próximos anos, a energia pode vir a ser o gargalo que abortará essa trajetória. O país precisa acrescentar anualmente de 3.000 a 4.000 megawatts em sua potência instalada para suprir a demanda por energia no caso de se confirmar o crescimento econômico esperado.
Para tal, diversas fontes têm de ser mobilizadas, mas a principal continuará sendo a energia de origem hidráulica, face ao potencial ainda inexplorado, em especial na Amazônia. A preocupação com o impacto ambiental de grandes projetos entrou na agenda brasileira, assim como em quase todo o planeta, há relativamente pouco tempo. Isso explica em parte a dificuldade de avaliação das autoridades responsáveis pelo licenciamento ambiental, o que obriga os empreendedores a um exaustivo processo de ajuste dos projetos para atender a condicionantes que parecem nunca se esgotar.
Não é possível se ignorar mais a questão ambiental em qualquer atividade que interfira na natureza. Construção de barragens alteram o curso dos rios, inundam áreas para criação de reservatórios, afetam o microclima e podem pôr em risco espécies animais e vegetais. Daí que esses empreendimentos devem ser precedidos de profundos estudos de impacto ambiental que apresentem soluções capazes de evitar ou mitigar ao máximo os seus efeitos sobre a natureza.
A experiência acumulada no Brasil nesse ramo permite que efetivamente se possa conciliar empreendimentos na área energética com preservação do meio ambiente, e a reestruturação do Ibama é uma medida correta neste sentido.
O problema é que, pelo menos até agora, o setor vinha sendo tratado, em alguns casos, como vilão, e os processos junto aos órgãos de licenciamento ambiental acabavam se arrastando de maneira kafkiana.
Afinal, a falta de energia leva à deterioração das relações socioeconômicas, com inevitável devastação da natureza. Para não perderem essa corrida contra o tempo, está mais do que na hora de os órgãos de licenciamento ambiental se ajustarem de fato à realidade, pondo os pés no chão.
O Globo, 26/05/2007, Opinião, p. 6
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