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"Para se ter uma pecuária sustentável na Amazônia, é necessária a atuação do Estado", diz Greenpeace

Amazônia - www.amazonia.org.br
Autor: Thais Iervolino
26 de Jul de 2010

O desenvolvimento irresponsável da pecuária não é só promovido pelo mercado, mas também pela ausência de governança e falta de aplicação das leis. Essa é a análise que Márcio Astrini, da Campanha Amazônia do Greenpeace, faz depois de um ano de lançamento do estudo "A Farra do Boi na Amazônia", que denunciou que a pecuária ilegal estava destruindo a floresta amazônica.

Em entrevista exclusiva ao Amazonia.org.br, Astrini explica quais foram os principais motivos para a elaboração do estudo, além de mostrar qual o processo de repercussão e desafios da atividade na região.

Confira a entrevista:

Amazonia.org.br - Qual a necessidade que vocês tiveram, há um ano, em lançar um relatório sobre a pecuária na Amazônia?

Márcio Astrini - O Greenpeace trabalha hoje no mundo inteiro com uma plataforma de campanha de combate ao aquecimento global. No caso do Brasil, o maior reduto de emissão é a pecuária na Amazônia.

O desmatamento é isoladamente o maior fator de emissão de gás estufa no país, e faz do Brasil o 4 emissor do mundo. Segundo os dados do próprio governo, a pecuária é responsável por 80% desse desmatamento que provoca essas emissões.

A necessidade está em um pensamento global de combate ao desmatamento no Brasil e de uma reorganização da forma de desenvolvimento da pecuária, porque a pecuária no molde atual propicia e alavanca o desmatamento na Amazônia. Foi isso que motivou a gente a lançar A Farra do Boi.

Amazonia.org.br - Qual é o balanço que você faz hoje sobre a pecuária, um ano após o lançamento do relatório A Farra do Boi?

Astrini - Quando a gente lança relatório de "campanhas de mercado", porque vincula as relações de mercado, como transações comerciais, sempre há uma primeira etapa, que é a negação, ou seja, os envolvidos na questão negam que o estudo seja verdade.

A segunda é a reação do setor que está sendo denunciado. O setor diz que vai nos processar porque o estudo refere-se a uma teoria de conspiração.

A terceira etapa é a do entendimento, quando as pessoas começam a perceber que o tipo de relatório que a gente faz mostra um problema explícito que obviamente causa uma comoção pública, mas que também oferece uma solução. Essa solução vem exatamente com a denúncia para a sociedade. É dizer: "olha, se você compra essa carne, você compra trabalho escravo". Ao dizer isso, você sensibiliza o mercado, você sensibiliza as pessoas e se tem uma injeção de ânimo e uma cobrança por mudança de comportamento, a ponto de o WallMart dizer "eu não quero colocar esse tipo de carne na minha prateleira".

O primeiro objetivo é criar essa mobilização pública. Criar essa mobilização de opinião pública, essa sensibilidade no mercado, principalmente nos grandes mercados corporativos. No caso os supermercados, empresas que compram couro, como Adidas, Nike, etc. Criada essa pressão, é preciso criar um mecanismo para mostrar uma saída. Então pontuamos seis itens e um sistema para respeitá-los. Os pontos são: não comprar mais de quem desmatou, não comprar em terras indígenas, trabalho escravo, áreas de conservação, áreas de conflito agrário, além de auditar as propriedades que vendem e mostrar o resultado disso em algo transparente.

Depois de assinado o acordo, eles vêm cumprindo as etapas, às vezes com um pouco mais de tempo, às vezes se tem uma falha em um critério - até porque os nossos governos não possuem informações para identificar quais fazendas promoveram conflitos e esse contexto exige a criação de outro mecanismo de controle do que apenas tomar simplesmente uma atitude.

De lá para cá as empresas que firmaram o acordo cadastraram todos os fornecedores na Amazônia, identificaram quem são eles, diagnosticaram 208 fazendas dentro de terras indígenas e unidades de conservação e 13 propriedades muito próximas a desmatamentos e já suspenderam a compra de carne dessas 221 fazendas, no total.

A mais importante mudança foi a de comportamento. Eles entenderam o recado principal, que a campanha conseguiu passar, que a questão ambiental não é um luxo dos ambientalistas, faz parte do negócio deles. Se não respeitarem a questão ambiental, eles enfraquecerão o próprio negócio.

É melhor você curar a doença do que ficar colocando a culpa no termômetro da febre. É preciso mudar a postura do que ficar brigando com o problema.

Amazonia.org.br - Como você vê a pecuária na Amazônia hoje? Quais os desafios que ainda precisam ser enfrentados?

Astrini - A atividade continua sendo predatória, com um algo risco ambiental, já que ela se desenvolve ocupando a floresta. O compromisso é o primeiro passo de mercado para frear o desenvolvimento que está acontecendo de maneira errada e que tem pouco espaço no mercado competitivo.

Agora, o compromisso do mercado tem os seus limites. Esse desenvolvimento irresponsável não é só promovido pelo mercado, é promovido pela ausência de governança, de aplicação das leis, falta da presença do Estado.

Por exemplo, se tem uma quantidade enorme de analfabetos funcionais no campo que não têm como adquirir ensinamentos sobre tecnologias para triplicar sua produção, para diminuir o desmatamento. Então há problemas sociais gravíssimos, de falta de governança, de ilegalidade e que o mercado tem um limite de atuação.

Então pegamos uma parte importante do setor, que é a financeira, e começamos a mobilizar. Só que isso é um nicho, para se ter todo um desenvolvimento modificado, é preciso que o governo se mobilize.

Nossa visão é que é um setor que movimenta bilhões ao ano, emprega muita gente, gera renda, ajuda na positividade da balança comercial. O governo deveria olhar para isso e investir na pecuária sustentável, da mesma forma que os frigoríficos que assinaram o acordo estão fazendo.

http://www.amazonia.org.br/noticias/noticia.cfm?id=361745

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