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Organização de povos indígenas na Amazônia anuncia que denunciará "discriminação" de coordenador da Funasa

Radiobrás
Autor: Amanda Mota
17 de mai de 2007

A Organização dos Povos Indígenas Tora, Tenharin, Apurinã, Mura, Parintintin e Pira-hã (Oppittamp) declarou hoje (16) que fará ao Ministério Público do Amazonas uma denúncia por terem sofrido, segundo o secretário da instituição, Antônio da Silva Barreto, discriminação, preconceito e calúnia por parte do coordenador da Fundação Nacional de Saúde (Funasa), Francisco Aires.

Segundo Barreto, Aires teria chamado os Tenharin de marginais e criminosos na segunda-feira (14), quando técnicos da Funasa e agentes da Polícia Federal chegaram à aldeia Estirão Grande, localizada perto do município de Manicoré, para resgatar três funcionários do órgão de saúde que eram mantidos como reféns dos indígenas desde domingo (13).

Barreto disse ainda que a relação entre a Funasa e as comunidades indígenas de Manicoré é tensa. Ele lembrou que a população local está sendo fortemente afetada por casos de tuberculose, malária e desnutrição, e que a Funasa não presta aos indígenas a atenção necessária. Por isso, acrescentou, eles decidiram manter os agentes de saúde na aldeia, a fim de chamar a atenção das autoridades para o problema.

"Temos uma série de dificuldades no diálogo com a Funasa. A cada reunião que fazemos vai um representante diferente e toda vez temos que contar nossos problemas do zero. Quando eles voltam às aldeias, já com outra pessoa, percebemos que, do que foi dito anteriormente, nada evoluiu. Enquanto isso, nossos índios padecem de tuberculose e malária, e nossas crianças, de desnutrição", informou.

O vice-cacique de Estirão Grande, Júnior Tenharin, de 23 anos, nega que tenha havido o seqüestro. Ele diz que os funcionários da Funasa apenas foram mantidos na aldeia como forma de negociação.

Sobre a denúncia de que teria usado uma espingarda para amedrontar a nutricionista, o odontólogo e o técnico em enfermagem - funcionários da Funasa -, Júnior Tenharin afirmou que a arma do índio é a flecha e não a espingarda. Ele garantiu que os funcionários de saúde estavam circulando na aldeia normalmente.

"Não houve seqüestro. O que aconteceu nós chamamos de uma forma de negociação entre os índios e a Funasa. Ninguém sofreu violência nem ameaçou fisicamente. A arma do índio para sua defesa ou ataque não é a espingarda. É a flecha. Se a gente quisesse fazer alguma coisa contra os funcionários, a gente se pintaria, estaria com roupa de guerra e usaria flecha. Eles estavam na aldeia como nós. A gente teve até despesa: fomos numa vila perto da aldeia e gastamos R$ 100 para comprar comida de branco, como feijão, arroz e enlatados, já que eles não comem nossa comida", disse.

O coordenador da Funasa no Amazonas, Francisco Aires, informou que acionou a Polícia Federal para garantir o bem-estar de seus funcionários e por considerar a ação dos indígenas um crime. Ele reconheceu as dificuldades encontradas para garantir a satisfação total com relação ao atendimento da saúde indígena, principalmente pela geografia da região, mas disse não temer as conseqüências dessa denúncia que os índígenas pretendem fazer ao Ministério Público.

"Fiz a denúncia para resgatar nossos funcionários. Ninguém tem o direito de prender ninguém, ainda mais sob ameaça e uso de arma de fogo. Reconheço que temos dificuldades para deslocar as esquipes e chegar às comunidades mais distantes do estado, mas nem por isso nossos trabalhos estão deixando de ser realizados. A dificuldade de acesso não é só aos povos indígenas, mas a todas as comunidades que vivem no interior e nas áreas mais distantes da capital. Não há problema se eles se queixarem de mim ao Ministério Público. Eles cometeram um crime e devem pagar por isso".

Aires destacou ainda que a decisão do seqüestro foi apenas de um grupo de indígenas armados e sem o conhecimento das lideranças da região.

A direção da Funasa no Amazonas informou que a Polícia Federal instaurou inquérito para apurar a questão e que a nutricionista Camila Noveletto, o odontólogo Djalma Quirino e o técnico em patologia Silva Filho, que foram mantidos reféns, já depuseram e aguardam o desfecho da investigação em Manaus.

Segundo a Coordenação Regional da Funasa no Amazonas, representantes do órgão de saúde realizaram hoje (16) , na sede do município de Manicoré, uma reunião com lideranças de 20 etnias da região para discutir as verdadeiras reivindicações dos indígenas e o motivo do seqüestro dos servidores.

A assessoria de comunicação da Funasa (AM) informou que na aldeia Estirão Grande há um posto de saúde tipo 2, com equipamentos básicos para atendimento e desenvolvimento dos programas adotados pelo Ministério da Saúde.

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