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O agronegócio se preocupa, sim, com questão ambiental

OESP, Economia, p. B7
Autor: VENDRAMINI, Teresa
18 de fev de 2020

'Chego aqui carregando 100 anos nas costas'
Nova presidente da SRB quer colocar discussões sobre a Amazônia no debate com produtores e governo

Entrevista com
Teresa Vendramini, presidente da Sociedade Rural Brasileira (SRB)

Primeira mulher a assumir a presidência da centenária entidade Sociedade Rural Brasileira (SRB), Teresa Vendramini, a Teka, quer promover um amplo diálogo com os produtores agrícolas sobre as questões ambientais, tema considerado sensível para o agronegócio.

Pecuarista e socióloga, Teka teve o apoio de três diretores da SRB para presidir a entidade a partir deste ano até 2022. "Chego aqui carregando cem anos de história nas costas", diz. Teka também promoveu a renovação na entidade, que completa 101 anos em 2020, trazendo três jovens lideranças abaixo dos 30 anos.

A seguir, os principais trechos da entrevista.

Qual o peso da responsabilidade de ser a primeira mulher a assumir a Sociedade Rural Brasileira, um setor predominantemente masculino?
Chego carregando cem anos de história nas costas. O peso é grande, mas não é pesado. É bom. A Rural tem um passado tão glorioso, com um celeiro de líderes nesses últimos anos, que é uma honra estar junto deles aprendendo e também ajudando a construir novos caminhos. Tenho de honrar o que foi feito até agora e trazer os agricultores para novas discussões.

Quais serão os grandes temas para debate no seu mandato?
Um dos meus temas é trazer o produtor rural para discutir a questão ambiental. Nós passamos por um turbilhão no ano passado (por conta dos incêndios na Amazônia). Quero criar um comitê da Amazônia aqui na Rural para debater essas questões.

Como será esse comitê?
Tenho conversado com um produtor rural do Pará, associado à SRB, que conhece todos os problemas da Amazônia e que está disposto a fazer a ponte com agricultores locais da região. Isso é uma coisa nova dessa diretoria. Eu vou para Marabá, entre março e abril, para efetivar esse comitê e conhecer os outros produtores que estão lá. Minha preocupação é ter também um produtor que olhe para os dois lados.

Quais lados?
Às vezes, acho que o agricultor fica só do lado da produção, mas hoje em dia está uma coisa tão mais aberta. Temos de debater, é um tema sensível. Quem estiver comigo, teria de ter mais maleabilidade.

Como está interlocução da SRB com o governo?
A Rural pega todas as demandas e indagações dos agricultores e leva para o governo, Congresso e Judiciário e faz essa ponte. Então é óbvio que essa diretoria e essa nova presidente em construção vão continuar sendo essa ponte.

A sociedade civil colocou o agricultor como um vilão nesta história. Como provar que o agricultor não é vilão?
Acho que qualquer historinha tem os bandidos e os vilões. Então, isso está em construção também. Quem sabe trazendo história real. Não dá para dizer que o agricultor é péssimo, que degrada. Não é isso. A maior parte preserva, cuida. Tenho feito viagens e vejo como eles estão lá e se ressentem do que falam dele do outro lado do País. Acho que dentro desse comitê eu quero trazer essas histórias para que se conheçam as práticas ambientais deles.

Como vai ser essa conversa da SRB com os ministérios da Agricultura e Meio Ambiente? No ano passado, esses dois ministérios não estavam tão alinhados no discurso.
Eu espero que eu consiga levar umas pautas adiante. Sou uma pessoa que gosta de ouvir muito, ponderar. A maturidade me deu isso. Eu quero ser uma ponte para construir esses diálogos.

Construir essa ponte em Brasília ou fora do Brasil, que tem essa imagem de País que só desmata?
O nosso maior desafio é reverter essa imagem fora. Não tenho dúvida. A gente se organizando com comitê da Amazônia, com pessoas sérias que querem contar suas verdadeiras histórias. Podemos debater e mostrar que o agronegócio é preocupado com questões ambientais sim.

Qual foi a motivação para trazer para diretoria pessoas da nova geração?
Foi uma preocupação muito grande minha no ano passado, quando estava na diretoria. Comecei a pensar quais são os ativos da Rural. Tem uma moçada aqui dentro jovem que são o grande ativo e que só estão esperando uma oportunidade para trabalhar. Estou tentando identificar outros para estar mais junto comigo. Houve uma conexão forte. Preciso de gente para trabalhar comigo e ajudar a carregar este piano.

Qual o desafio da SRB sobre a vigilância sanitária?
Quando ainda era diretora de pecuária daqui, fui acompanhar o plano nacional de erradicação da vacinação da febre aftosa. Eu acompanhei muito esse assunto no Brasil. Aprendi muito com Pedro de Camargo Neto (vice-presidente da SRB) a importância da vigilância sanitária para o País. Está fazendo dois anos que o Ministério da Agricultura fez uma avaliação dos Estados. São Paulo é o segundo pior Estado em vigilância sanitária do Brasil, e é o Estado mais rico. O que aconteceu? Fiquei preocupada com medo de surtos. A SRB tem de debater essa ponte com o governo.

E a educação no campo, não ajudaria?
Uma produtora rural da região de Bauru (SP) um dia me ligou para falar sobre o avanço da indústria da árvore no Estado, que arrendou as grandes e médias fazendas e deixou os pequenos fora do jogo. Fui lá dar palestra. Eu quero continuar e estruturar essas pequenas parcerias, identificando outros locais no Brasil que tem essa carência de tudo.

Então, quer dizer que a SRB vai passar a olhar não somente as questões dos latifundidários para representar os pequenos produtores?
Olha só a oportunidade que estou tendo! Aqui de não representar só os grandes. Eu quero ser esse meio. O Brasil é esse chão.

OESP, 18/02/2020, Economia, p. B7

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