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Nova era verde

CB, Tecnologia, p. 16
10 de ago de 2009

Nova era verde
Preocupados com a sustentabilidade ambiental, fabricantes de eletrônicos se movimentam para oferecer produtos alinhados com o tema
Fernando Braga

A crescente preocupação da sociedade em torno de ações que minimizem danos ao meio ambiente atingiu em cheio as empresa de tecnologia da informação (TI). Aos poucos elas começam a aderir ao movimento verde, ao desenvolver produtos e adotar posturas ecologicamente corretas. Essa corrente que ganha cada vez mais força e a adesão de grandes companhias atende pelo nome de Green IT (ou TI verde).

Para incentivar (ou mesmo pressionar) as fabricantes a adotarem políticas que levem em consideração as questões ambientais, a organização não governamental Greenpeace lança, três vezes por ano, o Guide to Greener Electronics, no qual reúne as marcas do setor que mais se mostram comprometidas com os conceitos de sustentabilidade. A ideia é que as companhias sigam alguns critérios, como a redução de componentes tóxicos utilizados na fabricação de equipamentos, além de aumentar a eficiência energética dos produtos e se responsabilizar pelos itens depois de usados.

De acordo com a ONG, a empresa finlandesa Nokia encabeça a lista e se destaca por ter um programa que conta com quase 5 mil pontos de recolhimento de celulares usados em 84 países (160 só no Brasil, entre assistências técnicas e lojas de vendas). "De 65% a 80% dos nosso celulares são passíveis de reciclagem", explica o diretor de serviços da Nokia Brasil, Gustavo Jaramillo, contando que a preocupação com o tema vai além da coleta.

"Temos uma atenção especial com a cadeia como um todo, que começa na cobrança de nossos fornecedores por material que cause o mínimo de impacto ao ambiente até a otimização da distribuição de nossos produtos", diz, citando que a fabricante tem reduzido gradativamente o tamanho das caixas, o que aumenta a eficiência no transporte e diminui o uso de papelão. "Acreditamos que esse é um caminho sem volta. O planeta tem recursos limitados e é nosso dever preservá-los, oferecendo produtos com o máximo possível de materiais recicláveis", pontua Jaramillo.

Um dos elementos que vem sendo combatido por governos e organizações pelo forte impacto que causa ao ambiente e à saúde das pessoas é o chumbo, que, devido às suas propriedades mecânicas e elétricas, tem sido utilizado durante décadas por companhias do setor de eletrônicos. Na busca por materiais substitutos, as corporações estão investindo em conhecimento e enfrentando desafios técnicos para trocar o famoso metal. A Intel, por exemplo, anunciou que todas as placas produzidas baseadas no padrão 45 nanômetros seriam 100% livres de chumbo. A Sony também eliminou a presença do metal nas ligas de soldas utilizadas no processo de manufatura e montagem de TVs.

Conscientização
A adoção de políticas e estratégias empresariais focadas na conscientização do uso correto dos produtos e serviços também é outro item levado em consideração pelo ranking do Greenpeace. A organização espera, assim, incentivar o lançamento de campanhas educativas que ensinem o consumidor a usar equipamentos de modo mais sustentável. A Lexmark, tradicional fabricante de impressoras, por exemplo, há sete anos promove uma ação junto aos clientes corporativos com a intenção de reduzir o número de impressões num equipamento.

"Em vez de gastar papel imprimindo uma relação de documentos de clientes, a empresa pode, com um scanner, digitalizar todas as informações, sem correr qualquer risco. Com isso, todos saem ganhando", opina o diretor-geral da empresa no Brasil, Carlos Bretos. A marca tem um programa de coleta de cartuchos onde, depois de juntar três tonners e se cadastrar no site da fabricante, um funcionário vai até a casa do cliente para recolher os itens e oferecer um bônus para a compra de um novo produto. "Os fabricantes têm que desenvolver mecanismos para acompanhar o ciclo de vidas de seus produtos e, lá no final, se responsabilizar quando eles forem jogados fora", diz.

De acordo com uma pesquisa encomendada pela Lexmark International e conduzida pela Ipsos com 10 mil pessoas de 21 países, aproximadamente 84% dos consumidores estariam mais dispostos a comprar um produto se o fabricante mostrar mais respeito pelo ambiente. "Hoje, as empresas veem a questão da TI verde como um diferencial, mas amanhã isso será um fator que definirá a própria sobrevivência das companhias no mercado", conclui Bretos.

E-lixo já é um problema mundial

Um celular mais moderno, uma televisão com maior qualidade de definição, um computador com configuração superior. Na mesma proporção em que a indústria eletrônica desenvolve produtos cada vez mais avançados, cresce também a quantidade de aparelhos que são aposentados pelos consumidores e empresas. Com isso, a montanha de lixo eletrônico (ou, simplesmente, e-waste) chega a patamares alarmantes. A organização Greenpeace calcula que, todos os anos, aproximadamente 50 milhões de toneladas de resíduos eletrônicos são jogadas fora ao redor do mundo. Se esse material fosse colocado dentro de uma sequência de vagões de trem seria possível dar uma volta no planeta.

Esse tipo específico de lixo é o que mais cresce atualmente, e representa 5% de todos os resíduos sólidos urbanos produzidos pelo homem. Isso significa quase o mesmo montante que as embalagens plásticas, com o agravante de ser muito mais perigoso - por conter inúmeras substâncias tóxicas (como mercúrio, chumbo e cloreto de polivinila, mais conhecida como PVC) -, e não só para o meio ambiente, mas para o próprio homem. Com a redução da vida média de aparelhos como telefones móveis e PCs, essa questão se torna especialmente grave para os países desenvolvidos, que consomem cada vez mais tecnologia e têm que lidar uma pilha gigantesca de e-waste. Somente na Europa, esse tipo de resíduo cresce de 3% a 5% por ano, quase três vezes mais que o total de lixo urbano.

Como se livrar, então, desse problema? Simples, mande-o para as nações pobres. Por mais absurda que a ideia possa parecer, é exatamente isso que as grandes potências estão fazendo. Para isso, hasteiam a bandeira de um nobre ideal: contribuir para a inclusão digital. Porém, na prática, famílias pobres sem nenhuma proteção ou instrução manuseiam os resíduos, separando as peças para centros de reciclagem ou procurando algo de maior valor no meio do montante. Os países que mais recebem esse lixo são a China, a Índia, o Paquistão e alguns da África que, juntos, recebem cerca de 500 contêineres todos os meses.

CB, 10/08/2009, Tecnologia, p. 16

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