OESP, Metrópole, p. A25
03 de Out de 2013
Monumento às Bandeiras é pichado 2 vezes em 24h
Grupos fizeram inscrições contra mudança nas regras para demarcação de terras indígenas
Um dos mais famosos cartões-postais de São Paulo, o Monumento às Bandeiras foi alvo de duas pichações em menos de 24 horas, ambas contra a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 215. O projeto tira do Executivo a definição sobre a delimitação de terras indígenas e passa para o Congresso Nacional.
A obra já amanheceu pichada nesta quarta-feira, 2. Pouco antes da zero hora, de quatro a seis pichadores foram para a frente do monumento. Escreveram "Bandeirantes assassinos" e "PEC 215 Não". A ação durou poucos segundos. Os pichadores temiam que imagens das câmeras ao redor do monumento acionassem o Centro de Operações da Polícia Militar (Copom). O grupo alega já ter participado de diversas pichações, incluindo ações no Teatro Municipal e na Prefeitura.
A administração municipal reagiu rápido. À tarde, uma empresa de limpeza contratada pelo Departamento de Patrimônio Histórico - órgão da Secretaria Municipal de Cultura - encarregou-se de limpar a obra. De acordo com a secretaria, o serviço foi feito por "jateamento de água limpa e quente, com pressão determinada para o tipo de material do monumento", mas também foram "utilizados removedores químicos". Até o início da noite desta quarta, não foi especificado quanto a operação custou.
Tinta e prisão. Mais tarde, porém, um novo protesto contra a PEC resultou em ato de vandalismo. Os ativistas - grande parte de etnias indígenas - começaram a chegar às 15h30 ao vão livre do Masp, na Avenida Paulista. Estavam pintados e usando trajes tradicionais. Ao longo de uma hora, dançaram e cantaram músicas indígenas. Perto das 17h30, os manifestantes iniciaram uma marcha pela avenida, interditada nos dois sentidos. Houve confronto entre manifestantes e policiais. Segundo a PM, ao menos uma pessoa foi detida. Os manifestantes caminharam pela Avenida Brigadeiro Luís Antônio, sentido bairro, até o Monumento às Bandeiras.
No local, por volta das 21 horas, além de subir na escultura, manifestantes jogaram tinta vermelha e escreveram mensagens como "Bandeirantes Assassinos". Um pano vermelho foi estendido e cartazes contrários à PEC 215, colocados ao redor da obra.
Procurado para falar sobre a primeira pichação, o engenheiro Victor Brecheret Filho, de 71 anos, disse estar "espantado", "chocado" e "horrorizado" com o que ocorreu. "Meu pai orgulhava-se da solidez dessa obra. Ele costumava brincar que, mesmo que caísse uma bomba atômica em São Paulo, permaneceria intacta", afirmou ao Estado. Ele sugeriu que seja adotada em São Paulo uma solução semelhante à que protege a escultura La Carreta, de José Belloni, em Montevidéu, no Uruguai. "É um detector de passagem, com feixe de luz, capaz de acionar uma sirene quando alguém passa", explicou.
Brasília. Um grupo de índios também protestou na frente do Congresso Nacional, em Brasília. De acordo com a PM do Distrito Federal, cerca de 200 pessoas participaram na manifestação. O grupo tentou, sem sucesso, invadir a Câmara dos Deputados por um prédio anexo. / EDISON VEIGA, BRUNO PAES MANSO, LAURA MAIA, MATEUS FAGUNDES e RICARDO DELLA COLETTA
'Obra representa era de opressão aos índios'
Bruno Paes Manso - O Estado de S.Paulo
Eles avisaram algumas pessoas que fariam uma ação de impacto. "Temos amigos que foram enquadrados por formação de quadrilha e todo cuidado é pouco", disse um dos pichadores, que pediu para ser chamado de Bakunin, em referência ao líder anarquista Mikhail Bakunin. Abaixo, o pichador explica o que motiva o grupo - que já participou de diversas pichações, como ao Teatro Municipal, à Prefeitura e ao monumento de Paulo Mendes da Rocha na Praça do Patriarca - a atacar o patrimônio público.
Por que vocês picharam o Monumento às Bandeiras?
Aquele monumento representa os bandeirantes e muita gente não sabe que eles foram estupradores e assassinos de índios. Ele representa uma era de opressão e segregação aos índios. A maioria não sabe, mas está rolando agora uma PEC, a 215, que pretende acabar com a demarcação indígena. Nós, do Pixo Manifesto Escrito, abraçamos a causa. A nossa cultura indígena é das poucas coisas que nos restam. Fazendeiros e ruralistas continuam assassinando os índios e querem mais.
Como foi a ação? Quantos participaram?
Um número suficiente de pessoas para não chamar a atenção. A gente sabe que tem um monitoramento grande por lá. O objetivo é trazer a pauta da PEC e colocar isso em discussão nacional.
É um monumento histórico da cidade. Não é uma forma agressiva de se manifestar? Agressivo é aquele monumento. Há uma simulação da bondade dos bandeirantes. Mas os índios eram escravos, eram mortos.
Desde junho, o Pixo Manifesto participou de outras ações, como a depredação da Prefeitura. Como você vê essa ação de destruição do patrimônio público?
Somos pichadores, somos um coletivo anônimo. Para a gente, o vandalismo é um instrumento político. Visa a destruir o símbolo do inimigo. É uma destruição simbólica.
Qual a relação de vocês com os Black Blocs?
Nenhuma. A gente tem relação com o Movimento Passe Livre e os movimentos das causas indígenas.
Inicialmente vocês foram contra a PEC que tirava o poder do MPE de investigar, certo?
Sim, a gente ajudou a derrubar essa PEC. Agora queremos lutar para derrubar a PEC 215.
Faz 30 anos que os pichadores existem em São Paulo. Essa é uma nova fase do movimento?
Sempre houve ações coletivas. Com o tempo, o picho ficou mais focado às suas disputas internas. Essa iniciativa do Pixo Manifesto Escrito era justamente unir os pichadores coletivamente de uma forma anônima e neutra.
OESP, 03/10/2013, Metrópole, p. A25
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