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Missionária nega-se a ensinar religião a índios

O Estado de S. Paulo-SP
Autor: Roldão Arruda
14 de jan de 2002

Ela é neta do marechal Rondon e vive numa tribo no interior do Mato Grosso há 23 anos

A freira Elizabeth Aracy Rondon Amarante, neta do marechal Cândido Mariano Rondon, o mais famoso sertanista e explorador brasileiro, abandonou a civilização há 23 anos. Foi viver na tribo dos índios m~yki, constituída na época por duas dezenas de pessoas, remanescentes de vários massacres.

Eles viviam isolados na mata, arredios aos brancos e com rudimentos da idade da pedra lascada, segundo recordações da freira, que está em São Paulo.

Deixou temporariamente a tribo, hoje com 81 pessoas, para vir dar palestras a convite do Centro Ecumênico de Serviços à Evangelização e Educação Popular.

Com 68 anos, modos elétricos e de uma magreza quase ascética, a irmã Elizabeth pertence à Congregação do Sagrado Coração, criada na França em 1800. Costuma usar camiseta, calça comprida de malha e adornos indígenas, como colares, brincos, anéis. Em entrevista ao Estado, contou que nunca tentou catequizar os índios: "Deus já está presente entre eles. Mais do que aqui."

Estado - Como estão os mykis?

Elizabeth Aracy Rondon Amarante - Vivem numa área indígena demarcada, com 47 mil hectares, no noroeste do Mato Grosso. Plantam milho, batata, feijão, mandioca.

Estado - A senhora tem uma atividade específica?

Elizabeth - Estudei filosofia e antes de ir para lá trabalhei em colégios de Belo Horizonte, Rio, Curitiba. Por causa dessa especialidade, minha tarefa na tribo tem sido ajudar a estabelecer a ortografia myki, uma língua isolada, que eles falam perfeitamente, mas que não é escrita. Como as novas gerações também aprendem o português, essa é uma forma de evitar que a língua desapareça.

Estado - Fala myki?

Elizabeth - É a minha maior dificuldade. Falo com os velhos, que não usam o português, mas não sou fluente.

Estado - Ensina a sua religião a eles?

Elizabeth - Nunca. Procuro incentivar a religião que possuem, pois tem uma força muito grande como fator de resistência cultural. Nos rituais religiosos, quando há oportunidade, partilho minha fé, mas apenas como diálogo religioso. A religiosidade deles é profunda, com espíritos bons e maus e a predominância de um grande espírito do bem. Falam com esses espíritos por meio de seus antepassados, os mortos.

Estado - Eles conhecem o presidente da República?

Elizabeth - Sim, mas não gostam dele, porque acham que não se esforçou para a regulamentação do Estatuto dos Povos Indígenas, previsto na Constituição. Na tribo já existem 27 eleitores.

Estado - A senhora não acha que a situação melhorou, como indica o crescimento da população indígena?

Elizabeth - A não aprovação do estatuto mostra que o governo não assumiu a defesa das minorias, que está ligado aos interesses das empresas de mineração, hidrovias, latifúndios.

Estado - Tem lembranças de seu avô, o marechal?

Elizabeth - Convivi com ele até 1954, quando entrei para a vida religiosa. Lembro que contava histórias sobre os encontros com os povos indígenas, imitava sons de passarinhos, bichos. Mais de uma vez me levou para passear na sede do antigo Serviço de Proteção ao Índio, o SPI, no Rio. Lembro dele como uma pessoa amiga.

Estado - Até quando a senhora vai ficar com a tribo?

Elizabeth - Quero morrer entre eles.

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