VOLTAR

Ministro vê avanço, mas quilombolas reagem

OESP, Nacional, p. A13
02 de Out de 2008

Ministro vê avanço, mas quilombolas reagem
Regra que dificulta demarcação de novas áreas entra em vigor

Roldão Arruda

As novas normas para a demarcação de terras de quilombolas, estabelecidas pela Instrução Normativa n.o 49, divulgada ontem no Diário Oficial da União, provocaram manifestações de apoio e de repulsa. "O governo cedeu às pressões dos ruralistas e retrocedeu vergonhosamente", acusou a quilombola Jô Brandão, da Coordenação Nacional dos Quilombos.

Do outro lado, o ministro interino da Secretaria da Igualdade Racial, Elói Ferreira de Araújo, saudou a instrução como um avanço: "As novas normas aparam arestas e eliminam dúvidas que emperravam o andamento dos processos de reconhecimento das terras."

A nova instrução foi definida a partir de um grupo trabalho coordenado pela Advocacia-Geral da União (AGU). A idéia de substituir a antiga instrução, de n.o 20, surgiu na Casa Civil após uma série de disputas envolvendo instituições do governo em torno das terras reivindicadas pelos quilombolas.

A instrução é assinada por Rolf Hackbart, presidente do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) - a autarquia responsável pelos processos de reconhecimento, demarcação e titulação das terras de quilombos. Ontem, em entrevista ao Estado, Hackbart também disse que as novas regras constituem um avanço.

"Daqui para a frente, as desapropriações de terras serão pagas integralmente em dinheiro. Antes uma parte era paga em TDA. Isso favorece o proprietário e elimina os demorados ritos de desapropriação para a reforma agrária", afirmou. "Outra medida positiva é a criação de uma câmara de conciliação, dirigida pela AGU, no caso da sobreposição de interesses públicos."

Redigida na AGU, a nova instrução foi analisada e aprovada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, antes de ser encaminhada a Hackbart. Ela reduz sensivelmente os poderes do Incra. Um exemplo: anteriormente, cabia ao instituto a palavra final em qualquer conflito. Daqui para a frente cabe à AGU.

Para Jô Brandão, um dos sinais de que o governo recuou foi o abandono do termo "território" - que constava da instrução anterior. "Território é um termo abrangente. Engloba tudo o que envolve a identidade cultural da comunidade", explicou. "Agora o governo trata a questão como se estivéssemos pedindo um lote de terra."

A articuladora política também observa que antes bastava uma comunidade se autodefinir como quilombola para ser reconhecida: "Pelas novas normas, a autodefinição precisa ser confirmada por um antropólogo. É um retrocesso."

Ao mudar as normas, o governo também pretende sensibilizar o Supremo Tribunal Federal (STF), que se prepara para examinar uma ação direta de inconstitucionalidade a respeito do tema. Proposta pelo DEM, a ação questiona a Resolução 488, assinada em 2003, pelo presidente Lula, regulamentando o artigo da Constituição, que reconheceu os direitos dos quilombolas. Segundo o DEM, o presidente não tem autoridade para isso.

OESP, 02/10/2008, Nacional, p. A13

As notícias aqui publicadas são pesquisadas diariamente em diferentes fontes e transcritas tal qual apresentadas em seu canal de origem. O Instituto Socioambiental não se responsabiliza pelas opiniões ou erros publicados nestes textos. Caso você encontre alguma inconsistência nas notícias, por favor, entre em contato diretamente com a fonte.