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Luiz Gonzaga era telúrico

CB, Opinião, p.23.
Autor: LEITÃO, Sérgio
15 de Dez de 2012

Luiz Gonzaga era telúrico

Sérgio Leitão
Advogado, é diretor de Políticas Públicas do Greenpeace Brasil

Na comemoração do centenário do nascimento de Luiz Gonzaga, não se pode deixar de destacar um aspecto ainda pouco reverenciado da sua obra: a preocupação com a proteção ambiental e a defesa dos animais. O tema aparece nas canções de forma natural, fruto da relação indissociável que o artista tinha com o sertão, o que o tornava verdadeiramente telúrico, palavra da língua portuguesa que melhor define a ligação de alguém à terra, à natureza.

Na música Assum preto, pássaro também conhecido como graúna, o compositor descreve a prática dos passarinheiros que furavam os olhos dessa ave por acreditarem que, em razão das dores que ela sentiria, provocadas pela ausência de luz, cantaria ainda mais e melhor. Como diz o Rei do Baião, somente a ignorância ou a pior das maldades explicariam a necessidade de impingir sofrimento para embelezar um canto.

Luiz Gonzaga, com a sua música, traduziu para o Brasil as consequências ambientais de viver em uma região onde as mudanças inclementes do tempo impõem a cruel alternância de anos bons, quando chove, e ruins, assolados pela seca. Quando falta água, o sol faz tostar a vegetação e beber os riachos, é o lamento contido na sofrida Légua tirana, que expressa a devoção do sertanejo aos céus, derradeira instância a que se recorre nos momentos de aflição.

Embora a fome não deixe mais o seu rastro de morte em razão do anteparo de programas sociais como o Bolsa Família, os efeitos da estiagem sobre o abastecimento hídrico das cidades continuam tão dramáticos quanto os do momento em que o músico nordestino arribou da sua terra natal para o Rio de Janeiro. Isso sem falar da destruição da produção agrícola, que continua a ocorrer com a mesma intensidade de antes.

O Brasil até hoje não foi capaz de ajudar o Nordeste a dispor de reais condições para enfrentar sua sina, ou, como se diz atualmente, aprender a conviver com a seca. Por ironia, é justamente no centenário do nascimento de Luiz Gonzaga que a região enfrenta a pior seca dos últimos 50 anos, o que faz o drama secular desfilar novamente diante dos olhos dos brasileiros.

A seca derrubou a produção de leite em Pernambuco de 2,5 milhões de litros por dia para pouco mais de 1,3 milhão, obrigando os produtores a retirarem do estado mais de 9 mil animais, na esperança de garantir a sobrevivência do rebanho. Enquanto isso, na Paraíba, os armazéns da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) levam até três meses para distribuir um mísero saco de ração para o agricultor alimentar o gado faminto.

É vergonhoso que o país não tenha estruturado uma política de distribuição dos 37 bilhões de metros cúbicos de água, estocados em 70 mil represas existentes no Nordeste. Isso poderia servir para diminuir a falta de água que atinge atualmente 127 municípios em sete estados da região. Maceió, nesta seca de 2012, é a primeira capital nordestina a implantar o rodízio no fornecimento de água, o que afetou de imediato 200 mil moradores da cidade.

Gonzaga sabia que uma das medidas para estabelecer a convivência com a seca era replantar o que foi desmatado na caatinga. Em Erosão, chamada de serpente que devora o chão, ele exprime o desejo de ainda "ver um dia de novo o verde se espalhar no meu sertão". O desmatamento transformou o Nordeste em uma das regiões do mundo mais ameaçadas pela desertificação.

O Rei do Baião também anteviu os efeitos das novidades que chegavam ao Brasil. Em Estrada de Canindé, lançada quando o automóvel, segundo a canção, mal se sabia se era homem ou mulher, ele parecia receitar o remédio para os tormentos dos atuais moradores das grandes cidades, que, presos em engarrafamentos monumentais, jogam fora horas preciosas do seu tempo. Já naquele momento, Gonzaga cantava as coisas que "pra mode vê o cristão tem que andá a pé", arte que devemos voltar a praticar com fervor religioso para redescobrir a beleza e a graça que nos leve a sobreviver em meio ao pesadelo urbano de ferros e fúrias.

Em tempos de mudanças climáticas e aquecimento global, que vão agravar a intensidade das secas que castigam o Nordeste, tornando ainda pior aquilo que já era insuportável, o legado de Luiz Gonzaga deve servir como lembrete permanente de que o meio ambiente não pode mais ser deixado ao deus-dará. Como ele mesmo canta no clássico A procissão, se existe Jesus no firmamento, "lá na Terra isso tem que se acabar". Viva Luiz, o Rei do Baião!

Correio Braziliense, 15/12/2012, Opinião, p.23.

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