O Globo, Opinião, p. 20
Autor: ALMEIDA, Thiago
05 de Abr de 2015
Lições de Fukushima
Thiago Almeida
A energia nuclear é "limpa" até que um acidente espalhe suas catastróficas consequências. O Brasil arrisca seu bioma e sua gente, quando temos sol e vento para gerar energia sem impacto.
Há quatro anos o pequeno município de Okuma, no Japão, ganhou destaque mundial quando quatro dos seis reatores da usina nuclear de Fukushima derreteram após um terremoto e uma tsunami. Até hoje mais de 400 toneladas de água contaminada vazam diariamente para o oceano, como mostrou estudo do Greenpeace e foi admitido pelo governo japonês. Isso resultou em graves impactos ambientais e sociais à região, a seus moradores e ao país. Atualmente 120 mil refugiados ainda vivem em abrigos.
O maior desastre nuclear desde Chernobyl deve servir de lição. Países como a Alemanha divulgaram planos pós-Fukushima, eliminando gradualmente a energia nuclear de suas matrizes. Como pode a Alemanha - com tão pouca incidência de sol - ser campeã mundial em geração de energia solar, enquanto o Brasil investe de forma ínfima no setor? Seguimos o caminho do retrocesso apostando na energia nuclear (e ainda correndo o risco de apagão), mesmo com uma das melhores irradiações solares do mundo e ventos constantes, que produziriam as chamadas novas energias renováveis.
As usinas nucleares de Angra 1 e Angra 2 custaram mais de US$ 12 bilhões e têm capacidade instalada de 2 GW, o equivalente a menos de 2% de todo o parque gerador brasileiro. Com o mesmo valor hoje seria possível construir 10 GW de energia eólica, por exemplo. Outra obra bilionária, e ainda incompleta, é Angra 3. Prometida para 2012, seu custo passou de R$ 7 bilhões para R$ 14,9 bilhões e sua entrega está prevista para 2018.
Angra 1 e Angra 2 correm o risco de ser desligadas porque seus depósitos temporários estão quase saturados de lixo radioativo. Não há no mundo lugar de armazenamento permanente para esse fim. E o custo? Para resolver a destinação desses dejetos atômicos, mais de R$1 bilhão do nosso dinheiro terá que ser desembolsado.
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O Japão é o segundo maior mercado para energia solar do mundo, com planos de instalar 12 GW da fonte em 2015. Para se ter uma ideia do atraso brasileiro, de acordo com a última versão do Plano Decenal de Energia, prevê-se que o Brasil tenha apenas 3,5 GW de solar instalados até 2023.
Insistimos em fontes de alto grau de impacto social e ambiental mesmo com capacidade de gerar energia eólica e solar suficiente para abastecer todo o país. Além de gerar eletricidade, talvez o sol pudesse iluminar a visão obtusa dos responsáveis, de modo a criar condições mais favoráveis, tanto de mercado quanto de políticas públicas, de incentivo a energias renováveis, a verdadeira solução para a atual crise.
Thiago Almeida é membro da campanha de Clima e Energia do Greenpeace Brasil
O Globo, 05/04/2015, Opinião, p. 20
http://oglobo.globo.com/opiniao/licoes-de-fukushima-15767587
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