OESP, Economia, p. B6
22 de Jul de 2013
Leilão de linha de transmissão pode ter novos critérios
Falta de investidores interessados nos últimos lotes licitados faz governo estudar alternativas
ANNE WARTH / BRASÍLIA
O governo estuda rever os critérios para os próximos leilões de linhas de transmissão, que incluem a infraestrutura para escoar a energia produzida pela usina de Belo Monte, com o objetivo de atrair maior interesse dos investidores. Entre as propostas em estudo, uma possibilidade seria elevar a taxa de retorno dos empreendimentos.
No último leilão, que ocorreu no dia 12 de julho, a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) adotou pela primeira vez uma taxa de retorno de 4,6%. Na licitação anterior, a WACC, que significa custo médio ponderado do capital, ainda era de 5%.
Dos sete lotes ofertados há nove dias, dois não tiveram nenhum interessado. Um deles, que ligaria Rio Branco a Cruzeiro do Sul, no Acre, com 657 quilômetros de extensão, já não havia recebido propostas na licitação anterior, em dezembro de 2012. Para atrair investidores no leilão da semana passada, a Aneel elevou em 30% o valor do investimento para o lote, o que implicaria receita 26% maior para o vencedor. Sem sucesso.
A falta de interessados nesse lote é motivo de preocupação, admitiu André Pepitone, diretor do órgão regulador. Ele reconhece que os investimentos na Região Norte têm particularidades que afastam o investidor.
"A primeira é o componente ambiental", afirmou. "Como estamos tratando da região da Amazônia, o processo de licenciamento sempre exige cuidado, o que, para o empreendedor, significa maior aporte de recursos, tanto nos estudos quanto nas medidas mitigatórias."
Custos. Para o lote no Acre, as torres de transmissão tiveram a altura elevada de 27 metros para 57 metros, por causa da copa das árvores. Isso demanda, além de mais matéria-prima para as torres, também um gasto maior com cimento e brita para sustentar as estruturas.
Outra questão relevante é a insegurança jurídica que ronda os investimentos na região. Exemplo disso foi visto em maio, quando a Aneel recebeu recomendação do Ministério Público do Amazonas (MPF-AM) para anular o leilão da linha de transmissão entre Manaus e Boa Vista, licitada em 2011.
O motivo é que as linhas passam por terras indígenas, e o MPF-AM avalia que as tribos deveriam ter sido ouvidas previamente. Mas a Aneel decidiu não acatar a recomendação. "A qualquer momento, o empreendedor está sujeito a paralisar uma obra e ter seu licenciamento ambiental questionado na Região Norte. É um risco associado ao investimento", ressaltou Pepitone.
O diretor disse ainda que parte desses investimentos está atrelada ao dólar. O banco de preços da Aneel é atualizado uma vez ao ano, em julho. O último leilão, por exemplo, foi feito antes da correção anual.
Para se ter uma ideia do peso dessa questão, segundo o Banco Central (BC), o dólar fechou em R$ 2,0465 em 12 de julho de 2012. No leilão mais recente, o câmbio fechou a R$ 2,2664. "Isso pode ter contribuído", afirmou Pepitone.
Metodologia da Aneel não prevê variação de taxas
A mudança no cenário macroeconômico nos últimos meses e a adoção de taxas de retorno mais altas nas concessões de ferrovias justificariam uma nova mudança nos termos das licitações de energia, mesmo depois que a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) reduziu a taxa de retorno para investimentos em transmissão no fim de 2012. A avaliação foi feita ao "Estado" por Edvaldo Santana, diretor do órgão regulador. "Vale a pena alterarmos essa taxa de novo? Eu acho que sim", disse o dirigente.
Santana citou como exemplo o fato de que o próprio governo trabalha com taxas de retorno diferenciadas para investimentos em ferrovias. Haverá três taxas: 7,5%, 8% e 8,5%. Para o primeiro lote, entre Açailândia (MA) e Barcarena (PA), a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) escolheu o teto.
A metodologia de cálculo usada pela Aneel não prevê esse tipo de variação. Se a linha de transmissão é feita na Região Sudeste ou na Região Norte, a taxa de retorno é a mesma. "Não somos tão ágeis quanto a ANTT e estamos presos a uma outra metodologia, mas acho que eles foram corretos", afirmou Santana. Para a diretora da consultoria Thymos, Thais Prandini, a taxa mais adequada para investimentos de transmissão de 8%. Na Região Norte, o ideal seria algo entre 8% e 10%.
OESP, 22/07/2013, Economia, p. B6
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