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Jovem indígena sonha em fazer Unicamp para unir sabedoria da enfermagem e cultura de benzimento

G1 https://g1.globo.com/
Autor: Lana Torres e Ananda Porto
30 de nov de 2018

O esforço para organizar as ideias em língua portuguesa torna ainda mais evidente a dimensão do sonho e do desafio que Carlos Roberto Lima Orjuela se propôs. Aos 21 anos, o jovem da etnia Tuyuka deseja fazer faculdade de enfermagem para unir conhecimento acadêmico à cultura de benzimento praticada por lideranças espirituais, e ajudar a comunidade dele em São Gabriel da Cachoeira (AM). O curso é o mais concorrido do 1o vestibular indígena da Unicamp.

Buá, como ele é chamado no idioma nativo, e outros 609 inscritos farão a prova da universidade de Campinas (SP) no próximo domingo (2). Veja, abaixo, o perfil dos inscritos.

"A saúde aqui no município é precária. Quero ajudar nosso povo que sofre por causa dessa saúde", diz o indígena com dificuldade para formular as sentenças na língua de um Brasil, que ele não domina.
Benzer e cuidar
Buá e os jovens da comunidade, localizada em uma vila bem próxima da região central da cidade, realizam semanalmente danças típicas da cultura Tuyuka para tentar manter vivos os costumes do próprio povo.

E é, também, bebendo nos saberes dessa cultura que ele pretende se formar e exercer o ofício na área de saúde.

"A minha visão é que, entre a cultura e a escolha do meu curso, se envolvem as duas coisas: a área de conhecimento e a cultura, que é o benzimento. Também através disso eu poderia praticar tanto a cultura quanto a área de enfermagem", explica.

Buá e os números
Buá representa bem o perfil dos vestibulandos do processo seletivo inédito da Unicamp.

Segundo dados da Comissão Permanente para os Vestibulares da Unicamp (Comvest), a maioria dos inscritos (283) tem entre 21 e 30 anos de idade. A maior parte é do sexo masculino (325). Em relação à escolha do curso, o mais procurado foi o de enfermagem (191). Foram inscritas 62 etnias diferentes. Veja os números:

Sexo

Masculino: 324
Feminino: 286
Idade

16 a 20 anos: 230
21 a 30 anos: 283
31 a 40 anos: 88
41 ou mais: 9
Etnias com mais inscritos

Baré: 112
Tukano: 85
Baniwa: 55
Ticuna: 48
Desana: 37
Tariana: 32
Outras: 241 (divididos entre 56 etnias diferentes)

Escola indígena
Buá concluiu o ensino médio no ano passado e é a primeira vez que ele presta um vestibular. A conclusão desta etapa em uma faixa etária superior a dos jovens brancos reflete as dificuldades enfrentadas pelos indígenas para avançar nos estudos.

Não por acaso, segundo a Comvest, a faixa etária dos vestibulandos indígenas é maior que a dos vestibulandos do processo tradicional.

Em São Gabriel da Cachoeira mesmo, na comunidade conhecida como Ilha das Flores, distante da cidade uma hora de voadeira (barco motorizado) pelo Rio Negro, apenas dois professores são responsáveis pela educação das 20 famílias do entorno em todas as séries do ensino fundamental.

As aulas acontecem em malocas - espécies de cabanas construídas com material semelhante a palha -, em salas de madeira ou em salões improvisados.

"Na área de ciências exatas, eu pego o assunto que pode realizar o mesmo assunto em cada série. Na área de português, faz assim: explica de uma forma igual, mas, nas atividades, diferencia. E assim a gente vai tocando. E é muito pesado", conta a professora Tarcilda da Cruz Lopes.

Tarcilda é da etnia Tukano e leciona diariamente em uma mesma sala para alunos com até 11 anos de diferença de idade.

Segundo entidades representativas do setor de educação e pesquisadores da região, o desafio de Tarcilda na Ilha das Flores não representa uma exceção.

https://g1.globo.com/sp/campinas-regiao/noticia/2018/11/30/jovem-indige…

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