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Investigações da PF mostram fragilidade do meio ambiente

JB, País, p. A4
04 de jun de 2005

Investigações da PF mostram fragilidade do meio ambiente
Quadrilha presa em operação movimentava, só em propinas, R$ 500 mil mensais

HUGO MARQUES

As investigações da Operação Curupira mostram a grande fragilidade do meio ambiente, frente à ação das quadrilhas especializadas em falsificar documentos para desmatar a Amazônia. O esquema desmantelado pela operação contava com a participação de funcionários do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), empresários madeireiros e despachantes especializados na extração e transporte ilegal de madeira. Só em propinas, movimentavam R$ 500 mil mensais.
Em Cuiabá (MT), várias das 431 empresas fantasmas utilizadas para destruir a floresta tinham como endereço o cemitério. As escutas telefônicas e as buscas e apreensões feitas pela Polícia Federal comprovam a existência de uma das maiores quadrilhas do país.
Investigações mostram que em novembro do ano passado, quando um grupo de trabalho começou uma correição no escritório do Ibama em Guarantã do Norte (MT), a unidade do órgão foi ''incendiada'' para que fossem destruídas as provas dos crimes ambientais. O delegado Tardelli Boaventura, que coordenou a operação, diz em seu relatório que a estrutura funcional do Ibama em Mato Grosso ''encontra-se minada, desde o fiscal da rodovia até o gerente executivo''.
Em uma escuta telefônica dos despachantes Wilson Antônio Rossetto e Elvis Cléber Portela - ambos presos por pagamentos de propinas e compra e venda de autorizações para transporte de produtos florestais (ATPF's) - eles conversam sobre um ''kit'' com toda a documentação necessária para a criação de ''empresas fictícias''. Empresas estas para a geração de ATPF's pelo Ibama, para viabilizar a extração de madeira ilegalmente.
No dia 9 de março, o fiscal do Ibama Luiz Duarte prestou depoimento na PF e revelou a existência de corrupção envolvendo diversos servidores do órgão, inclusive o gerente Executivo do Ibama no Mato Grosso, Hugo José Werle, e o chefe de Divisão de Fiscalização, Marcos Pinto Gomes, ambos presos. No depoimento, Luiz revela que o esquema movimentava R$ 500 mil por mês e envolvia a validação de ATPF's falsas e propinas para liberar carregamentos de madeira.
Segundo Tardelli, mais de 90 pessoas já tinham sido presas até o início da tarde de ontem. O delegado afirmou que os policiais federais foram aplaudidos em várias localidades do Mato Grosso, onde ocorreu a ação mais intensa da PF. O Estado é o recordista em desmatamento no país.
A ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, disse esperar uma redução do desmatamento na Amazônia com a prisão da quadrilha que atuava há 14 anos e extraía madeira ilegalmente no Mato Grosso.
- Assim, queremos fazer com que o desmatamento no Mato Grosso, que representa 48% do desmatamento da Amazônia, possa efetivamente cair neste ano - afirmou Marina Silva.
A Operação Curupira, realizada pela Polícia Federal e pelo Ibama, estima que a quadrilha tenha retirado ilegalmente quase 2 milhões de metros cúbicos de madeira, equivalente a 76 mil caminhões cheios.
Revelações de Luiz Duarte em depoimento à polícia
Corrupção
"Trabalhou de junho de 2004 a janeiro de 2005 no Posto de Fiscalização do IBAMA (...) durante este período, tomou conhecimento de prática de crime de corrupção por diversos servidores do IBAMA, dentre eles Hugo José Schauer (gerente-geral do IBAMA/MT), Marcos Pinto Gomes (chefe da Divisão de Fiscalização - DICOF)"
Madeira boliviana
"O funcionário Marcos Pinto, por sua vez, recebia R$ 20.000 por mês, para deixar passar madeira proveniente da Bolívia, com destino a Curitiba; Marcos Pinto chegou a baixar um ato normativo determinando que os Fiscais do IBAMA não apreendessem carregamento de madeira proveniente da Bolívia, sob argumento de que se tratava de material importado acompanhado de documentação da Receita Federal. O esquema engendrado por Hugo, Sonize, Marcos, Camargo, e Ricardo movimentava em torno de R$ 500.000 por mês, envolvendo desde a convalidação de ATPF falsa, até o recebimento de propina para liberar o carregamento de madeira nas rodovias"
Comandante obediente
"O gerente Hugo tem conhecimento e participa de todo o esquema comandado por seu substituto Marcos Ponto Gomes"
Madeira bruta
"A corrupção também acontecia para que os fiscais liberassem madeira no estado bruto, como se fosse 'beneficiada', tudo sob comando do funcionário Marcos Pinto"

Mato Grosso suspende corte de madeira
Bloomberg
O governador do Estado do Mato Grosso, Blairo Maggi, citado por grupos ambientalistas como principal incentivador do desmatamento da Floresta Amazônica, congelou as aprovações de licenças para o corte de madeira e demitiu seu secretário do Meio Ambiente na esteira da investigação sobre o desmatamento ilegal.
Maggi, cuja empresa, o Grupo Maggi, é a maior produtora mundial de soja, disse que proporia uma moratória de três anos no desenvolvimento agrícola no estado.
O apelo do governador segue-se à prisão de 84 pessoas acusadas de exploração ilegal de madeira, entre as quais Moacir Pires, secretário do Meio Ambiente do Mato Grosso. Quase metade dos 26.130 quilômetros quadrados de floresta derrubados na Amazônia nos entre agosto de 2003 e de 2004 situam-se no Mato Grosso, segundo o Ministério do Meio Ambiente.
- Não é coincidência que os poderes político e econômico de Maggi estejam sendo utilizados para aumentar o desmatamento. A atitude dele favorece o desmatamento, a exploração de madeira e as atividades imobiliárias ilegais - explica Claudio Maretti, chefe do programa de áreas protegidas do World Wildlife Fund.
Maggi alegou que sua empresa não realiza novos desmatamentos há mais de 10 anos e que opera legalmente. Disse estar ''surpreso'' com a prisão do mais alto funcionário da Secretaria do Meio Ambiente e quer alterar as políticas de corte de madeira por um consenso entre agricultores e ambientalistas:
- Temos de decidir quais limites queremos adotar para o desenvolvimento da Amazônia. Por pelo menos três anos não emitiremos autorização e realizaremos ampla discussão com a sociedade para determinar exatamente o que queremos - propôs.
A porção brasileira da Floresta Amazônica encolheu 14% nas últimas três décadas, especialmente devido ao desmatamento ilegal, segundo o Ministério do Meio Ambiente. A floresta tropical também encolheu pelo aumento da produção de soja, o produto de exportação que mais cresceu no Brasil nos últimos três anos.
O Greenpeace está entre os grupos ambientalistas que lutam contra um projeto apoiado por Maggi para asfaltar o trecho norte da estrada que cruza a floresta e liga a região produtora de soja do Mato Grosso ao porto de Santarém, no rio Amazonas. No mês passado, o Greenpeace indicou Maggi para seu ''prêmio motosserra de ouro'' ao lado de outros funcionários do governo brasileiro.
- Fico pensando se essa proposta sobre a moratória não é apenas um modo de fugir da responsabilidade que ele tem em toda essa história. Maggi é visto no Brasil e no exterior como o real culpado por trás da crise de desmatamento do Mato Grosso. - disse Paulo Adário, que administra a Campanha da Amazônia do Greenpeace

JB, 04/06/2005, País, p. A4

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