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Índios do Alto Xingu recebem treinamento para votação

Folha do Estado- Cuiabá-MT
09 de set de 2002

Eleitores indígenas do Alto Xingu, receberão treinamento para votação em urnas eletrônicas a partir do dia 15 de setembro. Para chegar a primeira aldeia da região, a dos índios Mehinako, os funcionários do cartório da 57ª Zona Eleitoral, pertencente ao município de Paranatinga, terão que subir o rio Kurisevu, numa viagem que dura cerca de 12 horas.

Os funcionários do cartório sairão de Gaúcha do Norte, oeste do Estado. Depois de treinar os índios Mehinako, seguirão para a aldeia dos Avitis. O terceiro ponto de parada é o posto da Funai Leonardo Vilas Boas, onde foi implantada uma seção eleitoral. Os próximos a receber os treinamentos serão os Kamayurá, seguidos dos Wawra, Kawapalo, Yalowapiti e por fim os Kuiukuro. A equipe permanecerá por um dia em cada ponto de parada, sendo que ao final do percurso, serão percorridos aproximadamente 400 km de barco.

O treinamento será destinado aos 280 índios que optaram por fazer o alistamento eleitoral, uma vez que os indígenas são livres, para escolher se participam ou não, do processo eleitoral.

De acordo com a Constituição, todo cidadão brasileiro tem obrigação ao voto, desde que tenha feito o registro eleitoral. Porém, no caso dos povos indígenas, que vivem segundo seus usos, costumes e tradições, se o povo, coletivamente, decide não votar, essa decisão prevalece sobre a obrigatoriedade da Lei Brasileira, porque os povos indígenas, têm o direito constitucional de viver segundo seus costumes, usos e tradições.

No caso da região do Alto Xingu, de acordo com dados fornecidos pelo Cartório da 57ª Zona Eleitoral, vivem 1.115 índios, divididos em sete etnias. Ou seja, destes, pouco mais de 25% são eleitores.

Um outro ponto divergente do processo, para os não indígenas, é que nas tribos do Alto Xingu, a maioria das mulheres não vota. Elas são excluídas do processo eleitoral devido à cultura indígena que, na maioria das vezes, delega ao homem a tomada de decisões políticas.

Esta não é a primeira vez que esses povos participam de eleição. Em 1998, o cartório começou o processo de regulamentação de documentos, como carteira de Identidade, CPF e registro de nascimento. Após a confecção desses documentos, foi dado início ao processo de alistamento eleitoral.

Nas eleições municipais de 2000, eles participaram do primeiro treinamento, já com urnas eletrônicas. Segundo o escrivão do cartório da 57ª Zona Eleitoral, Olímpio Alves de Menezes, a equipe foi muito bem recebida. "Foi uma recepção muito boa, além disso, eles têm uma capacidade enorme de captar as instruções", considerou o escrivão.

Em todo o Brasil, no pleito de 2000, de acordo com dados do Conselho indigenista Missionário (CIMI), 350 índios se candidataram, sendo que, desses, 13 pleitearam uma vaga para prefeito. O resultado foi a eleição de 80 índios, para ocupar cargos públicos.

Este ano, a região do Alto Xingu conta com um candidato a deputado federal, o já vereador, Amanua Kamayurá (PSDB). Uma das exigências para que os índios entrem na corrida eleitoral, é o conhecimento da língua portuguesa.

Porém, a distância em que se encontram esses povos do Alto Xingu, e o baixo poder de alcance dos meios de comunicação de Mato Grosso, não permitem que eles tenham acesso à propaganda eleitoral gratuita dos candidatos estaduais.

Cada aldeia possui uma televisão, utilizada coletivamente, para assistir exclusivamente ao Jornal Nacional. Além da TV, eles possuem rádios; porém, só conseguem sintonizar a Rádio Nacional de Brasília. Desse modo, as discussões giram em torno dos candidatos a presidente da república, e de alguns candidatos estaduais que visitam a região.

Apesar dos índios estarem, teoricamente, inseridos no processo eleitoral, de acordo com a opinião do escrivão do Cartório da 57ª Zona Eleitoral, eles são esquecidos pela maioria dos políticos. "O índio é um brasileiro por excelência. Porém, são relegados a segundo plano; hoje em dia eles são mais vistos por estrangeiros do que por brasileiros. Tenho a impressão de que os políticos estão cada vez mais longe dos índios", avaliou Olímpio Alves de Menezes.

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