CB, Economia, p.15
18 de Nov de 2005
Impasse ambiental atrapalha Corumbá IV
Prevista para ser inaugurada na próxima semana, hidrelétrica ainda não obteve licença do Ibama para entrar em operação
Fernanda Odilla
Da equipe do Correio
Nos últimos três anos, mais de 170 quilômetros quadrados do cerrado goiano foram transformados em mar, com a promessa de assegurar água potável para 30 milhões de pessoas nos próximos 30 anos e energia elétrica suficiente para afastar a ameaça de apagão em pontos estratégicos do Distrito Federal. A investida dos governos do DF e de Goiás com a iniciativa privada, batizada Corumbá IV, custou R$ 600 milhões e já está com a data de inauguração marcada. Até o presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi convidado para participar da festa no dia 26 de novembro. A hidrelétrica Corumbá IV, no entanto, está impedida de ligar as turbinas. O empreendimento milionário ainda não conseguiu a licença de operação do Ibama e é, desde 2002, alvo de um volumoso processo na Justiça Federal em Goiás, no qual se discute danos ambientais provocados pelo empreendimento. Hoje, a procuradora federal no DF responsável pelo processo, Ana Paula Mantovani, concederá coletiva para prestar esclarecimentos sobre o andamento das pendências. A usina enfrenta ainda questionamentos de alguns ambientalistas. Eles não acreditam que a inauguração da usina será solução definitiva para os problemas de abastecimento de água e luz para o Distrito Federal e o Entorno. As previsões são, de fato, pessimistas. Até 2008, o Brasil corre risco de sofrer mais um racionamento de energia porque as obras de 33 das 42 hidrelétricas estão atrasadas, a maioria por pendências com órgãos ambientais como a de Corumbá, segundo a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel). O problema para a Corumbá Concessões é que 99% do empreendimento estão prontos. As duas turbinas responsáveis pela geração de energia já foram testadas. O fornecimento de energia tem de começar até 30 de dezembro, conforme compromisso firmado com a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel). Para tanto, o reservatório precisa subir até a cota operacional de 837 metros faltam apenas dois , mas as comportas não podem ser fechadas sem a licença de operação. Enquanto isso, a água do Rio Corumbá corre pelo vertedouro. Precisaríamos acumular o excedente de água para gerar energia durante o período da seca. Senão corremos o risco não operarmos na capacidade total, afirma o presidente da Corumbá Concessões, Manuel Faustino. Além de mais um apagão, o Distrito Federal e cidades de Goiás podem também sofrer com a falta d`água. A água tem sumido do DF e a demanda, por sua vez, só aumenta. Para piorar, o plano de recursos hídricos é deficitário e se pensa apenas em soluções imediatistas, afirma Donizete Tokarski, engenheiro agrônomo e presidente da ONG EcoData. Em 1986 ele foi chamado de louco ao prever o racionamento de água em 2000. Entre os piores Hoje, as previsões de Donizete são reforçadas pelos números do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e da Agência Reguladora de Águas e Saneamento do DF (Adasa). O DF é o terceiro colocado no ranking dos piores estados quando o assunto é disponibilidade hídrica por metro cúbico por habitante/ano. Perde apenas para Pernambuco e Paraíba, de acordo com o IBGE. Os governos do Distrito Federal e de Goiás descartam o caos. O presidente da Companhia de Saneamento Ambiental do DF (Caesb), Fernando Leite, está convencido de que a ameaça existe, mas acha há tempo suficiente para evitá-la. Ele explica que o GDF encomendou uma atualização do Plano Diretor, concluído em 2000 e que apontava para os próximos dois anos o ponto crítico do abastecimento da cidade, quando consumo e produção atingiriam o mesmo nível. O crescimento econômico e populacional explosivo, principalmente no Entorno, nos obrigou a rever o plano. O novo levantamento é necessário também para elaborar o sistema de abastecimento em Corumbá IV, observa Leite, já calculando em R$ 350 milhões o investimento inicial da Caesb no projeto.
Terrenos valorizados
Debaixo dágua está a casa que, por 47 anos, guardou a história da vida da aposentada Osana Lemos e de seus nove filhos. Osana e o filho Agnaldo não reclamam da casa e do terreno que ganharam de indenização, apenas lamentam que as bananeiras e as mangueiras também foram deixadas para trás, para dar lugar ao imenso lago azul. Cornélio Silva e a mulher Delci, por sua vez, só têm olhos para a nova casa, erguida e mobiliada com o dinheiro da indenização. O que as duas famílias não sabem é que hoje ocupam uma das áreas que mais se valorizaram em Goiás.
No lago e em seus arredores, um alqueire goiano de terra (4,8 hectares) vale hoje 12 vezes mais que há cinco anos. Antes de Corumbá IV, um alqueire valia R$ 8 mil, hoje tem gente pedindo R$ 100 mil, conta Carlos Alberto Rodrigues, o engenheiro que negociou com as famílias as indenizações de 623 áreas. A expectativa é que a especulação imobiliária se intensifique, principalmente quando a área tiver autorização para ser usada para o lazer.
Por enquanto, é proibido pescar na represa. Também não se pode construir pousadas nem bares e restaurantes. Áreas de lazer é responsabilidade das prefeituras, que precisam se organizar, apresentar projeto e ganhar a aprovação do Ibama para explorar o turismo, observa Brasil Pinotti, consultor geral da obra. Até agora nenhuma das seis cidades goianas Abadiânia, Luziânia, Alexânia, Santo Antônio do Descoberto, Silvânia e Corumbá de Goiás apresentaram seus planos diretores para explorar o turismo nos arredores da represa. Para evitar desequilíbrio, uma equipe de biólogos e veterinários percorrem o lago diariamente em busca de répteis, mamíferos e aves perdidos. Mais de 25 mil animais já foram resgatados. Até mesmo um jaú de 80kg foi resgatado dentro do túnel de desvio, em janeiro de 2005, durante seu fechamento. Os funcionários da Corumbá IV garantem que não é história de pescador. (FO)
CB, 18/11/2005, p. 15
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