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Governo quer desmembrar projeto de reforma do código da mineração

Valor Econômico, Brasil, p. A2
05 de Ago de 2016

Governo quer desmembrar projeto de reforma do código da mineração

Daniel Rittner

A reforma do código de mineração deve ser fatiada em três projetos de lei independentes, caso o presidente interino Michel Temer seja confirmado no cargo. Andando de lado no Congresso Nacional desde meados de 2013, quando foi enviado pela presidente afastada Dilma Rousseff, o texto que atualiza o marco regulatório do setor nunca teve respaldo suficiente dos parlamentares - e muito menos da indústria mineral - para avançar.
O novo comando do Ministério de Minas e Energia pretende tirar esse assunto da letargia absoluta. Ainda não há uma fórmula pronta sobre como fazer isso, mas a tendência é dividir a atual proposta logo após a votação definitiva do impeachment. A ideia é levar adiante os pontos nos quais existe maior convergência.
Três assuntos correm paralelamente no projeto de lei que ficou parado na Câmara: o aumento dos royalties cobrados na exploração das jazidas, a transformação do Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM) em agência reguladora e a modernização das regras em si. O código atual está em vigor desde 1967.
Na avaliação do ministério, em caso de desmembramento do projeto a maior chance de avanço está na alta da Compensação Financeira sobre a Exploração Mineral (Cfem). Quando a proposta foi redigida, o minério de ferro estava em sua máxima histórica e havia cobiça das autoridades em elevar a arrecadação com os royalties. Os municípios ficam com 65% do recolhimento.
Um das razões para a freada na tramitação do projeto foi o tombo nas cotações das commodities metálicas. O ministro de Minas e Energia, Fernando Coelho Filho, vê, no entanto, uma janela para sair do imobilismo, possivelmente com base em mudanças preparadas pelo antigo relator do projeto de lei, deputado Leonardo Quintão (PMDB-MG).
Hoje, as mineradoras pagam 2% da receita líquida com a exploração do ferro. Quintão havia proposto a taxação por um sistema de bandas flexíveis. Ele sugeriu 1% sobre o faturamento bruto quando a tonelada do minério ficar abaixo de US$ 60. Subiria para 2% quando estiver entre US$ 60 e US$ 80, para 3% entre US$ 80 a US$ 100, e chegando a 4% quando ultrapassar US$ 100.
Para o governo Temer, essa proposta pode contornar a resistência das empresas em pagar mais. Em uma lista de países com atividades minerais, como Austrália e Canadá, o Brasil desponta como o que tem as alíquotas mais baixas de royalties.
Logo em seguida, na lista de prioridades, está a criação da Agência Nacional de Mineração para substituir o DNPM. Sucateado e com forte aparelhamento político, a autarquia é alvo de críticas das próprias empresas. Há dificuldade, no entanto, em discutir com os deputados e senadores sua transformação em um órgão regulador mais profissionalizado com mandatos fixos para a diretoria. Isso impediria lideranças políticas em Estados com produção mais pujante, como Minas Gerais e Pará, de indicar apadrinhados. Espera-se alguma resistência para votar esse projeto.
O último ponto do "tripé" encaminhado por Dilma, em 2013, eram as mudanças das regras em si. Havia uma proposta de licença única para o setor. Hoje, as atividades são divididas entre pesquisa e a exploração mineral propriamente dita. O direito de prioridade sobre a extração e venda das commodities pertence a quem iniciou o processo de pesquisa. Na visão do governo anterior, isso é o que fomenta a especulação em torno das jazidas.
O esquema de licitações públicas para áreas pesquisadas pelo governo nunca foi bem digerida pela iniciativa privada. Investidores apontavam o risco de interrupção na abertura de novas frentes de pesquisa. Longe de um consenso, a proposta travou na Câmara. O ministro Coelho Filho já havia dito, em entrevista publicada pelo Valor em maio, que gostaria de ter um código com "menos interferência".
Para o ministério, sem mexer nessas regras haveria mais chance de aprovar a alta dos royalties e, possivelmente, também a criação da agência reguladora para o setor. O desenho final deverá ser feito provavelmente em setembro.

Valor Econômico, 05/08/2016, Brasil, p. A2

http://www.valor.com.br/brasil/4659905/governo-quer-desmembrar-projeto-…

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