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Gargalos da gigante na crise

O Globo, Economia, p. 23
05 de Jan de 2012

Gargalos da gigante na crise
Vale enfrenta problemas como demora de licenças e esperada queda de preços de minério

Danielle Nogueira
danielle.nogueira@oglobo.com.br

Retomadas as boas relações com o Palácio do Planalto e findas as desconfianças do mercado com a troca de comando, a Vale tem uma longa lista de desafios pela frente. Em 2012, a empresa terá de superar gargalos, como a dificuldade na obtenção de licenças ambientais e a demora na entrega de equipamentos, para executar o orçamento de US$ 21,4 bilhões. Paralelamente, terá de demonstrar habilidade para negociar com os clientes, que a pressionam para pagar menos por seu minério de ferro, num cenário de volatilidade de preços em meio ao agravamento da crise financeira global. E ainda terá de rever sua estratégia logística, a fim de driblar a resistência chinesa a seus supernavios.
A duração média de implementação dos projetos revela a complexidade dos gargalos com que a Vale tem se deparado. O tempo para que um projeto de cobre saia do papel, por exemplo, é de 47 a 63 meses, contra 24 a 50 meses na média da indústria. Os de minério de ferro - carro-chefe dos negócios da mineradora - estão em melhor situação, com médias até inferiores às das concorrentes. Mesmo assim, a companhia se viu obrigada a postergar em dois anos uma de suas principais iniciativas na área: Carajás Serra Sul (PA), mina que terá capacidade de produzir 90 milhões de toneladas de minério por ano a partir de 2016. O volume é quase um terço da produção de minério esperada para 2012 (312,2 milhões de toneladas).
O principal entrave à execução dos projetos tem sido a demora na liberação das licenças ambientais. Mas este não é o único problema. A lentidão na entrega de equipamentos é outro obstáculo. As encomendas de locomotivas, que antes batiam à porta da Vale em 12 meses, hoje levam 18. Resultado da elevada demanda da indústria de mineração.
- Esses são riscos que todo o setor está enfrentando - atesta Victor Penna, analista de mineração do BB Investimentos.
Falta de engenheiro e China na mira
Para superar os gargalos, a Vale tem adotado uma série de medidas. Criou um comitê executivo para agilizar as demandas por licenciamento, que tem se reunido uma vez por semana para debater os projetos. O presidente da mineradora, Murilo Ferreira, também tem buscado estreitar a relação com a cadeia produtiva e já ordenou a antecipação das compras de materiais sempre que possível, para evitar surpresas na entrega de equipamentos.
As ações se estendem a programas de formação de mão de obra, cuja escassez também se tornou uma dor de cabeça para a companhia. Mês passado, Vale e CNPq firmaram parceria para duplicar o número de bolsas de iniciação científica e tecnológica em engenharia no país. A empresa também já tem à mão um mapeamento de sua demanda de contratações para este ano: 600 engenheiros e 1.500 técnicos.
O esforço para colocar novos projetos em prática - ontem a mineradora anunciou que pretende emitir bônus de dez anos para atingir metas corporativas - se fundamenta na aposta da Vale de manutenção do apetite chinês por seu minério de ferro, mesmo em tempos de crise. Ironicamente, a China é também uma pedra no sapato da mineradora. Vem de lá a forte pressão para que a empresa reduza os preços do minério.
- O preço do minério é o principal desafio da Vale para 2012, pois é o que afetará seu resultado - avalia Leonardo Zanfelício, da Concórdia.
Com base em dados do Banco Mundial, o analista estima a média anual do preço do minério de ferro em US$ 150 a tonelada em 2012, 14% menos que a média de US$ 175 de 2011.
Em outra frente, a Vale protagoniza um duelo com o gigante asiático. A empresa fez uma encomenda bilionária de 35 supernavios, para reduzir o frete para a China e, assim, tornar-se mais competitiva em relação às concorrentes australianas. Até agora, porém, apenas uma embarcação conseguiu aportar no litoral chinês, devido à pressão contrária dos donos de navios locais. O recente incidente no litoral do Maranhão com o Vale Beijing, um dos supernavios, só tem alimentado o discurso dos empresários chineses.

O Globo, 05/01/2012, Economia, p. 23

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