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Forrest Lula e a floresta tropical

FSP, Opinião, p. A2
Autor: ANGELO, Claudio
28 de dez de 2005

Forrest Lula e a floresta tropical

Claudio Angelo

No que diz respeito ao futuro da Amazônia em 2006, o governo Lula oscila entre dois personagens de ficção: Forrest Gump e Charlie Brown. O primeiro é o herói atrapalhado vivido por Tom Hanks no cinema, para quem as coisas dão certo apesar dele próprio. O segundo é a criação do cartunista Schultz, que, num episódio clássico, começa uma corrida em último e assume a liderança de uma maneira inacreditável -só para pôr tudo a perder no final.
A taxa de desmatamento de 2006 dirá qual é a melhor analogia. Em 2005, o governo tem sido um Charlie Brown no meio da prova: conseguiu reduzir o crescimento da devastação em 30,5%. Ações policiais como o combate à grilagem no Pará, a criação de unidades de conservação em áreas de conflito e a Operação Curupira foram os grandes responsáveis pelo "sprint".
Segundo uma avaliação preliminar do Imazon (Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia), as ações de comando e controle tiveram mais peso que a crise no agronegócio na incrível redução de 95% no desmatamento em junho em Mato Grosso, campeão de boi, soja e devastação.
Para 2006 o cenário é outro. Esgotada a cartada das ações espasmódicas de comando e controle, o governo terá de contar com o fator Forrest Gump: esperar que a crise que continua a assombrar o setor agropecuário se reflita de maneira importante nas taxas de desmatamento do ano que vem, o que é esperado. É o necessário para manter a perda da maior floresta tropical do mundo abaixo do imoral patamar de 22 mil quilômetros quadrados por ano, média do último qüinqüênio.
Isso porque as chamadas "ações estruturantes" do governo, que dariam sustentabilidade ao desenvolvimento local, estão caminhando a passos de tracajá -e com a ministra Marina Silva carregando o casco sozinha.
Um exemplo é o Plano de Prevenção e Controle do Desmatamento, que em tese envolve 13 ministérios, sob coordenação da Casa Civil. A prioridade dada pela mesma Casa Civil ao plano é tão baixa que a ministra Dilma Rousseff não se dignou nem a comparecer à sua última reunião de avaliação, em meados deste mês, o que fez as ONGs presentes abandonarem o encontro.
Obras de infra-estrutura, como o complexo hidrelétrico do Madeira e a pavimentação da BR-319 (rodovia Manaus-Porto Velho), que em ano eleitoral sempre são aceleradas, também devem entrar no caminho da floresta em 2006. A primeira é menina dos olhos de Dilma, que quer vê-la pronta a qualquer custo. A última é questão de honra para o ministro dos Transportes, o amazonense Alfredo do Nascimento (PL), possível candidato ao governo do Estado no ano que vem. O eixo da 319 é uma das novas frentes da grilagem de terras.
Por fim, aquilo que seria o grande legado de Lula para a Amazônia, o Projeto de Lei de Gestão de Florestas Públicas, foi derrotado no Senado no tempo regulamentar e seu destino depende agora da convocação extraordinária. Se não passar, o governo veste a fantasia de Charlie Brown: não poderá implementar em 2006 suas políticas para o setor florestal, com o resultado previsível de bloqueios de estrada e incêndios de escritórios do Ibama pelos madeireiros, que não silenciarão suas motosserras em condescendência.

FSP, 28/12/2005, Opinião, p A2

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