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Espécies raras estão em área sob ameaça de desmatamento na Amazônia

O Globo, Sociedade, p. 37
Autor: Ana Lucia Azevedo
10 de mar de 2019

Espécies raras estão em área sob ameaça de desmatamento na Amazônia
Cientistas mostram, no entanto, que floresta ainda é pouco conhecida e abriga imensa riqueza

Ana Lucia Azevedo

RIO - Sob a pressão do barulho de motosserras que derrubavam cedros e ipês nas vizinhanças, pesquisadores registraram em Rondônia uma diversidade de animais que faz justiça à posição da Amazônia como a mais rica floresta da Terra. Rondônia é o terceiro estado que mais desmata no país. Ainda assim, numa expedição de apenas 12 dias foi possível registrar uma nova espécie de anfíbio, flagrar macacos poucas vezes observados, algumas das mais belas aves do país e ainda um boto-cor-de-rosa misterioso. Um mundo longe da civilização e logo ao lado de uma das maiores frentes de desmatamento do Brasil.

A satisfação dos cientistas com as descobertas só não supera o temor de que tudo isso desapareça à medida que o abate da floresta avança. O grupo de pesquisadores integrado pelo biólogo Lucas Gonçalves, da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE) e especialista em grandes carnívoros do Brasil, encontrou nas bordas do desmatamento uma biodiversidade acima da expectativa. O objetivo era documentar os animais, principalmente os mamíferos, da Estação Ecológica de Samuel.

Com cerca de 71 mil hectares de floresta, ela fica às margens do Rio Jamari, na região do Alto Madeira. É uma área preservada, mas colada ao Arco do Desmatamento. Apenas 50 quilômetros a separam da povoação mais próxima e o rio é a estrada possível. Nessas águas vive o boto-cor-de-rosa-do-sul-da-Amazônia, poucas vezes registrado.

Além do boto, também existe por lá uma população de antas, o maior mamífero terrestre do Brasil, que sustentam as onças-pintadas, o maior felino das Américas. A mata também é o habitat de uma espécie de macaco quase desconhecida, o mico-rondon , ameaçado de extinção.

O céu da região é domínio de araras e do gavião-belo. Os pesquisadores registraram ainda uma espécie não descrita pela ciência de um anfíbio do gênero Scinax . Muitas descobertas ainda podem aparecer, já que a equipe deixou instalada uma série de armadilhas fotográficas, que continuaram a coletar dados.

Há, no entanto, ameaças consideráveis, como a ação de madeireiras ilegais e a caça. Os pesquisadores viram, mais de uma vez, acampamentos de caçadores dentro da unidade de conservação:

- Esse tipo de crime alimenta o tráfico internacional de animal silvestres. São bandidos fortemente armados - frisa Lucas Gonçalves.

Falta de comunicação
A expedição integrou dois projetos de pesquisa: um sobre o levantamento de mamíferos amazônicos, conduzido pela Universidade da Califórnia em Davis. Outro, um estudo de biogeografia de mamíferos da América do Sul, coordenado pela UFRPE.

A área explorada foi escolhida porque combina elevada biodiversidade a desmatamento acelerado. Entre as muitas dificuldades encontradas no caminho está a falta de comunicação.

- Ficamos mais de dez dias em campo sem sinal de telefone, internet ou qualquer tipo de comunicação convencional. Tínhamos apenas um telefone via satélite para pedido de socorro em caso de emergência extrema - assinala Gonçalves. - A ciência mal conhece a riqueza da Amazônia. Por isso, é importante fiscalizá-la e combater o desmatamento e a caça.

O Globo, 10/03/2019, Sociedade, p. 37

https://oglobo.globo.com/sociedade/especies-raras-estao-em-area-sob-ame…

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