O Globo, Opiniao, p.6
11 de Abr de 2004
DOGMAS
Uma tendência que poderíamos chamar de fundamentalismo ambientalista passou a constituir um grave empecilho à pesquisa científica, à continuidade da notável trajetória de sucesso da agricultura brasileira e ao próprio desenvolvimento econômico do país.
A premissa a partir da qual se estrutura esse pensamento é perfeitamente lógica: o meio ambiente está sob risco no Brasil, e grandes obras (como a construção de usinas hidrelétricas e estradas), assim como novas tecnologias, como a modificação genética de determinadas lavouras, podem ter efeitos danosos que é preciso evitar.
Mas esse tipo de raciocínio deveria conduzir à adoção da maior cautela e de exames criteriosos para o licenciamento ambiental de projetos, assim como de estímulo à pesquisa científica para avaliação precisa dos efeitos que podem ter produtos novos como os transgênicos. Em lugar disso, o que se registra é um esforço para impedir o avanço da ciência e da tecnologia nacionais e a criação de toda sorte de obstáculos burocráticos à concessão de licenças para projetos de engenharia da maior importância.
Na agricultura, a ameaça criada é dupla: de um lado tenta-se evitar, por meio de uma legislação restritiva, que o Brasil acompanhe a evolução tecnológica que avança a passos largos em outros países; enquanto o órgão que até aqui foi o principal motor do progresso brasileiro nessa área, a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), passou a sofrer, desde o ano passado, tamanho cerceamento em sua pesquisa, devido à interferência ideológica, que já reduziu drasticamente seu ritmo de trabalho científico.
Ninguém pode defender o desenvolvimento a todo custo, com o mais completo descaso pelas questões ambientais. Mas é preciso buscar um sensato meio-termo e, sobretudo, evitar o tratamento ideológico de temas que são de natureza técnica e científica. Caso contrário, essa visão tende a resvalar para um dogmatismo extremamente danoso. Hoje, na realidade, isso já deixou de ser uma ameaça para se tornar um obstáculo real, que o país precisa derrubar para não perder o rumo do progresso.
O Globo, 11/04/2004, p.6
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