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Deixa subir!

O Globo, Opinião, p. 19
Autor: AZEVEDO, Tasso
22 de Fev de 2017

Deixa subir!
Criança que sobe em árvore vai lutar para proteger a flora

Tasso Azevedo é engenheiro florestal

Em um domingo ensolarado no início de janeiro, acordei cedo para levar minha filha Clara a um piquenique na praça em São Paulo para comemorar o aniversário de 7 anos de sua melhor amiga. Na Praça do Jardim das Perdizes, inaugurada meses antes, os pais da aniversariante colocaram uma pequena mesa embaixo de uma árvore com comes e bebes e penduraram alguns balões nos galhos ao redor.
Tudo ia perfeitamente bem, até que um veículo da Guarda Municipal entra na praça, estaciona ao lado da árvore, e dois guardas descem e solicitam o documento de autorização do piquenique. Diante da perplexidade dos adultos e da curiosidade das crianças, anunciam que a festa deveria ser encerrada imediatamente:
- Além do mais, senhores, é proibido pendurar qualquer objeto ou subir nas árvores nos parques e nas praças da cidade! - emendou o guarda.
Apesar de toda a cena ser absurda, o que me chamou mais atenção foi a proibição de subir em árvores, e aproveitei para entender a razão da arbitrariedade. Logo escutei: - É para segurança dos seus filhos e para preservar as árvores. Assim, eles aprendem a não correr perigo e cuidar da natureza.
Mas será que há esta proibição mesmo? Pois é, tá lá um decreto municipal de 1989 que diz que é proibido subir ou escrever em arvores e correr no gramado(!!). Deve ser só em São Paulo - cidade mais carrancuda - pensei eu, mas não: em Belo Horizonte uma portaria de 2013 veda "subir em árvores ou nelas amarrar redes".
Num jardim botânico, até vale o argumento de proteção dos espécimes muitas vezes únicos. Mas, em geral, que mal pode ter uma criança subir numa árvore? É a criança que sobe em árvore, brinca com formiga, corre atrás de passarinho e coleciona flores e folhas que vai lutar para proteger a fauna e flora quando crescer. Esta ligação motora e emotiva é fundamental para conectar-nos com a natureza.
Famílias que escolhem levar para praças e parques a confraternização e brincadeira da garotada, em vez de se enfurnarem num shopping, têm que ser aplaudidas e incentivadas, e não constrangidas.
Uma ótima iniciativa em curso, por enquanto no Rio e São Paulo, é o programa Criança e Natureza, iniciativa do Instituto Alana que disponibiliza uma séria de ferramentas e dicas para incentivar as famílias, escolas e as cidades a proporcionarem o convívio da criança com a natureza.
Que o programa contamine os gestores municipais e quem sabe, logo logo, haja uma plaquinha nas árvores dizendo "Vem brincar comigo".
Ah, na festinha do Jardim das Perdizes, enquanto os adultos e guardas discutiam, as crianças voltaram a brincar, correndo curiosos atrás de um punhado de gafanhotos que passou por lá (xi... caçar também não pode!!).

O Globo, 22/02/2017, Opinião, p. 19

http://oglobo.globo.com/opiniao/deixa-subir-20961339

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