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A cocaína no limite

Veja, Drogas, p. 116-118
29 de ago de 2012

A cocaína no limite
As plantações de coca na Amazônia peruana, na fronteira com o Brasil, ameaçam transbordar para o lado de cá, com a ajuda das novas mulas do tráfico: os índios

KALLEO COURA, DO PERU

A histórica incapacidade do Brasil de controlar o que atravessa suas fronteiras transformou o país em um entreposto seguro para a cocaína que, produzida em áreas distantes dos países vizinhos, ruma para os lucrativos mercados da Europa e dos Estados Unidos. Nos últimos anos, no entanto, o mal se avizinhou e as plantações de coca já estão, literalmente, à nossa porta. Na Amazônia peruana, a floresta vem sendo derrubada em ritmo alarmante para dar lugar ao cultivo da planta, hoje solidamente estabelecido a alguns metros da fronteira.
Nos últimos cinco anos, as franjas do território brasileiro abrigaram mais de 3 000 hectares de coca, segundo dados oficiais da ONU. A policia considera o número subestimado e avalia que a área possa ser o triplo, o suficiente para produzir 100 toneladas de pasta-base da droga por ano. O plantio de coca na região praticamente dobrou de tamanho de 2009 para 2010. Essa praga do jardim do vizinho ameaça agora se alastrar pelo Brasil. A Polícia Federal investiga a existência de pelo menos uma plantação de coca em uma aldeia indígena em solo brasileiro. "Temos a preocupação de que essa plantação se espalhe pelo território nacional. Fazemos sobrevoes constantes na região e checamos as imagens de radar para monitorar isso. Já encontramos pés de coca, mas não plantações significativas ainda. Além disso, para controlar o crescimento no Peru, temos o objetivo de fazer quatro operações conjuntas por ano", diz Sergio Fontes, superintendente da PF no Amazonas.
Os índios ticunas que vivem no Peru são os principais responsáveis pela expansão do cultivo de coca na Amazônia. O fato de ele se dar em plena selva é algo que surpreendeu os especialistas. "Não sabemos ao certo que técnicas foram utilizadas para que a planta vingasse numa região como essa, de baixa altitude", diz o dinamarquês Bo Mathiasen, representante regional da Unodc, a agência da ONU para drogas e crime, para o Brasil e o Cone Sul. A reportagem de VEJA visitou uma dessas comunidades indígenas onde a droga é plantada, na aldeia de Cushillococha, no Peru, próximo ao Rio Solimões. A justificativa dos ticunas para explicar sua adesão ao negócio criminoso chega a ser simplória. "Não há mercado para a farinha de mandioca nem para a banana, que sempre plantamos aqui. Já para a droga não faltam compradores. Além disso, não recebemos Bolsa Família como no Brasil. Se não estivéssemos plantando, outras pessoas o fariam", afirma o ticuna Joel Coelho Garrero, prefeito da comunidade. A relação entre índios e traficantes extrapola a de produtor e comprador. Em muitos casos, é de cumplicidade. Um morador da região admitiu à reportagem que sua aldeia já abrigou traficantes que lá se refugiaram para escapar de uma operação da polícia peruana.
As consequências da expansão das plantações de coca na fronteira, e o aumento da produção que adentra o território brasileiro, já podem ser medidas em números. Para escoarem a pasta-base, os traficantes utilizam os mais de 25 000 quilômetros de rios navegáveis por grandes embarcações na Bacia Amazônica. Em torno deles, estão cidades em que a presença do poder público e da força da lei é quase sempre tímida. O resultado é que, em muitas delas, a criminalidade explodiu. Em Tabatinga, no extremo oeste do Amazonas e na tríplice fronteira entre Peru, Colômbia e Brasil, o número de assassinatos chegou a 32 nos primeiros oito meses de 2012, ante dezessete em todo o ano de 2010.
As implicações nefastas do narcotráfico também chegaram às tribos indígenas brasileiras. "Um dos maiores problemas aqui na nossa aldeia é o recrutamento para o tráfico de drogas", diz o cacique Valdir Mendes, da comunidade indígena Umariaçu I. Ele conta que há um intenso movimento de ticunas peruanos e colombianos ligados ao crime que vêm para as aldeias brasileiras com o objetivo de aliciar os indígenas daqui. Como os índios conhecem os rios da Amazônia como ninguém, acabam se transformando em mão de obra qualificada para o trabalho de transporte da droga - as infames mulas. O ticuna Raul Curico aceitou trabalhar para os traficantes. Foi preso em flagrante com 2,4 quilos de pasta-base em plena terra indígena. "Enquanto um pai de família na aldeia não ganha mais que 600 reais por mês, quem trabalha para o tráfico chega a receber 1000 reais por quilo de pasta-base transportado até Manaus", diz. "O problema é que muitas vezes a pessoa faz o serviço e volta de mãos abanando. Que índio vai reclamar com traficante armado de fuzil?"; pergunta. Devido à ausência de policiamento, alguns criminosos acabam se instalando dentro das próprias aldeias ou convencem algum indígena a se tornar dono de uma pequena boca para abastecer o consumo local. "Há um crescente envolvimento dos índios com o narcotráfico. Só a Funai e o Ministério Público Federal não querem enxergar isso", afirma um delegado federal.
A porosidade das fronteiras brasileiras é uma questão que sucessivos governos prometeram tratar como prioridade. A ameaça de uma invasão maciça do território pelas plantações de coca comprova agora que tudo não passou de promessa.

Veja, 29/08/2012, Drogas, p. 116-118

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