OESP, Economia, p. B8
20 de Jun de 2010
Capital do gado vira potência industrial
Três Lagoas, em Mato Grosso do Sul, já teve o maior rebanho do Brasil, mas nos últimos cinco anos recebeu R$ 14,5 bilhões em investimentos industriais, incluindo algumas das maiores fábricas de papel e celulose do mundo
Chico Siqueira
A pequena Três Lagoas, em Mato Grosso do Sul, ganhou fama nacional por ter o maior rebanho de gado de corte do País. Nos últimos tempos, porém, os bois e as fazendas começaram a ceder espaço para as indústrias. E elas vieram em ritmo alucinante. Em cinco anos, a cidade, de 87 mil habitantes, localizada na divisa com São Paulo, recebeu 40 indústrias, com investimentos de R$ 14,5 bilhões. Para os próximos três anos, a previsão é de mais R$ 9,5 bilhões em novas fábricas.
Com o início das obras, na semana passada, da maior fabrica de celulose de fibra curta do mundo, a Eldorado do Brasil, a antiga capital do gado ganhou novo apelido. Agora, ela quer ser conhecida como o maior polo de celulose do mundo. Não é exagero. A fábrica da Eldorado, de R$ 4,8 bilhões, vai produzir 1,5 milhão de toneladas por ano e gerar 8 mil empregos na obra e outros 3 mil quando entrar em operação em 2012.
A intenção é superar a concorrente Fibria, que possui uma unidade em Três Lagoas, hoje a maior do mundo, produzindo 1,2 milhão de toneladas de celulose. É também em Três Lagoas que está a maior fábrica de papel da International Paper (IP) fora dos Estados Unidos.
Incentivos fiscais. Essas empresas não são atraídas somente pelas grandes florestas de eucaliptos, a matéria-prima da celulose, que hoje ocupam o lugar dos pastos e do gado na região - há cinco anos havia 2,5 milhões de cabeças, hoje são 800 mil. Os incentivos fiscais contam muito.
Para receber os investimentos, o Estado concede aos investidores descontos de até 90% do ICMS por até 15 anos, enquanto o município doa área e isenta o Imposto Sobre Serviços (ISS) durante a construção. O município também isenta o IPTU por cinco anos, mas obriga as empresas a manter dois terços de sua mão de obra de trabalhadores locais.
"Os incentivos fiscais foram um dos três pontos mais importantes que influenciaram nossa escolha para sediar a fábrica", diz o diretor financeiro da Eldorado, Carlos Rosa. Segundo Rosa, embora a Eldorado não vá se beneficiar de descontos com ICMS, pois toda produção será exportada, e do IPTU, porque a empresa está instalada na zona rural, a isenção de pagamento do Imposto Sobre Serviços (ISS) foi importante no processo de escolha. "Essa isenção atende a toda a cadeia de fornecedores e reduz custos do empreendimento", disse Rosa.
Petrobrás. A localização, a oferta de energia e a estrutura logística também são outros fatores que influenciam os investidores. Por isso, não é só o setor de papel e celulose que é atraído. A Petrobrás investe US$ 2,1 bilhões na construção de uma das maiores fábricas de fertilizantes do mundo.
"A localização do município, próximo ao gasoduto e com acesso à malha de distribuição de gás de várias origens, nos deu segurança para instalar essa fábrica em Três Lagoas", diz a diretora de Gás e Energia, Graça Silva Foster. "Sem essa localização, o projeto seria inviabilizado."
A fábrica vai produzir 1,2 milhão de toneladas por ano de ureia e 81 mil de toneladas por ano de amônia e gerar 8,5 mil empregos na obra e outros 500 quando entrar em operação, em 2014.
Votorantim e Grendene. Antes da Petrobrás, em julho próximo, têm início as obras de construção da Sitrel, união entre a Votorantim Siderurgia com o grupo Grendene, num investimento de R$ 800 milhões. A expectativa é produzir 550 mil toneladas por ano de aço numa primeira etapa, para dobrar a produção até 2015. A previsão é gerar 7 mil postos de trabalho no canteiro de obras e outros 3 mil durante a primeira fase de operação.
Além dessas, outras empresas menores, de pequeno e médio portes, dos setores de metalurgia, elétrico e têxtil, também se instalaram ou estão se instalando no parque industrial do município.
"A política fiscal é importante, mas nosso município tem a logística e a oferta de energia como principais atrativos. Aqui, temos uma usina hidrelétrica (Jupiá), uma termelétrica a gás e o gasoduto Brasil-Bolívia, que fornecem energia à vontade para as empresas. Além disso, temos boas estradas, uma extensa malha ferroviária e hidrovia", diz a prefeita de Três Lagoas, Márcia Moura (PMDB).
Licença ambiental. No entanto, para a prefeita, o que tem mais influenciado os empreendedores é a rapidez nas liberações das licenças ambientais. "Aqui nós não perdemos tempo, o município tem parceria com os governos federal e estadual e apressa a liberação de documentos."
Essa rapidez, segundo Carlos Rosa, foi decisiva para que a Eldorado se instalasse em Três Lagoas. "Tínhamos outros duas áreas em municípios próximos, mas a liberação ambiental rápida nos fez escolher Três Lagoas", revelou.
OESP, 20/06/2010, Economia, p. B8
http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20100620/not_imp569214,0.php
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