OESP, Economia, p. B8
07 de Set de 2008
Cana ocupa 70% da área plantada de SP e governo barra expansão
No dia 18 entram em vigor regras mais rigorosas para a liberação de novas usinas e ampliação das já existentes
Marcelo Rehder
Preocupado com o forte avanço da cana-de-açúcar, o governo de São Paulo promete endurecer as regras para instalação de novas usinas ou ampliação das já existentes. Levantamento das Secretarias do Meio Ambiente e da Agricultura,que vai mapear as regiões com restrições à expansão da atividade, deverá ser concluído até o dia 18, quando entram em vigor as novas regras.
De acordo com o secretário do Meio Ambiente,Xico Graziano, os canaviais, que no início da década respondiam por menos de 50% do espaço ocupado por lavouras no território paulista, hoje já se espalham por quase 70% da área plantada -excluindo as pastagens.
Considerando o total de 1,2 milhão de hectares previstos nos 31 empreendimentos aprovados ou em fase de aprovação no governo, a área com cana deve passar dos atuais 4,9 milhões de hectares para 6 milhões de hectares em 2010. O Estado tem 19 milhões de hectares de terras agricultáveis, dos quais 9 milhões são ocupados por pastagens. Também responde por mais de 60% de toda a cana produzida no País e algumas regiões já se encontram "saturadas" por canaviais.
"Vamos começar a considerar essa variável no licenciamento, para evitar a monocultura da cana em algumas regiões", diz o secretário. "A diversificação da atividade agrícola tem reflexos não só ambientais, como também socioeconômicos, já que uma eventual crise no setor abalaria toda a economia nas região mais dependentes da cana-de-açúcar."
Conforme a unidade de território usada no levantamento do governo paulista, a região onde há maior concentração de cana é a Bacia Hidrográfica do Baixo Pardo/Grande, que inclui os municípios de Barretos, Bebedouro, Orlândia e Terra Roxa, entre outros. Nessa região, os canaviais dominam 59% da área total, que soma 641,7 mil hectares.
Outra faixa onde a predominância da cana preocupa é a da Bacia Hidrográfica do Tietê/Jacaré, que está com 42% da área (1,4 milhão de hectares) ocupada por canaviais. Entre os municípios da região estão Dois Córregos, São Carlos, Jaú, Bocaina, Barra Bonita e Brotas.
A União da Indústria da Cana-de-Açúcar (Unica) informou, por meio de sua Assessoria de Imprensa, que só vai se manifestar sobre o assunto depois que as novas diretrizes forem publicadas pelo governo estadual.
SEMÁFORO
O levantamento do governo paulista, que os técnicos chamam de zoneamento agroambiental da cana-de-açúcar, vai resultar em um mapa de São Paulo dividido por bacias hidrográficas pintadas nas cores verde, amarela e vermelho.
Assim como nos faróis de um semáforo de trânsito,o verde significará que a região não apresenta restrições e o processo de licenciamento de novas usinas ou ampliações seguirá as regras atuais. No sinal amarelo, as exigências serão bem mais rigorosas. Já no vermelho, não serão concedidas licenças.
"Grosso modo, um quarto do Estado vai ficar no vermelho, metade vai ficar com restrição e o outro quarto, com área verde", adianta Graziano.
Para elaborar o novo zoneamento, além do tradicional levantamento de aptidão de solo e clima e do nível de concentração dos canaviais, os técnicos levaram em conta aspectos ambientais. Haverá restrições, por exemplo,em áreas cujos recursos hídricos já estão comprometidos por causa do uso de irrigação por meio de processos mecânicos.
Nas regiões onde as bacias aéreas estão saturadas ou em saturação por emissão de poluentes, também haverá maior rigidez da secretaria. Em áreas próximas a parques e reservas de conservação, simplesmente não será permitida a instalação de usinas (sinal vermelho).
O secretário Xico Graziano observa que o governo federal também está para anunciar um novo zoneamento ecológico da cana-de-açúcar no País.
"O que eu fiquei sabendo é que, ao contrário do que mostra o nosso estudo, o Ministério da Agricultura vai dizer que se pode plantar cana-de-açúcar onde quiser no Estado de São Paulo", conta Graziano.
O secretário disse achar muito estranho que nem ele nem o secretário de Agricultura e Abastecimento do Estado, João Sampaio,tenham sido consultados pelo governo federal. "Não sabemos o que é, mas temos a impressão de que o ministério baseou o estudos apenas no levantamento de solo e clima, pois, se juntasse os aspectos ambientais, veria que São Paulo não está todo apto para a cana-de-açúcar."
O recebimento de pedidos de licenças para novas usinas e para expansões das já existentes, que está suspenso desde meados de maio passado, será retomado no dia 18 deste mês, quanto as novas regras já estarão em vigor.
Emprego vai atrás do etanol
A febre do etanol tem sustentado o crescimento do emprego na indústria paulista. Dos 146 mil postos de trabalhos abertos de janeiro a julho deste ano, mais de 99 mil (68%) foram no setor sucroalcooleiro, segundo a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp).
A expansão da produção de cana-de-açúcar exige contratação maior de mão-de-obra temporária nas épocas de plantio e colheita, que vai de abril até novembro. De cada cinco postos abertos, praticamente quatro vão para o campo e apenas um vai para usina. Todos, no entanto, são registrados na indústria porque os trabalhadores são contratados pelas usinas.
Para suprir a demanda por executivos de média e alta gerência, provocada pelos projetos já aprovados pelo governo paulista, as usinas estão tendo que buscar profissionais experientes nas empresas concorrentes ou em outros mercados.
"Toda essa movimentação gerou um aumento de fluxo de profissionais da capital e outras regiões do País para o interior paulista, o que tem inflacionado os salários", conta Daniel Cunha, gerente da Michael Page, uma das maiores empresas de recrutamento e seleção de executivos.
Nos últimos dois anos,o salário de executivos aumentou 50%e os ganhos em participação variável dobraram. M.R.
Produtor foge da'dança perigosa'das commodities
Brás Henrique
Ribeirão Preto
Ao trafegar pelas principais rodovias da região de Ribeirão Preto é possível observar, nas laterais, as vastas plantações de cana, a perder de vista. Em época de colheita, as queimadas tornam-se um grande problema em muitas cidades. Em Barretos,a família de Gilvan Orlovicks plantava soja desde 1980 em cerca de 1.089 hectares, sendo metade nas terras deles e a outra arrendada de terceiros. Em 2007, com o melhor preço da cana e o grão em baixa, os Orlovicks optaram pelo plantio de cana em 232,4 hectares, mantendo 556,6 ha para a soja.
Muitos produtores que mudaram de ramo pensando em sair dos prejuízos de outras culturas resolveram aderir a uma maneira mais simples, prática e menos trabalhosa: arrendar as terras para os usineiros, que bancam tudo,da produção à colheita. Os Orlovicks, no entanto, preferiram ser fornecedores das usinas. Ou seja, plantam, gastam com insumos e vendem a cana às usinas.
Os contratos de fornecimento expiram entre 2009 e 2010 e Gilvan, às vezes, demonstra certa insatisfação com os preços.
Mas, como o mercado é volátil, a continuidade dessa produção em suas terras ainda é incerta.
Na vizinhança dos Orlovicks, José Revolta Filho e seus três irmãos, João, Devair e Antonio Luís, têm cerca de 968 ha, onde produziram soja e sorgo (na safrinha) desde 1979. Em 2007,diminuíram a produção. Das terras próprias, tudo foi arrendado para duas usinas, por seis anos. "O arrendamento dava o valor de toda a despesa", diz José.
Das áreas arrendadas, eles Ainda mantêm 968 ha com plantio de soja, mas os valores das sacas,que oscilam na volatilidade do mercado, os preocupam.
Mais cauteloso e acompanhando bem os mercados, Cássio David de Albuquerque Furtado é outro produtor que trocou de ramo pela cana. Antes, investiu na citricultura (40 mil pés, em 160 hectares) por 22 anos, quando o retorno era "interessante", mas a situação se complicou e, com a rentabilidade baixa e com problemas com a praga do amarelinho,deixou a produção de laranja em 2000.
O clima de Jaborandi, ao lado de Barretos, também já estava ficando desfavorável à citricultura. Entre 1983 e 2006 ele também produziu grãos, um período "compensador" para soja, milho e algodão,em 1 mil hectares em Morrinhos (GO).
Atento aos investimentos de fortes fundos estrangeiros no mercado de commodities,a partir de 2002 Furtado começou a notar que os preços nem sempre eram compensadores. O mercado especulativo de preços, a hora certa de vender, o preocupou. "O produtor ficava numa dança perigosa", explica ele.
Com o preço do algodão em baixa entre 2005 e 2006 e a instalação de uma usina de cana em Morrinhos, considerou "interessante" arrendar a sua área para o plantio de cana há dois anos. Em Jaborandi, no entanto, optou por ser fornecedor de usinas, plantando cana em 350 hectares. Neste ano entregará a primeira safra. "Dá menos dor de cabeça e trabalho do que a citricultura."
Zoneamento ambiental definirá rumo das plantações
Graziano diz que não vai retirar nenhum canavial, mas apenas impor regras à expansão
Gustavo Porto
Ribeirão Preto
A proposta de zoneamento agroambiental do Estado de São Paulo deve delimitar os rumos da expansão da cana-de-açúcar. "Estamos fazendo o zoneamento com métodos científicos, com justaposição de nove mapas de solo, clima e variáveis ambientais que darão o resultado final", afirma o secretário do Meio Ambiente de São Paulo, Xico Graziano.
Segundo ele, o documento terá um mapa com as cores vermelha, amarela e verde, "como um semáforo",para apontar como será o comportamento da cultura da cana em São Paulo.
"O plantio não vai recuar, mas nós iremos normatizar a expansão dos canaviais e nenhum canavial será retirado", garante o secretário.
"Teremos um zoneamento completo,agronômico,topográfico e ambiental" explica o secretário da Agricultura, João Sampaio. No zoneamento agroambiental, áreas como o litoral paulista são consideradas mais frágeis para o plantio da cana e serão identificadas na cor vermelha, que indica a proibição para o plantio. Portanto,as áreas vermelhas para a cana no Estado de São Paulo serão no litoral.
Ainda de acordo com o secretário, no mesmo dia da entrega do zoneamento será normatizada a concessão de licenças para a ampliação e construção de novas unidades produtoras de açúcar e de álcool, suspensas desde maio.
"Nas áreas mais sensíveis não existem unidades industriais, mas pode haver cana plantada para a produção de cachaça ou para trato de animais", afirma o secretário do Meio Ambiente.
Os dois secretários estiveram na semana que passou em Sertãozinho(SP)a fim de entregar certificados de adesão ao protocolo agroambiental para 21 associações de produtores ligadas à Organização dos Plantadores de Cana-de-açúcar do Centro-Sul do Brasil (Orplana).
O protocolo, já assinado por 150 usinas, prevê o fim da queimada palha da cana-de-açúcar e a colheita mecanizada em São Paulo até 2017.
Segundo Xico Graziano, no dia 22 de setembro, para comemorar o início da primavera, a Secretaria do Meio Ambiente vai apresenta rum mapa da recuperação das matas ciliares no Estado que vai apontar o setor canavieiro como o que mais contribuiu para o crescimento.
Dos 19 milhões de hectares de terras agricultáveis em São Paulo, 9 milhões são de pastagem e 4 milhões são de cana. O maior problema, segundo técnicos da Secretaria do Meio Ambiente, está nas pastagens.
OESP, 07/09/2008, Economia, p. B8
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