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Brasil bem acima do Equador

OESP, Vida, p. A26-A27
19 de jul de 2009

Brasil bem acima do Equador
A 972 quilômetros de Natal, arquipélago de S. Pedro e S. Paulo deixa pesquisadores brasileiros quase isolados

Quem chega de barco, o único transporte acessível, ao Arquipélago de São Pedro e São Paulo, o ponto mais inóspito e mais extremo do Brasil acima da linha do Equador, entre o litoral do Rio Grande do Norte - a 972 quilômetros de Natal - e Guiné-Bissau, na África, sente-se isolado do mundo. Não fossem a internet e um telefone fixo, que se comunica via satélite, os pesquisadores e eventuais visitantes que desembarcam na Ilha Belmonte, a maior do conjunto de dez pequenos rochedos descobertos por navegadores portugueses em 1511, não teriam notícias do que se passa lá fora.
Foi assim em junho, quando seus habitantes - quatro universitários levados por um pesqueiro que lhes dá apoio - nada souberam das buscas na região onde caiu o Airbus do voo 447 da Air France, na noite de 31 de maio. O Arquipélago de São Pedro e São Paulo apareceu nos mapas como ponto mais próximo, mas era apenas uma referência, pois se encontra a 60 milhas marítimas (cerca de 112 quilômetros) da área do acidente. Nenhum destroço do avião chegou às ilhas.

A Bandeira Nacional, hasteada dia e noite ao lado de um farol e de várias antenas, marca a ocupação permanente do arquipélago. Ele sempre pertenceu ao Brasil, mas parecia esquecido até 30 anos atrás, quando a Convenção das Nações Unidas sobre os Direitos do Mar, assinada pelo governo federal em 1982, mudou a ordem jurídica internacional e permitiu aos Estados costeiros explorar e aproveitar os recursos naturais das colunas d?água, do solo e do subsolo dos oceanos em sua Zona Econômica Exclusiva (ZEE).

A inauguração, no dia 25 de junho de 1998, de uma estação científica na Ilha Belmonte e a sua ocupação permanente conferiram ao arquipélago a condição de ZEE. Foi uma conquista notável. Com essa medida, escreveu o contra-almirante José Eduardo Borges de Souza, o Brasil acrescentou "a impressionante área de 450 mil quilômetros quadrados à sua ZEE original, o que equivale a aproximadamente 15% de toda a ZEE brasileira ou 6% do território nacional".

Com exceção de alguns matinhos entre as fendas, o arquipélago não tem nenhuma vegetação, nenhuma sombra, nenhuma gota de água potável. O conjunto tem uma área total emersa de 17 mil metros quadrados e a distância de 420 metros entre os pontos extremos. A altitude máxima dos rochedos, na Ilha de São Paulo, é de 18 metros. A profundidade ao redor das ilhas, que também não têm praias, chega a 4 mil metros, num mar povoado de tubarões e de dezenas de espécies de peixes menores, como o atum e o peixe-voador. Eles fazem a riqueza dessas profundezas abissais e justificam o interesse e o investimento do governo na pesquisa marinha.

O pesquisador Fábio Hazin, coordenador científico do Programa Arquipélago, da Secretaria da Comissão Interministerial para Recursos do Mar (Secirm), administrado pela Marinha, descreve a formação geológica dos rochedos: "O Arquipélago de São Pedro e São Paulo é constituído de rochas ígnias ultrabásicas, ricas em magnésio e pobres em sílica e álcalis, apresentando como minerais mais abundantes a olivina e peridotita, ambas rochas magmáticas de profundidade. Sua constituição geológica, extremamente rara, é decorrência de o arquipélago constituir um afloramento do manto suboceânico que se eleva de profundidades abissais em torno dos 4 mil metros, até poucos metros acima da superfície (18 metros), sendo resultante de uma falha transformante da Dorsal Meso-Atlântica. Não possui, assim, origem vulcânica."

Ou seja: os rochedos ou ilhas são o cume de uma gigantesca coluna que vem do fundo do mar, a 4 quilômetros de fundura. O pico mais alto está a apenas 18 metros acima das ondas, mas o afloramento está aumentando: a taxa de soerguimento do arquipélago foi calculada em 1,8 milímetro/ano, nos últimos 5 mil anos, segundo o professor Narendra K. Srivastava, do Departamento de Geologia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. O arquipélago é o único lugar do mundo em que o manto abissal está exposto acima do nível do mar.

Além de um farol automático, alimentado por baterias, a Ilha Belmonte tem duas antenas da Embratel para telefone e transmissão de dados, uma antena do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), uma antena do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), um marégrafo para medição e estudo das marés e um sismógrafo obsoleto que será substituído nesse segundo semestre. Nenhum desses instrumentos precisa da intervenção dos pesquisadores, que se revezam, a cada duas semanas, na estação científica mantida pela Marinha.

Há também um dessalinizador, que produz 200 litros de água potável por dia, o suficiente para a cozinha e a higiene pessoal. São os pesquisadores que cuidam da limpeza dos equipamentos.

História do local ''começa'' em 1511

O Arquipélago de São Pedro e São Paulo, nome oficial do conjunto de dez ilhotas anteriormente chamadas de rochedos, abrolhos, recifes e penedos, foi descoberto acidentalmente por navegadores portugueses em abril de 1511. A caravela São Pedro, comandada pelo capitão Manuel de Castro Alcoforado, encalhou em cima de uma rocha e rompeu os fundos, enquanto navegava em mar aberto, durante a noite, no meio do Oceano Atlântico.

Quatro séculos depois, em abril de 1922, outros aventureiros portugueses, os aeronautas Sacadura Cabral e Gago Coutinho, desceram junto do arquipélago com o hidroavião Lusitânia. Deveria ser apenas uma escala para reabastecimento, na travessia Lisboa-Rio, mas o mar revolto quebrou um dos flutuadores de seu aparelho.

Recolhidos por um cruzador da Marinha Portuguesa, foram levados a Fernando de Noronha, onde receberam outro hidroavião, o Pátria, com o qual retornaram ao Arquipélago de São Pedro e São Paulo, para reiniciar o trecho interrompido. Uma pane no motor obrigou os aeronautas a fazer pouso de emergência no mar. Passaram nove horas como náufragos, até serem resgatados por um cargueiro inglês.

Entre esses dois acidentes, uma visita ilustre entrou na história de São Pedro e São Paulo em 1832, quando o navio Beagle estacionou junto dos rochedos com o pesquisador Charles Darwin, o autor de A Origem das Espécies, em sua expedição em direção ao Oceano Pacífico. O cientista descreveu assim a passagem pelo arquipélago:

"Ao atravessarmos o Atlântico, na manhã de 16 de abril, aproamos para o vento, parando a pequena distância dos rochedos de São Paulo. Esse agrupamento de rochedos se acha situado entre a latitude 0o58? norte e longitude 29o15? oeste. A distância que os separa do continente americano é de 540 milhas, e da ilha Fernando de Noronha, de 350 milhas. O ponto mais elevado chega somente a cerca de 15 metros sobre o nível do mar e todo o perímetro não chega a 1.200 metros."

Em 1998, a Marinha inaugurou a primeira estação científica na Ilha Belmonte. Oito anos depois, as ondas destruíram, em junho de 2006, quase todo o conjunto da casa e instrumentos ali instalados, menos o farol construído no ponto mais alto da ilha. Foi nele que se refugiaram os pesquisadores que se encontravam na estação científica. A casa foi reconstruída com novas técnicas de segurança e reinaugurada em 2008.

Navio e barcos pesqueiros dão apoio à pesquisa
Balizador Comandante Manhães faz manutenção de equipamentos

O navio balizador Comandante Manhães, o H20 da Base Naval de Natal, passou quatro dias, no fim de junho, no Arquipélago São Pedro e São Paulo, em sua segunda comissão de manutenção deste ano. Sob o comando do capitão-tenente Jonathas Moscoso de Campos e de seu imediato, capitão-tenente Thiago Campana Costa, o navio chegou às ilhas na madrugada de um domingo, depois de navegar 534 milhas. Esperou clarear para ser amarrado a uma boia, a 120 metros dos rochedos.

Quando o bote de borracha desembarcou os primeiros homens no píer da ilhota Belmonte, o capitão-tenente José Bento Silveira Neto montou uma força-tarefa, de cabos e sargentos, para iniciar uma faxina geral na estação científica. Os militares ajudaram um técnico da Embratel, Vilarindo Santos Almeida, a trocar a antena de transmissão de dados e, em menos de 24 horas, a internet voltou a funcionar. O engenheiro eletrônico Marco Antônio Galdino, do Centro de Pesquisas de Energia Elétrica (Cepel) do Ministério das Minas e Energia, fez uma revisão dos painéis fotovoltaicos no teto da casa da estação científica.

"A energia solar poderia ser substituída pela energia eólica, pois os ventos são abundantes na região, mas as aves seriam prejudicadas se fossem atingidas pelas hélices, além de danificarem o equipamento", disse o capitão-tenente Marco Antônio Carvalho de Souza, coordenador-geral do Programa Arquipélago. Em contrapartida, os atobás sujam os painéis. Galdino passou uma manhã inteira com uma vassoura, em cima do teto, limpando os excrementos das aves, que lançam dejetos líquidos e brancos, o guano, a respeitável distância. A Marinha não desce com helicópteros na ilha para não perturbar as aves. O arquipélago é Área de Proteção Ambiental (APA).

A estação científica, de 60 metros quadrados, foi inaugurada em 2008, em substituição à anterior, de 45 metros quadrados, destruída pelas marés, quase um tsunami, em junho de 2006. Planejada por engenheiros e arquitetos da Universidade Federal do Espírito Santo, a casa tem varanda, sala/cozinha, banheiro, um quarto com beliches para quatro pesquisadores e um laboratório. Feita à prova de terremotos, pois são frequentes os abalos sísmicos na região, foi montada pela Marinha, com madeira fornecida pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais. Custou R$ 1 milhão.

Subordinado ao Serviço de Sinalização Náutica do Nordeste, o Comandante Manhães normalmente executa tarefas de instalação, operação e fiscalização de sinais de auxílio à navegação. É um navio lento e de pouco conforto que, após 25 anos no mar, vai ser modernizado em 2010. Foi planejado para navegar a até 10 nós em velocidade máxima, mas faz uma média de 7 nós (13 quilômetros) por hora.

O navio balizador balança muito quando as ondas sobem. Na viagem de quatro dias, entre Natal e o arquipélago, mais de metade dos 36 homens a bordo mareou. Até marinheiros de muitas travessias baixaram nos beliches. O tenente médico Giorgione Leite de Freitas Batista distribuiu comprimidos aos mareados e teve até de aplicar soro num deles. O Manhães joga o tempo todo, mesmo amarrado na boia.

Mas, desconfortos à parte, o balizador parece um transatlântico de luxo, em comparação com o pesqueiro Transmar II, fretado pela Marinha. Os 12 beliches do barco são ainda mais apertados que os do navio. Navegante mais corpulento não pensa em se virar no colchão depois da proeza de se enfiar naquelas gavetas.

O pesqueiro é, em compensação, mais rápido do que o navio. "Fazemos a travessia entre Natal e o arquipélago em menos de 72 horas", informa mestre Jonas José da Costa, 45 anos de pesca e 61 de idade, que se reveza com outro pesqueiro no apoio aos pesquisadores.

Tudo chega ou sai em botes. Um píer com escada vertical de nove degraus dá acesso à estação científica, por uma passarela de madeira. O píer foi erguido numa enseada de águas às vezes revoltas, entre as ilhas de São Pedro, São Paulo e Belmonte.

No último dia de trabalho, a equipe teve dificuldade para desembarcar na ilha e para retornar ao navio, porque as ondas cobriam a passarela. O fotógrafo Eduardo Nicolau, que dormiu três noites na estação científica, enfrentou o desafio, mas este repórter, de 71 anos, supostamente o visitante de mais idade a pisar na Belmonte nos 11 anos de atuação do Programa Arquipélago, foi aconselhado a permanecer a bordo, enquanto as ondas não baixassem. Não baixaram.

Marinha e CNPq fazem a seleção de projetos

O Programa Arquipélago lançará, no segundo semestre, um edital para seleção de pesquisadores interessados em desenvolver projetos em São Pedro e São Paulo. De 24 projetos em andamento no ano passado, vários já foram concluídos ou estão em fase de conclusão. Os candidatos e suas propostas serão avaliados pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e pela Marinha.

"Ao serem aprovados, os pesquisadores fazem uma semana de treinamento, na Base Naval de Natal, para a ocupação da estação científica", informa o capitão-tenente Marco Antônio Carvalho de Souza, coordenador geral do Programa Arquipélago. Passam por rigoroso exame de saúde e recebem lições teóricas e práticas sobre combate a incêndios, sobrevivência no mar, primeiros socorros, comunicações e operação e manutenção de bote inflável. Procedimentos de emergência e condições para mergulho também entram no currículo.

O coordenador científico, professor Fábio Hazin, revela que há algumas centenas de pesquisadores treinados e mais de 20 projetos em andamento. Eles são apresentados por universidades de todo o País. Hazin e o coordenador-geral, Carvalho, montam as equipes que devem se revezar na estação a cada 15 dias. Viajam em pesqueiros fretados pela Marinha, que lhes dão apoio enquanto permanecem na ilhota Belmonte.

"Do ponto de vista científico, a posição geográfica estratégica, entre os Hemisférios Norte e Sul e os continentes africano e americano, atribui ao Arquipélago de São Pedro e São Paulo uma condição única para a realização de pesquisas em diversos ramos da ciência", afirma Hazin, comparando as ilhas a um navio oceanográfico fundeado no meio do Oceano Atlântico.

O professor espera que a geração de informações, de forma simultânea e em permanente interação, pelos diversos ramos da oceanografia, possa conduzir a uma compreensão integrada do ecossistema do arquipélago, contribuindo para melhor entender os intrincados processos ecológicos de ecossistemas insulares.

Segundo Hazin, o arquipélago constitui uma das mais importantes áreas de pesca do Nordeste brasileiro. "Desde 1988, a frota atuneira sediada em Natal, por exemplo, mantém uma pesca regular nas adjacências do arquipélago, objetivando a captura de espécies pelágicas migratórias", disse.

O professor Sílvio Macêdo, coordenador do projeto "Interações de parâmetros bióticos e abióticos e suas influências na produtividade do Arquipélago de São Pedro e São Paulo", ressalta o caráter multidisciplinar e interinstitucional do Programa Arquipélago, que, na área de biologia, envolve o Departamento de Oceanografia da Universidade Federal de Pernambuco, onde trabalha, o Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo e o Departamento de Oceanografia da Universidade do Rio Grande do Sul. O biólogo Marcos Antônio Ferreira Melo e a química Josiane Gomes Paulo coletam e analisam amostras da água dos arredores da ilhota Belmonte, sob a orientação de Macêdo.

Viagem feita a convite da Marinha do Brasil

Mergulhando no mar, em busca do tubarão-baleia

O biólogo Bruno César Luz Macena Rocha, da Universidade Federal Rural de Pernambuco, mergulha nas águas do arquipélago com uma obsessão: marcar tubarões-baleia com um chip para coleta de dados sobre esses peixes. Já marcou um casal, em três meses de mergulho, mas quer mais dois. "Quanto mais a gente conseguir, melhor será", incentiva o professor Fábio Hazin, coordenador do projeto Ecologia de Grandes Peixes Pelágicos do Arquipélago São Pedro e São Paulo. "O tubarão-baleia é o maior peixe vivo do planeta Terra e um dos menos conhecidos", argumenta Hazin. O peixe adulto pode alcançar 21 metros de comprimento. Os tubarões-baleia, que são inofensivos e vivem nas regiões tropical e subtropical, são uma espécie ameaçada de extinção. "Tenho de prever quando e onde o tubarão-baleia vai aparecer", observa Bruno. Quando aparece, o mestre do barco pesqueiro de apoio avisa e o pesquisador mergulha.

Atobás e viuvinhas, os donos das ilhas
Garça e fragata estão de passagem

O atobá, a viuvinha e o aratu, uma espécie de caranguejo de cores preta, laranja e esverdeada, são a riqueza da fauna das ilhas. Quem percorre o limitado espaço da ilhota Belmonte, que não chega a ter a dimensão de um campo de futebol, tem de se armar de um cabo de vassoura para espantar os atobás e as viuvinhas, pois as aves atacam quando alguém se aproxima de seus ninhos, nas fendas das pedras. O atobá bica as pernas, a viuvinha investe contra cabeça, o rosto e os olhos. O aratu é inofensivo.

Desengonçado como um pato em terra, o atobá voa maravilhosamente sobre as ondas e mergulha como uma flecha para pescar. A viuvinha, do tamanho de uma pomba, divide o espaço com ele entre as pedras. As aves pousam no mastro do navio, logo que ele se aproxima das ilhas.

Os atobás formam casais monogâmicos. Com algumas exceções, pois os pesquisadores já registraram casos de poligamia, com um macho guardando dois ninhos. Cada casal defende seu território contra qualquer intruso, incluindo os atobás solteiros que moram na outra ponta da Belmonte.

O pesquisador Charles Darwin identificou as aves nativas, em sua passagem pelo arquipélago, em 1832. Ele escreveu:

"Nos rochedos de São Paulo, somente encontramos duas qualidades de aves - uma espécie de pelicano e de gaivota, ambos tão mansos e estúpidos, talvez por não se acharem acostumados a ver visitantes, que eu poderia ter abatido quantos quisesse com meu martelo de geólogo."

Darwin chamou de pelicano o atobá e de gaivota a viuvinha, as únicas aves que ocupam o arquipélago permanentemente. As outras que passam pela região são aves migratórias em busca de alimento. Já apareceu até um falcão.

No fim de junho, duas garças e uma fragata, supostamente vindas de longe, na carona de um navio, voavam entre os rochedos.

OESP, 19/07/2009, Vida, p. A26-A27

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