O Globo, Opinião, p. 7
Autor: VENTURA, Zuenir
13 de Dez de 2006
Bode expiatório
Zuenir Ventura
Lula, ou um erro atrás do outro. Pior do que o cálculo equivocado sobre a taxa de crescimento econômico, que não chegará aos 5% previstos, foi eleger como entrave aos investimentos em infra-estrutura do país, ou seja, como bode expiatório, a política de meio ambiente e, em última instância, a ministra Marina Silva. Esqueceu-se de que ela seria capaz, como disse ao repórter Gerson Camarotti, de perder o pescoço, mas não o juízo. Em outras palavras, não parece disposta a se agarrar ao cargo para ser uma ministra de grande peso simbólico lá para fora e pouco poder real aqui dentro. Não que já não tenha feito concessões no cargo, mas é demais lhe pedir adesão a uma concepção de desenvolvimento contra a qual sempre lutou - a de que o país deve crescer a qualquer custo (ambiental).
O que nunca faltou a essa sobrevivente de cinco malárias, três hepatites e uma leishmaniose foram coragem e coerência, inclusive para moralizar o Ibama e lhe impor rigor técnico. O presidente e a Casa Civil talvez sonhem não com a "flexibilização" do órgão, mas com um "liberou geral" de licenciamentos como era antes, quando até em crimes ambientais dezenas de funcionários do instituto se envolveram.
Se isso é gestão fundamentalista, como acusa o Planalto, que bom que seja. O uso de Marina e seu ministério como pretexto ficou demonstrado com a revelação de que, das 38 hidrelétricas em construção, 13 estão paralisadas não por falta de licença ambiental, mas por outros entraves.
Com uma história de vida que só lhe permitiu escapar do analfabetismo aos 16 anos, para depois se formar em história e ser a senadora mais jovem do país, Marina não é uma xüta. Ao contrário, como companheira de luta de Chico Mendes, ajudou-o a tornar vitoriosa a tese de que é possível desenvolver a Amazônia sem destruí-la, mas sem também transformá-la em santuário.
Se Lula tivesse assistido ao imperdível filme de Al Gore, "Uma verdade inconveniente", veria em que estado de penúria o progresso desenfreado deixou o Planeta. E aprenderia que o crescimento sustentável, o respeito à natureza, a preservação ecológica, a racionalização do uso dos recursos naturais são o que há de mais moderno e sensato em termos de desenvolvimento. A ironia é que foi Chico, seu amigo seringueiro, espécie de mártir da ecologia, quem ajudou a inscrever essas questões na agenda mundial.
Como diz o ambientalista Israel Klabin a respeito do modelo predatório de crescimento, "não é o meio ambiente que está impedindo o desenvolvimento; o desenvolvimento é que está prejudicando o meio ambiente".
O Globo, 13/12/2006, Opinião, p. 7
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