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Bambu em vez de madeira

O Globo, Razão Social, p. 14-16
18 de Out de 2011

Bambu em vez de madeira
Lei aprovada mês passado incentiva cultivo no país, mas especialistas apontam riscos

Camila Nobrega

O Brasil começa a apostar num novo ciclo produtivo que, segundo o governo federal, pode reduzir o desmatamento e, ao mesmo tempo, gerar renda para pequenos agricultores. No dia 8 de setembro, a presidente Dilma Rousseff sancionou a lei 12. 484, ou Lei do Bambu, que torna política pública o incentivo ao cultivo da planta no país. Mercado não falta, já que a oferta de matéria-prima não dá conta da demanda, e países como a China e alguns europeus estão de olho no produto brasileiro. Mas especialistas alertam para a possibilidade de a lei inaugurar um novo ciclo no país com as mesmas características dos anteriores: a expansão do agronegócio e a monocultura, em detrimento da agricultura familiar e da conservação da biodiversidade, se não houver restrições na regulamentação e apoio aos pequenos produtores.
Há anos, pesquisadores buscam apoio do poder público para ampliar o cultivo da planta no país. Calcula-se que a cada hectare plantado, cinco empregos são gerados no país, de acordo com dados do Instituto Ebiobambu. Mesmo em pequena escala, o bambu já é usado no Brasil para os mais diversos fins, desde artesanato até a confecção de tecidos. Mas é na construção de casas e móveis onde ele ganha uma de suas principais funcionalidades: a substituição da madeira. Com uma vantagem importante, já que uma casa feita de bambu pode durar séculos, se for bem estruturada e cuidada, e chega a custar até 40% menos.
O país tem, segundo a Embrapa, 18 milhões de hectares de bambu só na região amazônica. São florestas inteiras de uma planta que até pouco tempo era considerada apenas uma praga, pois se alastra com facilidade. A maior concentração, cerca de 40% do total, está no Acre, mas o cultivo feito por meio de manejo sustentável ainda é exceção à regra. São raros os casos de famílias como a do acreano Francisco Rafael de Mello, o França. Há três anos, ele buscou a Embrapa em busca de ajuda para aprender a cuidar da planta e, desde então, acompanha o crescimento de seu bambuzal, numa área rural a cerca de sete quilômetros de Rio Branco. Faltam seis anos para que ele possa começar a extrair:
- Tem que ter paciência, para não tirar verde demais e sem resistência. Se não, além de matar a planta, não se consegue boa matéria-prima. Estou apostando nele no futuro. Não uso química, é tudo orgânico. Mas o pessoal aqui não acredita que vai dar certo. Normalmente, as pessoas põem fogo direto na taboca (nome dado ao bambu na região), porque acham que é praga. Preferem fazer roçado, plantar mandioca - disse França.
França vive num terreno de 20 hectares, dividido por sete famílias. No início da plantação, teve ajuda na mão de obra, já que é na fase das mudas que ocorre o trabalho mais duro, que exige cuidado diário e limpeza minuciosa. O próximo desafio vai ser quando o bambuzal tiver a primeira leva madura, na hora de retirar as varas. Se for retirado sem a técnica correta, pode machucar, como acontece com frequência entre as famílias que não cultivam, mas apenas extraem a planta da floresta. O bambu acaba rasgando as mãos, inclusive de crianças, e pode até cair em cima dos agricultores, já que algumas espécies podem atingir 40 metros de altura. França tem apoio da Embrapa, mas a maior parte das famílias não.
Para o pesquisador da Embrapa Acre, Elias Miranda, o cenário precisa mudar. Ele, que acompanha de perto estudos sobre o potencial do bambu, explicou que o assunto é novo até na instituição, mas que os resultados recentes com a planta são animadores, e que a lei vai impulsionar a assistência técnica e a extensão rural:
- Antes havia muita madeira nas reservas extrativistas. Mas a retirada foi feita sem controle, e hoje o cenário está mudando: não tem mais tanta oferta de madeira que possa ser retirada legalmente. O bambu funciona então como uma ótima alternativa de geração de renda, já que a falta de madeira empobreceu muitas famílias. Enquanto a madeira demora a crescer, algumas espécies de bambu ficam maduras em cerca de três anos. Mas o governo federal precisa viabilizar toda a cadeia produtiva.
Com a Lei do Bambu regulamentada e posta em prática, a esperança é que isso ocorra. Miranda estima que pelo menos 1.800 famílias possam ser beneficiadas só no Acre. Durante décadas, ribeirinhos e populações que vivem no interior da floresta amazônica cortaram árvores sem nenhum controle para vender a madeireiras. Havia até incentivo do próprio governo brasileiro que, até a década de 1980, dava crédito rural, incentivando a expansão da fronteira agrícola na floresta e a própria ocupação da Amazônia. A consequência hoje é que há áreas onde as populações não podem retirar árvore alguma nos próximos anos, para dar tempo de a floresta se recuperar. Do ponto de vista ambiental, a é uma boa solução. Mas há um passivo social, já que muitas famílias não podem esperar, porque precisam sobreviver. Por enquanto, a Embrapa mantém apenas um projeto piloto com cinco famílias no cultivo de bambu.
Outros especialistas também defendem que a Lei do Bambu pode ser aliada do combate à pobreza, em vez de servir apenas como alternativa ambientalmente correta. Mas, para isso, vai ser necessário um vultoso investimento do governo na área de assistência rural, para que os pequenos produtores possam fazer o cultivo de forma correta e se sustentar até que o bambu comece a dar lucro. O governo ainda não sabe de onde sairá esse investimento, nem de quanto será, segundo a engenheira florestal e técnica da Secretaria de Biodiversidade e Florestas (SBF) do Ministério do Meio Ambiente (MMA) Cristiane Pinheiro, que acompanhou de perto a tramitação da lei:
- A lei prevê crédito rural em condições favorecidas, taxas de juros mais baixas, assistência técnica e acompanhamento do processo produtivo. Mas quanto teria de ser investido não sabemos, porque ela ainda será regulamentada. O principal é reduzir a pressão sobre o desmatamento. E vamos esperar a decisão do Código Florestal, que também vai definir onde se poderá ou não plantar bambu. Depois disso, haverá uma certificação para a gramínea.
De acordo com Cristiane, ao contrário do que se fala sobre o bambu, ele não é uma espécie necessariamente exótica. Há cerca de 200 espécies nativas no Brasil, país da América Latina com maior ocorrência da planta. E estão sendo fechados, segundo ela, acordos interministeriais, com o Ministério do Desenvolvimento Agrário, por exemplo, e o da Agricultura, para viabilizar a cadeia do bambu. Outro objetivo do governo é usar a matéria-prima para fazer habitações populares, como já acontece em países asiáticos, como a Indonésia e a China.
Não há na lei, no entanto, nenhuma restrição ao crédito ao agronegócio e aos grandes produtores que, historicamente, têm sido mais beneficiados pelo crédito rural do que a agricultura familiar. O governo também não falou ainda em estabelecer algum controle ao uso de agrotóxicos. Essas são as duas principais ressalvas em relação a lei feitas pela professora do Instituto de Biologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro Irene Garay, especialista na área de gestão da biodiversidade e reflorestamento:
- Já era hora de uma política pública para o bambu, um ativo importante da floresta que passou tanto tempo renegado. Mas é essencial que se faça um cultivo diferente do que foi feito com o café, e mais tarde com o eucalipto. Se há uso de agrotóxicos, o retorno econômico é pequeno. É caro para o pequeno agricultor e o sistema é muito frágil, não se sustenta a longo prazo. Além disso, o Brasil tem acabado com a variedade de espécies, investindo no cultivo apenas das mais produtivas. É o que aconteceu com o arroz. Mas isso empobrece o solo, e é um risco para a biodiversidade, acabando com ecossistemas. Tudo isso pode ser regulamentado.
A especialista sugere o consorciamento de diversas espécies, até para reduzir o risco de pragas na lavoura. O bambu ficou conhecido como um mal, porque é muito vulnerável a insetos, o que, segundo Irene, pode ser reduzido se o cultivo misturar diversas espécies. Não é necessário, para ela, o cultivo com adubos químicos. Isso poderia ser controlado na hora de o governo dar a certificação do produto.
E não é só na Amazônia que se espera ampliar o cultivo do bambu. Irene acompanha de perto um projeto de reflorestamento da Mata Atlântica, no Espírito Santo, no município de Sooretama. Lá o cultivo de café feito durante décadas de forma intensiva e com uso de agrotóxicos cada vez mais caros no mercado acabou empobrecendo famílias inteiras que viviam do produto. Os agricultores ficam à mercê do preço no instável mercado externo do café. Além disso, a Mata Atlântica local foi dizimada nesse processo. Por isso, a possibilidade de cultivar o bambu como forma de recuperação da cobertura vegetal e também de geração de renda é uma esperança, como explicou o morador de Sooretama Nivaldo Del Piero, filho de agricultores que hoje dá assistência a outros pequenos produtores na Fundação Bionativa:
- O córrego que abastece a cidade está poluído por causa do uso de agrotóxicos. E a mão de obra está difícil na região. Os jovens estão correndo para a cidade porque não há perspectiva. Estamos precisando de novos cultivos, de alternativas. O bambu pode ser trabalhado aqui, com apoio do governo.
Segundo ele, já existe na cidade a cultura do bambu como opção à madeira. Ha famílias que fazem artesanato a partir da planta. Mas falta matéria-prima, pois é pouco o conhecimento técnico a respeito do cultivo.
Demanda é o que não falta hoje. O preço do bambu no mercado é atrativo. E, enquanto uma vara virgem vale em torno de R$ 30, segundo a Embrapa, a tratada pode chegar a R$ 70. Já se forem usadas para fazer artesanato ou móveis têm maior valor agregado.
No Brasil, o mais comum por enquanto é o uso do bambu para objetos decorativos, mas o potencial da planta é muito maior. Um exemplo disso é o trabalho do designer e professor da PUC Mário Seixas, sócio da empresa Bambutec com outro designer, João Bina.
O nicho que eles encontraram foi o aluguel de estruturas inteiras montadas em bambu para eventos. Tendas, stands, mesas. Eles fazem tudo de bambu.
- Se bem retirado da natureza, maduro e resistente, o bambu substitui até o aço na construção civil. Tem propriedades que até superam as do aço, em concreto armado, lajes, colunas. Só que é difícil encontrar matéria- prima boa. No Brasil, ainda há muito bambu verde, cortado antes da hora - disse João, que defende o uso da agroecologia para pôr a nova lei em prática: - Não acredito na monocultura, nem na agroindústria. É possível expandir o cultivo do bambu com sistemas agroecológicos, gerando renda. Os chineses, por exemplo, estão interessados no nosso produto, mas não temos que copiá-los. O sistema de monocultura lá deu errado.
A falta de matéria-prima de qualidade é também o maior problema do mercado de bambu, segundo Mário Scripilliti, dono da empresa Bamboobali, paulista especializada em construções feitas a partir da planta. Ele calcula que o crescimento da demanda tem sido de cerca de 10% ao ano, mas não há oferta suficiente: - Esse ano já recusei pelo menos cinco grandes trabalhos, porque não tenho fornecedores suficientes com a qualidade de que preciso.
Os principais clientes dele são hotéis, que pedem bangalôs feitos de bambu, e outros apetrechos para a área de spa. Além disso, a empresa recebe pedidos para fazer casas de praia, áreas de lazer e outras coisas. O que falta ainda é confiança das pessoas para construírem suas casas definitivas. Há preconceito.
A arquiteta Celina Llerena, fundadora do Instituto Ebiobambu, acredita que isso está mudando. No início do mês, ela levou à Casa Cor uma construção toda feita em bambu: - O que nos falta é a cultura. E o manejo. Há pessoas, e até empresas grandes, que estão cortando o bambu com apenas seis centímetros de diâmetro. Tem que ter pelo menos o dobro.
Celina acompanhou um acordo Brasil-China para transferência de tecnologia de cultivo do bambu e a tramitação da nova lei. Ela é entusiasta da legislação, mas ressaltou que será necessário pensar o sistema de escoamento do produto: - Se o foco é a agricultura familiar, os pequenos produtores terão que se organizar em cooperativas, se unir. Potencial não falta.
Segundo a arquiteta, o bambu pode mesmo ser alternativa à madeira para pequenos agricultores até na hora de construir a própria casa, como já acontece na Colômbia.

Aposta contra o desmatamento

Entre os anos de 2004 e 2010, foram desmatados 6,4 mil Km² de florestas no Brasil, 2.595,8 Km² deles só nas 132 Unidades de Conservação federais na Amazônia Legal, ou seja, em área de preservação ambiental, o que corresponde a 22,6% do total de mata desflorestada no período.
Em maio deste ano, houve um pico de desmatamento na Amazônia, registrando menos 268 Km². Especialistas atribuíram a redução à discussão do Código Florestal, cujo texto, aprovado na Câmara, anistiava desmatamentos feitos até 2005. O estado com maior ocorrência de desmatamento no mês foi o Mato Grosso, com 93,7 km², seguido por Rondônia, com 67,9 km², e Pará, com 65,5 km². Os dados são do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Em relação a maio de 2010, quando os satélites apontaram 109,58 km² de desmatamento, houve aumento de 144% no ritmo da derrubada da floresta.
Como em muitas outras nações em desenvolvimento, os principais vetores do desmatamento são o avanço das indústrias madeireira e de papel e celulose, a liberação de terras para a agricultura, seja para a produção de alimentos ou combustíveis, para pastagens e para uso de carvoarias. Outra forma de pressão sobre a floresta, que pode inclusive acontecer com o bambu se não houver regulamentação adequada e fiscalização, é o desmatamento de árvores nativas para o plantio de árvores de crescimento mais rápido, como ocorre com o eucalipto. Embora seja uma forma de reflorestamento, a solução reduz a biodiversidade, acabando com alguns ecossistemas. Há 628 espécies de bambu mapeadas em todo o mundo, 200 delas no Brasil.
A aposta na monocultura foi a escolha da China, o que acarretou problemas em várias regiões do país. Visando ao aumento de produtividade, o país investiu no cultivo das espécies mais produtivas de bambu, reduzindo muito a biodiversidade e degradando o solo, pelo uso abusivo de agrotóxicos. Agora, o país busca novas áreas para cultivo - alguns especialistas temem que eles expandam essa cultura no Brasil. Na China, estima-se que mais de 50 mil pessoas trabalhem em atividades relacionadas ao bambu.
Em todo o mundo, mais de um bilhão de pessoas vivem em casas de bambu atualmente. E o mercado da planta movimenta cerca de US$7 bilhões, segundo dados da Embrapa e do Instituto Ebiobambu. O Brasil, porém, ainda tem uma participação pouco significativa nesses dados. O protagonismo no assunto fica mesmo por conta de países asiáticos. Além da China, a Indonésia e a Tailândia têm uma cultura milenar dedicada ao bambu. Na América Latina, a Colômbia e o Equador são referências. No planeta, o bambu representa o sustento de mais de um bilhão de pessoas, principalmente nas áreas rurais pobres desses países e na América Central. Os brotos da planta são também fonte importante de alimentação para muitas famílias.
No setor da construção civil, a Colômbia é uma referência, pois possui um grande programa de construção de habitações populares em sistema de mutirão. Já em termos históricos, o Taj Mahal indiano é um dos exemplos mais antigos de construção de bambu. Ele teve sua abóbada estruturada por metal recentemente, quando substituíram a estrutura milenar de bambu, que sobrevivera até então. No que diz respeito à modernidade, a construção de pontes de bambu na China é a referência mais arrojada e atual.

O Globo, 18/10/2011, Razão Social, p. 14-16

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