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Animais de laboratório e a saúde humana

CB, Opinião, p. 19
Autor: CORDEIRO, Renato Sérgio Balão
01 de Jul de 2006

Animais de laboratório e a saúde humana

Renato Sérgio Balão Cordeiro
Pesquisador titular e chefe do Departamento de Fisiologia e Farmacodinãmica da Fundação Oswaldo Cruz.
Membro titular da Academia Brasileira de Ciências e da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio)

O que causa grande perplexidade nas argumentações de determinados grupos, que se auto-intitulam defensores dos animais, na atual discussão do projeto de lei que proíbe o uso de animais em pesquisas, na Câmara dos Vereadores do Rio de Janeiro, são os equívocos, o radicalismo irracional e o total desconhecimento da importância do uso de animais na pesquisa para a saúde humana e seus benefícios para os animais de estimação.
Apesar do grande avanço nas diversas áreas da ciência e tecnologia, em virtude da grande complexidade da célula biológica, infelizmente os animais ainda são necessários e não podem deixar de ser utilizados para solução dos problemas de saúde. Seria muito bom que os pesquisadores pudessem descobrir o mecanismo de ação de doenças infecto-parasitárias, novas terapias para a hipertensão arterial, câncer, dor, asma e processos inflamatórios, antidepressivos, quimioterápicos, vacinas, utilizando somente sofisticados programas ou simuladores computacionais.
Infelizmente, a ciência ainda não atingiu esse patamar de desenvolvimento. A realidade é diferente, e somente em alguns poucos casos a biologia celular e molecular, através de técnicas de cultura de tecidos, modelos virtuais e estudos de pacientes e populações, que substituem o modelo animal, nos dão essa possibilidade.
As vacinas são importantes instrumentos que a ciência forneceu aos seres humanos e aos animais em geral. A vacina contra a pólio, que utilizou inicialmente camundongos, e a vacina contra meningite tipo 13 impediram a morte de milhões de crianças. A vacina veterinária contra a cinomose, desenvolvida no século passado, testada em animais, já salvou muitos milhões de animais domésticos em todo mundo. A vacina contra raiva canina, desenvolvida em cães, trouxe notórios benefícios para a espécie e para os homens, e a contra a leucemia felina, causada por retrovirus, e potencialmente letal para os gatos, foi desenvolvida na década de 90. Por outro lado, o que seriam dos bovinos, suínos, ovinos e caprinos se não existisse a vacina da febre aftosa? Os recentes embargos à carne brasileira, por mais de 50 países, dão a exata dimensão da importância da vacinação contra aftosa para a economia do país e a sobrevivência das populações.
E o que seria da humanidade se sofisticados procedimentos cirúrgicos-transplantes cardíacos, renais e de fígado - não tivessem sido pesquisados previamente em animais? Atualmente, estão sendo desenvolvidas próteses neurais - grande esperança para reabilitação de pacientes que sofrem de paralisia corporal severa.
É importante ressaltar que a aprovação de projetos de pesquisa em saúde depende da análise rígida e criteriosa por parte dos comitês de ética no uso de animais de laboratório, M existentes na maior parte das instituições brasileiras. São processos rigorosos, baseados em conceitos fundamentais da ética, da filosofia e do rigor científico.
Recentes dados obtidos com o seqüenciamento dos genomas do homem, do camundongo e do rato, duas das espécies animais mais utilizadas nas pesquisas, mostram uma similaridade espantosa. Os três genomas têm tamanhos similares, sendo que o genoma humano é ligeiramente maior. Isso torna esses animais modelos de estudo de enorme interesse e importância para pesquisas que buscam melhorar nossa saúde.
Assim, é fundamental que o Congresso Nacional retome a discussão com a sociedade, incluindo o Conselho Nacional de Saúde, é acelere a tramitação e votação do importante Projeto de Lei no 1.153, de autoria do saudoso deputado federal Sérgio Arouca e atual relatoria do deputado Sergio Miranda, que estabelece procedimentos para o uso científico de animais, obriga a criação de comissões de ética no uso de animais (Ceua) e o Sistema Nacional de Controle de Animais, o Sinalab.
Conclamamos as ONGs protetoras de animais sérias e conseqüentes a atuarem como parceiras e protetoras das instituições de pesquisa e universidades brasileiras, contribuindo para o bom funcionamento das comissões de ética, no sentido de garantir a saúde da população e de nossos animais.

CB, 01/07/2006, Opinião, p. 19

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