O Globo, País, p. 8
19 de Out de 2013
A amante da natureza nas mãos de Putin
Flávio Ilha
A última vez em que viu Ana Paula, a motorista profissional Rosângela Maciel, de 56 anos, nem pôde conversar direito com a filha - tamanha a pressa da bióloga na passagem por Porto Alegre. Era dia 12 de julho, fazia frio na capital, e a ativista do Greenpeace acabara de voltar de uma estada de três meses no México, onde fez um curso de mergulho profissional. No dia seguinte, pela manhã, já embarcaria para a Holanda, onde faria parte da tripulação do Arctic Sunrise para mais uma missão, desta vez com um final inesperado.
- Nem conseguimos sentar para falar sobre a vida dela, sobre coisas que mãe e filha conversam normalmente. A Ana estava multo cansada, tirou roupas de calor e trocou para peças de frio, e no sábado já foi embora de novo. Era a rotina dela: viajar por aí. E eu nem estranhava mais - relata a mãe da ativista Ana Paula Maciel, de 31 anos, presa na Rússia desde o dia 19 de setembro por uma ação de protesto contra a exploração de petróleo no Ártico.
O relato mostra bem a personalidade forte da menina porto-alegrense que abraçou a causa ambiental logo na infância e, aos 15, colocou na cabeça que seria uma ativista do Greenpeace.
Mãe e filha já ficaram três anos e meio sem se ver, quando Ana Paula se casou com um ambientalista italiano e decidiu morar em Portugal, onde o casal comprou uma quinta na vila de Vale dos Prazeres, a oeste de Lisboa, e chegou a sonhar em fincar raízes. Lá, os dois começaram a cultivar o solo e a plantar oliveiras. Mas o ativismo de ambos, e as viagens, especialmente as de Ana Paula, fizeram com que a empreitada não desse certo. O casamento se desfez em quatro anos.
Rosângela, que guia uma van escolar e tem uma rotina de horários pesada, define a filha de maneira multo simples: trata-se de uma pessoa apaixonada pela natureza.
Um exemplo narrado pela mãe: ainda estudante de biologia na Universidade Luterana do Brasil (Ulbra), no começo dos anos 2000, Ana Paula frequentemente viajava a cidades do interior do Rio Grande do Sul para dar palestras sobre ecologia e natureza em escolas públicas. Dava aulas de graça, às vezes ganhando só a passagem de ônibus.
O Greenpeace surgiu na vida da bióloga ainda na adolescência. Começou coletando assinaturas para campanhas mundiais em parques de Porto Alegre, no final dos anos 90, depois passou a fazer campanhas de coleta de fundos até aderir ao grupo em 2006. No Rio e em mais 29 cidades do mundo, ativistas do Greenpeace fizeram uma manifestação pela libertação de Ana Paula e dos demais presos. O diretor de Campanhas da entidade, Sérgio Leitão, descreve Ana Paula como determinada e destemida.
- É uma pessoa que não merece essa provação. Ela precisa voltar para casa porque só estava lutando por seus sonhos e por aquilo em que acredita, e isso não pode ser crime - afirmou.
O Globo, 19/10/2013, País, p. 8
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