OESP, Economia, p. B6-B7
12 de Jul de 2009
Alcoa investe US$ 1,5 bilhão no meio da selva
Uma das maiores minas de bauxita do mundo, com porto e ferrovia, será inaugurada em setembro, na Amazônia
Renée Pereira
Até meados de 2005, a pequena Juruti, no oeste do Pará, era apenas mais uma pacata cidade encravada na Floresta Amazônica, com as carências típicas da região e uma economia de subsistência baseada na pesca, cultivo da mandioca e extração de castanha. De lá pra cá, muita coisa mudou. O município deixou o anonimato de lado e ficou conhecido internacionalmente como a cidade que vai abrigar uma das maiores minas de bauxita do mundo, da multinacional americana Alcoa.
Em três anos e meio, Juruti - cujo PIB per capita anual é de R$ 2331 - viveu o ritmo frenético de uma obra de US$ 1,5 bilhão (ou R$ 3 bilhões), que agora entra na reta final. Se tudo der certo, em setembro, a cidade receberá o presidente Lula para a inauguração oficial do megaempreendimento. Trata-se de um complexo que inclui, além da mina, uma ferrovia e um porto - todos desenvolvidos com alta tecnologia.
Os pesados investimentos no local estão fundamentados no potencial de 700 milhões de toneladas de bauxita em solo jurutiense. Desse total, 180 milhões já foram confirmados pela Alcoa, o que representa 70 anos de exploração na mina. O produto vai abastecer a refinaria Alumar, em São Luís (MA), onde será transformado em alumina (usada na fabricação de vários produtos, inclusive de pasta de dente) ou alumínio.
Os primeiros estudos em Juruti foram feitos na década de 70 pela americana Reynolds Metals. Com a aquisição da companhia pela Alcoa, em 2000, a prospecção dos minerais na região foi retomada. A primeira equipe da mineradora chegou à cidade em 2005 para os estudos de impacto ambiental. Com as licenças em mãos, a empresa iniciou as atividades de construção em junho de 2006.
Desde o início, o projeto se revelou um grande desafio, seja do ponto de vista ambiental, social ou de engenharia, avaliou o presidente da Alcoa na América Latina e Caribe, Franklin Feder, um americano que vive no Brasil desde os quatro anos. "Abrir uma mina é uma tarefa difícil em qualquer lugar, mas na Amazônia a missão é ainda maior e requer mais cuidado."
Além das questões ambientais, já que se trata de uma mina no meio da Floresta Amazônica, a localização exigiu pesado esquema logístico para montar o empreendimento. Afinal, chegar a Juruti não é das tarefas mais fáceis. De Santarém (PA) até a cidade, a opção é pegar um barco que pode demorar até 12 horas no percurso.
Para evitar esse desgaste, a Alcoa contratou uma empresa de aviação para fazer a rota Santarém-Juruti. Duas vezes ao dia, o aviãozinho pousa numa pista improvisada de chão batido trazendo funcionários e visitantes da mina. A viagem dura apenas meia hora. Todo o transporte de equipamentos, máquinas e materiais de construção, porém, só pode ser feito por meio de balsas. "Num certo momento durante as obras, houve até congestionamento no porto da cidade", lembra Tiniti Matsumoto Jr., responsável pelo desenvolvimento da mina.
Na avaliação dele, outro obstáculo foi a distância entre a mina, as instalações de beneficiamento da bauxita e o porto. Da extração até o embarque, são 55 quilômetros de distância. Por isso, tudo é automatizado. A bauxita extraída é levada até a planta de beneficiamento por meio de caminhões.
Depois de triturado, o minério é transportado em esteiras até grandes reservatórios onde passa por um processo de lavagem para a retirada do excesso de terra. Em seguida, segue de trem até o porto. Lá, uma série de esteiras conduzirá a bauxita até o navio, que seguirá cerca de 1,6 mil km até a Alumar.
Para construir a infraestrutura do complexo, a Alcoa teve de desmatar uma área de 800 hectares. Além disso, usou 7 milhões de toneladas de trilhos, 110 mil dormentes, 28 milhões de m³ de terra e 400 mil m³ de brita. No auge da construção, em setembro, o canteiro de obras abrigou 9,5 mil pessoas contratadas por 60 empreiteiras. Hoje o número já caiu para 4,4 mil pessoas e vai diminuir ainda mais. A operação do complexo vai exigir 1,3 mil trabalhadores. Desses, 350 serão funcionários contratados pela Alcoa e o restante, terceirizado.
Depois de três anos e meio no meio da floresta, os funcionários começam a retornar para suas cidades. Tiniti foi um dos primeiros a chegar a Juruti e deverá ser o último a sair. Nas últimas semanas, um de seus compromissos tem sido ir até o "aeroporto" improvisado da cidade para se despedir dos companheiros. O ritual é tirar uma foto de todos para guardar em seu "álbum de expedição". "A única dúvida é saber quem vai tirar a minha foto."
Licença ambiental é questionada pelo MPE
Autorização para obra foi concedida por secretaria e não pelo Ibama
A imagem da abertura de uma mina de bauxita no coração da Floresta Amazônica é de causar arrepios a qualquer cidadão. Para retirar o minério do solo é preciso desmatar toda a área e escavar cerca de 12 metros de profundidade. As trincheiras, cada uma de 1 mil metros por 70 m, formam uma enorme clareira de um vermelho quase sangue (cor da bauxita) envolto pela floresta intensamente verde. Esse cenário apenas voltará a ser o que era antes da mina em 20 anos.
Pela determinação dos órgãos ambientais, todos os cortes na floresta terão de ser recuperados com a plantação de árvores e vegetação originais. A terra retirada de uma trincheira servirá para cobrir a outra já explorada. Em seguida, mudas de árvores derrubadas, hoje cuidadas em viveiros, serão plantadas. Para cada castanheira derrubada, por exemplo, será necessário plantar outras 20.
No total, o estudo de impacto ambiental determinou a criação de 35 planos de controle ambiental, que envolve monitoramento de clima, ar e ruído, conservação da flora e da fauna, reassentamento de comunidades, capacitação de mão de obra, apoio a agricultura familiar e reabilitação da área de mina, entre outros programas.
Mas o Ministério Público Estadual (MPE) questiona a concessão do licenciamento ambiental pela secretaria do Estado. Há um consenso no MPE de que a licença teria de ser concedida pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama). Uma das críticas é que o Estudo de Impacto Ambiental (EIA) teria negligenciado uma série de problemas ambientais e sociais que o projeto provocaria.
"Tudo que alertamos antes está ocorrendo em Juruti. Aumentou consideravelmente o número de pessoas com hepatite A e doenças transmitidas pela água sem tratamento, além das transmitidas sexualmente. Isso sem contar na quantidade de madeira apodrecendo na mata", diz o representante do MPE, Raimundo Moraes. "Todas as melhorias feitas na cidade não são suficientes para atender a comunidade afetada."
Para contra-atacar o bombardeio de críticas, a Alcoa criou uma agenda positiva em conjunto com a prefeitura e a comunidade para promover a melhoria da qualidade de vida da população. O acordo resultou na construção de novo hospital para atendimento de alta complexidade, que ficará sob responsabilidade da Alcoa durante três anos, inclusive a contratação de profissionais. A empresa também construiu uma unidade mista de saúde na comunidade de Tabatinga. Além disso, o hospital municipal está em reforma e outras unidades básicas foram ampliadas.
A agenda inclui também a construção de 16 salas de aula, tratamento de água, complexo judiciário, melhorias em estradas vicinais e asfaltamento parcial da PA-257 e da rodovia municipal de ligação até a área de beneficiamento da Alcoa.
Além das construções da Alcoa, o aumento da arrecadação da prefeitura da cidade tem permitido algumas melhorias, como a pavimentação das ruas principais e a recuperação da praça de Juruti. Em três anos, o município arrecadou R$ 93 milhões com a mina. Até 2006, o Produto Interno Bruto (PIB) da cidade era de R$ 86 milhões (US$ 43 milhões) - 1% da receita de US$ 4,2 bilhões da Alcoa no segundo trimestre.
Mina traz prosperidade e caos à antes pacata Juruti
Com a chegada da Alcoa, cidade paraense virou um canteiro de obras
Renée Pereira
A chegada da gigante mundial de alumínio, Alcoa, em Juruti provocou uma revolução na vida modesta e tranquila dos moradores da cidade. Num piscar de olhos, o município virou um canteiro de obras, com a construção de novos hotéis, restaurantes, lojas, supermercados, padarias, hospitais, escolas e ruas asfaltadas. Nunca se viu tanto emprego nem tanta gente nova em Juruti. Da mesma forma, nunca se viu tanto trânsito, inflação e criminalidade.
"Quando cheguei por aqui, apenas nove carros circulavam pela cidade", lembra Tiniti Matsumoto Jr., responsável pelo desenvolvimento da mina de bauxita da Alcoa, em Juruti. Hoje, calcula-se que cerca de 500 veículos e motos rodam pelas ruas do município, que tem 35 mil habitantes, 65% deles residentes em comunidades rurais. Uma parte da frota, entretanto, é formada por caminhonetes importadas e veículos da Alcoa.
O aumento do número de automóveis abriu espaço para novos negócios, como a abertura da primeira autoescola. No início, o Centro de Condutores Juruti chegou a atender 80 alunos em um só mês. A demanda era tão forte que autoridades de Santarém chegaram a mudar o local de exame para Juruti.
A iniciativa esbarrou, porém, na falta de sinalização da cidade. Em Juruti, não existe via de mão única, placas, semáforos e muito menos faixas de pedestres. Mas há árvores no meio da rua.
O número de postos de combustíveis aumentou. Hoje já são quatro na cidade. Isso não significa, porém, que o motorista vai encontrar combustível todos os dias. Afinal, o produto percorre um longo trajeto de barcaças até Juruti e nem sempre chega na data prevista.
Com o inchaço da população e o consequente aumento da demanda, o custo de vida de Juruti aumentou. O aluguel de uma casa de dois cômodos, que antes custava R$ 200, hoje não sai por menos de R$ 600. O preço de um terreno de 400 metros quadrados pode chegar a R$ 60 mil, conta a vice-presidente da Associação Comercial local, Elienai Bravo. Antes esse mesmo pedaço de terra custava R$ 8 mil - aumento de 650%.
Até mesmo o produto mais típico da região não saiu ileso do aumento dos preços. O quilo de peixes, como pacu e tambaqui, custa R$ 3,50. Os graúdos, acima de 5 quilos, custam R$ 10. Antes, conseguia-se comprar os mesmos peixes até pela metade do preço, diz o presidente da associação de pescadores da cidade, Francisco Oliveira de Souza, de 57 anos.
Segundo ele, entre 2000 e 2008, o volume de pescado consumido na cidade saltou 240%. Souza conta que a vida em Juruti mudou bastante nos últimos anos. "Antes a gente ficava sentado na calçada e não tinha movimento nenhum. Hoje é uma barulheira danada, um monte de carro e moto." Reflexo disso é o aumento do número de acidentes entre carros e motos, segundo a delegacia local. Houve também elevação nos casos de furtos e drogas na cidade. Dos 28 presos, 12 estão envolvidos com entorpecentes.
Souza reconhece, entretanto, que o progresso trouxe benefícios. "Com mais dinheiro no bolso, todo mundo comprou televisão e computador. Lá em casa compramos geladeira e uma máquina de lavar roupa e reformamos o banheiro." Além disso, a internet, antes muito precária, conectou os jurutienses ao mundo. Mas o meio de comunicação mais usado em Juruti ainda é a rádio poste. São as caixas de som amarradas em postes e espalhadas por toda a cidade que anunciam as principais novidades.
Alcoa quase paralisou projeto por causa da crise
No dia oito de dezembro do ano passado, o presidente da Alcoa América Latina e Caribe, Flanklin Feder, desembarcou nos Estados Unidos com a missão de garantir a continuidade do projeto de Juruti. Com a expansão da crise mundial e a queda abrupta de 50% nos preços do alumínio, a gigante americana havia decidido paralisar e suspender todos os investimentos pelo mundo. Isso incluía a mina de bauxita no Pará.
No discurso pró-Juruti, Feder argumentou que o projeto estava em estágio avançado, com equipamentos de alta tecnologia em instalação e que, se a construção fosse paralisada, a floresta invadiria tudo. Isso poderia provocar um aumento ainda maior no custo do projeto, cujo investimento saltou de US$ 600 milhões para US$ 1,5 bilhão. Depois de sua explanação, os executivos da Alcoa se retiraram da sala para refletir sobre o assunto. "Dez minutos depois voltaram com a resposta: Juruti continuaria."
OESP, 12/07/2009, Economia, p. B6-B7
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