VOLTAR

60% dos paulistas vivem em área saturada de poluição veicular

OESP, Metrópole, p. C1, C3
18 de Ago de 2009

60% dos paulistas vivem em área saturada de poluição veicular
Carros e caminhões ajudam a formar ozônio; 1 em cada 7 cidades sofre consequências da alta concentração do gás

Fernanda Aranda

Mais da metade dos paulistas (seis em cada dez, aproximadamente) vive em cidades saturadas por ozônio (O3), um dos poluentes mais nocivos à saúde, resultante da mistura de três fatores: luz solar, baixa umidade e fumaça preta dos veículos. O levantamento foi feito pelo Estado, cruzando dados de um relatório da Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb) divulgado recentemente. Os resultados mostram que 94 municípios estão em situação alarmante e a mancha de poluição cobre até o interior.

A condição crítica para ozônio foi constatada não apenas na Grande São Paulo, como ao redor das áreas de São José dos Campos, Alto Tietê, Jundiaí, Piracicaba e Baixada Santista, incluindo municípios de pequeno porte como Pirapora do Bom Jesus e Paraibuna. "São Paulo é um Estado peculiar porque, quando falamos em interior, não estamos nos referindo a cidadezinhas, e sim a grandes núcleos urbanos", afirma Rudolf de Noronha, coordenador de Programas de Qualidade do Ar do Ministério do Meio Ambiente. "Até cidades que não têm uma frota tão grande acabam afetadas pela poluição veicular, tanto por causa da mobilidade de pessoas quanto pela ação dos ventos, que carregam os poluentes."

O ozônio é formado pela combinação dos gases hidrocarbonetos (HC) e óxidos de nitrogênio (NOx). Apesar das queimas de cana de açúcar e das indústrias serem consideradas importantes aliadas na formação de ozônio em regiões interioranas, lembra a Cetesb, as informações disponíveis sobre HC e NOx atestam que são os carros, motos e caminhões que respondem por mais da metade - em alguns casos 70% - da emissão.

A responsabilidade dos veículos automotores pode ser medida pelo aumento da frota em alguns locais. Os dados do Departamento Estadual de Trânsito (Detran) mostram que nas regiões de Campinas, São José dos Campos, Piracicaba e Itu, todas afetadas pela densidade nociva de ozônio, o crescimento no número de automóveis foi ainda mais expressivo do que na própria capital. Enquanto a frota paulistana aumentou 7,1% entre 2007 e 2008, nessas outras cidades a média de aumento foi acima de 8,3% (em Itu, o acréscimo foi de 9,7%).

A Cetesb classifica como áreas com saturação séria ou severa de ozônio aquelas que nos últimos três anos tiveram concentrações máximas que superaram 200 mg por metro cúbico. Estão incluídos nessa categoria um em cada sete municípios de São Paulo. O médico Paulo Afonso de André - que já estudou os efeitos da poluição e do ozônio fora do eixo de São Paulo - ressalta que, apesar da porcentagem de cidades afetadas parecer pequena (14,57%), são esses locais que concentram o maior número de habitantes. Pelas estatísticas, 63% da população está nesses lugares. "Isso significa que são pessoas mais sujeitas a casos de câncer, envelhecimento precoce do pulmão e doenças respiratórias", alerta o coordenador do Laboratório de Poluição da USP, Paulo Saldiva.

Inspeção nacional será definida em outubro
Controle da frota é principal aposta para reduzir a formação de ozônio

A inspeção veicular, grande aposta dos especialistas para reduzir a formação de ozônio (O3), será decidida como norma obrigatória em todo o País em outubro, segundo afirmou ontem o Ministério do Meio Ambiente. Em discussão há pelo menos 13 anos, o modelo já em andamento na capital paulista e no Estado do Rio pode ser expandido, assim que os técnicos do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) votarem a medida.

"Estamos consolidando em uma única resolução as dez normas já existentes que falam sobre o assunto (inspeção nacional)", afirmou Rudolf de Noronha, diretor do Programas de Qualidade do Ar do Ministério do Meio Ambiente. "Nesta semana o assunto já deve chegar à Câmara Técnica do Conama para ser votado em plenário no início de outubro", completou, ressaltando que as novas normas terão um padrão consolidado de limite de emissão de poluentes, além de um prazo definido para que os governos estaduais adotem o programa.

Noronha acredita que a disseminação de programas de inspeção veicular vai contribuir para a redução do ozônio que, só no Estado de São Paulo, está em concentração alarmante em um em cada sete municípios. A mesma avaliação tem a Cetesb, que afirmou que trabalha junto com o Conama para a implementação em todo Brasil da inspeção obrigatória.

Por enquanto, a fiscalização da emissão excessiva de fumaça preta é feita em veículos a diesel (caminhões principalmente) - segundo a companhia, isso ocorre na Região Metropolitana e no interior. A inspeção é aleatória, em operações rotineiras. A Cetesb informou que quer aperfeiçoar esse monitoramento com a " inclusão do instrumento opacímetro na medição de fumaça preta". O aparelho faria a detecção da emissão em excesso "mesmo nos veículos cujos níveis de fuligem não sejam visualizados". Hoje, o critério de seleção dos veículos pesados que passam pelas blitze é a cor dos gases que saem dos escapamentos.

A presença da poluição em concentração alarmante até mesmo no interior paulista, explica o médico do Laboratório de Poluição da USP Paulo Afonso de André, não é responsabilidade apenas da frota local que circula nos municípios. Segundo ele, pesquisas já atestaram que a ação dos ventos pode fazer um gás tóxico ser "exportado" para um raio de 50 quilômetros da fonte da emissão. "Por isso, os programas estaduais de redução de emissão veicular, e não apenas o municipal, são tão importantes", afirma. "Sem contar que os veículos do interior também trafegam pela capital", pondera.

11 novas estações

Outro indicador de que a poluição se alastrou nos limites metropolitanas apareceu com as novas estações de medição instaladas ano passado pela Cetesb. Com investimento de R$ 7 milhões, foram instaladas 11 unidades no interior. Com isso, mais municípios entraram na classificação em alerta para a concentração de ozônio.

Ubiratan de Paula Santos, pneumologista especializado em poluição do Instituto do Coração (Incor), avalia que cidades do interior de grande e médio porte sofrem duplamente, uma vez que as fontes de emissão são mistas, incluindo as queimas de combustível e cana de açúcar e as indústrias. "Os efeitos são acumulativos. Ainda não se sabe qual das formas é mais nociva à saúde, da indústria, da cana ou veicular. Mas todas são extremamente prejudiciais."Fernanda Aranda

OESP, 18/08/2009, Metrópole, p. C1, C3

As notícias aqui publicadas são pesquisadas diariamente em diferentes fontes e transcritas tal qual apresentadas em seu canal de origem. O Instituto Socioambiental não se responsabiliza pelas opiniões ou erros publicados nestes textos. Caso você encontre alguma inconsistência nas notícias, por favor, entre em contato diretamente com a fonte.