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Vencedores de várias lutas, índios guerreiros do Acre encaram novos invasores

FSP, Caderno Especial, p. 1-10
Autor: SERVA, Leão; SALGADO, Sebastião
20 de mai de 2018

Vencedores de várias lutas, índios guerreiros do Acre encaram novos invasores

Ashaninkas Reportagem acompanha nova expedição do fotógrafo brasileiro à floresta amazônica, desta vez para documentar a valente etnia ashaninka, que depois de sobreviver a meio século de batalhas se vê agora diante da ameaça de caçadores, traficantes, madeireiros e mudanças climáticas, que interferem no rio, nas plantas e nos animais dos quais depende a sua vida

Leão Serva

MARECHAL THAUMATURGO (AC) Após mais de 500 anos de luta por sua independência e cultura tradicional, nos quais sobreviveram ao império inca, aos espanhóis, que destruíram os incas, aos empresários da borracha, que os escravizaram, e a outros ataques, os índios ashaninkas, no Acre, enfrentam nova onda de ameaças.

Atualmente, elas são materializadas por invasores ilegais -caçadores e traficantes de drogas- e madeireiras, incentivadas por leis recentemente aprovadas no Peru, que autorizam a abertura de estradas em áreas de preservação da floresta amazônica junto às suas terras.

Os índios assistem ainda ao avanço de uma ameaça global que os assusta: mudanças climáticas têm alterado de forma dramática o ambiente onde vivem e o comportamento das plantas e dos animais de que dependem para viver.

Para os ashaninkas, os brancos enlouqueceram a natureza. "Antes tinha calendário, as coisas aconteciam em seu tempo. Agora está tudo bagunçado", diz Moisés Piyãko, xamã na aldeia Apiwtxa, principal comunidade da etnia no país.

Ele aponta o exemplo do rio Amônia, que passa poucos metros abaixo de sua casa: "Antigamente, o rio subia em novembro e ficava cheio até março. Neste ano, a primeira chuva forte caiu em fevereiro, e só aí o rio começou a subir. Com isso, os peixes maiores desapareceram".

Moisés descreve muitas outras mudanças que a natureza está sofrendo, inclusive o aumento da temperatura nessa área da selva que parece um santuário inalterado.

Também chamados de campas, os ashaninkas se espalham por terras no extremo oeste do Acre, onde são cerca de 1.700, e no Peru, com cerca de 100 mil pessoas.

A terra indígena fica às margens do rio Amônia, no município de Marechal Thaumaturgo (560 km a oeste de Rio Branco e 2.800 km a noroeste de São Paulo, em linha reta).

A cidade é a única do estado do Acre que tem um índio como prefeito: Isaac Piyãko, ashaninka, venceu a eleição de 2016 com 56% dos votos. A etnia compõe apenas cerca de 5% da população, de 18 mil pessoas.

A vitória de Piyãko é atribuída à sua profissão: professor da rede pública, a mesma ocupação do vice-prefeito e de 2 dos 9 vereadores.

Os ashaninkas são um dos grupos indígenas cuja história é conhecida há mais tempo: há registros de seu relacionamento econômico e cultural com o império inca, que das montanhas do Peru dominou grande parte da América do Sul até a chegada dos espanhóis.

A antropóloga francesa France-Marie Renard-Casevitz resume o intercâmbio entre ashaninkas e incas na época: "Penas, peles, algodão, tecidos e plantas (grãos, madeira) sobem a serra, enquanto o metal (machado de cobre, joia de ouro), talvez pedras semipreciosas, lã e outros tecidos descem para a floresta". A própria autodenominação da tribo contém o nome dos antigos parceiros.

Nas histórias contadas pelos europeus que dominaram o Peru a partir da década de 1530, os ashaninkas eram descritos como guerreiros da floresta quente que, por sua valentia e lealdade, serviam de guarda-costas para os últimos nobres. Estes, depois de perderem a capital, Cusco, se refugiaram em uma área próxima à floresta amazônica.

Ali, protegida por seus soldados, acostumados à vida na montanha, e pelos índios naturais da Amazônia, a corte inca sobreviveu 40 anos na cidade escondida de Vilcabamba. Ao ser capturado pelos espanhóis, em 1572, o último inca estava cercado de guerreiros ashaninkas.

Chamados pelos incas de "antis" ou "andes" (dependendo da pronúncia na língua quechua), o nome do grupo também sobrevive na geografia do continente como uma memória do tempo pré-colombiano. A área onde moravam os ashaninkas, nas encostas da cordilheira, ao norte de Cusco, era nomeada Antisuyo, terra dos antis.

Os espanhóis entenderam a palavra como se fosse a designação das montanhas e passaram a chamar assim toda a cordilheira, da Patagônia à Colômbia. Os Andes são, portanto, um registro da antiguidade da presença ashaninka.

Caçadores, madeireiros e traficantes cercam índios

Quem chega à aldeia Apiwtxa vê logo que está em uma vila ashaninka: "Eles parecem estar na mesma posição há muito tempo", brinca o fotógrafo Sebastião Salgado. Essa permanência se expressa nos elemenculturais, como nas roupas, no estilo das casas, nos hábitos alimentares e nas histórias que contam, em que a derrota dos incas parece ter acontecido há pouco.

Na comunidade, a cerca de três horas de barco de Marechal Thaumaturgo, no Acre, homens e mulheres ainda vestem as túnicas descritas pelos viajantes do passado, chamadas kuzma. Homens plantam algodão, mulheres fiam e tecem.

As roupas dos homens têm listras verticais na trama do tecido; nas túnicas femininas, o tecido é liso, e as listras, horizontais, são pintadas com tinta feita da areia do rio, preta. Os homens usam ainda um chapéu de palha rígida, com penas, e uma faixa no pescoço que parece uma gravata.

As casas estão como sempre estiveram: sem paredes (quando há, é uma pequena proteção contra o vento na área de cozinhar), têm o piso de madeira elevado do chão, cerca de um metro. São unidades familiares. Quando uma filha casa, seu marido vai morar com ela por um tempo na casa dos pais dela, como para testar a relação. Depois, fazem uma casa ao lado. Mais tarde, quando vêm os filhos, a nova família se muda para mais distante: os ashaninkas não gostam de muvuca, como já notavam os viajantes espanhóis do século 16.

Por isso, Apiwtxa é uma aldeia espalhada, com casas distantes umas das outras, separadas por árvores de forma que um vizinho não enxergue o outro. O visitante deve fazer barulho para antecipar a sua aproximação. Essa singela regra de etiqueta já havia sido descrita no livro de um viajante francês do século 19, Olivier Ordinaire, ao explicar por que os índios haviam atacado cinco brancos em uma região do Peru: eles haviam chegado às casas dos ashaninkas sem avisar. O viajante francês explica, compreensivo: "Eles não são tão violentos como se costuma crer".

As árvores que os índios plantam em torno de suas casas formam um verdadeiro pomar de mata cultivada. Desde sempre, as famílias ashaninkas enriquecem a floresta com espécies frutíferas, produtoras de fibras, de madeira boa para fazer arcos e com plantas necessárias para produzir flechas, temperos etc.

Em pouco tempo, a vegetação cresce e forma um bosque alto, uma "agrofloresta", termo que eles usam e, recentemente, se tornou uma referência para a agricultura sustentável.

É o caso da aldeia Apiwtxa. Até o início dos anos 1990, a área era a pastagem de uma fazenda que foi desapropriada em 1992 para a criação da terra indígena. Por sua posição estratégica, junto a uma curva do rio, o que permite vigiar o movimento dos barcos, os índios decidiram instalar ali uma comunidade.

Após cerca de 25 anos, o antigo pasto parece agora uma área de floresta primária.

Os índios reclamam do aumento de invasões ao seu território nos últimos anos e de que o tempo todo pessoas sem autorização passam pela área, incluindo caçadores brasileiros e peruanos.

"Um caçador pegou 150 antas. Nós somos prejudicados, porque nós mesmos não caçamos em 25% de nossa floresta. Queremos que os animais se reproduzam e tenham uma área onde não são caçados. E aí vem um caçador e mata todo o estoque de nossa região! Nós notamos uma redução dos caminhos de antas", reclama o xamã Moisés Piyãko.

Uma das dificuldades é o fato de os índios não terem autonomia para vigiar suas terras, o que é competência de órgãos da União. Eles já encontraram pessoas caçando na reserva extrativista vizinha. "Chegamos a apreender espingardas, mas paramos, porque nós não somos Justiça, e isso acaba dando problemas para nós. Hoje, quando vemos os caçadores, avisamos por rádio, imediatamente, a Funai e o ICMBio. Eles deveriam vir direto, mas não tomam providências", diz Moisés.

O aumento do trânsito de caçadores ilegais é apenas uma das ações criminosas testemunhadas pelos índios diariamente, que incluem a exploração de madeira e a produção de drogas do outro lado da fronteira. Segundo estudo feito pelo governo dos Estados Unidos e divulgado por seu embaixador no Peru em 2016, 90% da madeira exportada pelo país sai de explorações ilegais em áreas de preservação, como é a região contígua ao Acre.

Essa exploração tem crescido. Levantamento da Polícia Federal brasileira feito em 2014 mostra que terras desmatadas acabam ocupadas por plantações de coca. Esse movimento é reconhecido também por entidades peruanas. Em 2015, o especialista em ambiente da Devida (Comissão Nacional para o Desenvolvimento e Vida sem Drogas), Ángel Peña Torres, apontou a produção de coca como motor do desmatamento.

Sejam causa ou consequência um do outro, o Peru já é líder mundial na produção da droga, superando a Colômbia. Os avanços peruanos são exatamente na área de floresta amazônica, onde laboratórios produzem a cocaína exportada para o Brasil.

Recentemente, a indústria madeireira recebeu um forte sinal de incentivo do governo peruano, que promulgou, em 22 de janeiro, uma lei determinando a construção de uma rodovia que atravessaria reservas florestais na região do rio Ucayali, vizinha ao Acre.

A medida provocou protestos de entidades ambientalistas e indigenistas no Brasil e no Peru. Uma nota, assinada por cerca de 30 entidades e divulgada no final de fevereiro, acusou o governo do Peru de priorizar a infraestrutura em lugar de preservar a floresta e os direitos indígenas, incrementando a tendência à devastação: "Diferentes informes técnicos demonstram, por exemplo, a inevitável intensificação do desmatamento e da ação de madeireiros ilegais e narcotraficantes, já presentes nessa região fronteiriça", afirma o texto, que conta com as assinaturas da brasileira Associação Ashaninka do Rio Amônia, da WWF-Brasil e da Associação Brasileira de Antropologia.

"No lado brasileiro", informa a nota, "a estrada impactará direta e indiretamente as unidades de conservação Estação Ecológica do Rio Acre, Parque Estadual Chandless e Reserva Extrativista Chico Mendes, além das terras indígenas Alto Purus, Cabeceira do Rio Acre, Jaminawa do Guajará, Mamoadate e Manchineri do Seringal Guanabara". A nota foi subscrita em seguida por entidades ambientalistas peruanas.

Regime de proteção aos índios não vai mudar, diz governo peruano

OUTRO LADO

Procurado pela reportagem, o governo do Peru afirmou, através de sua embaixada no Brasil, que "a proteção e a salvaguarda dos direitos dos povos originários assentados na região amazônica do país é um assunto de máxima prioridade para o Estado do Peru, cujo regime ficou formalmente estabelecido em 2006, através de uma lei promulgada pelo Congresso Nacional".

A nota esclarece que na lei de 2017, mediante a Lei no 30723, o Congresso Nacional declarou, de fato, prioridade e interesse nacional a construção de estradas em zonas de fronteira na região Ucayali (fronteiriça com o estado brasileiro do Acre).

"Diante da apreensão surgida em alguns setores da sociedade, os ministérios do Ambiente, Cultura, Transportes e das Comunicações do Peru divulgaram um comunicado conjunto poucas semanas depois, esclarecendo que o Poder Legislativo não tem competência para executar inversões em construção e/ou manutenção de infraestrutura viária, e ratificando o compromisso do Estado Peruano com o respeito dos povos indígenas e com a conservação das florestas amazônicas", diz a nota.

A lei tem "caráter meramente declarativo, não altera de modo algum o regime de proteção e salvaguarda dos direitos dos povos indígenas", segundo o governo peruano.

"Sem prejuízo do exposto, e a fim de afastar definitivamente qualquer preocupação por parte dos próprios grupos indígenas", a nota informa que tramita no Congresso do país nova legislação, "que revogaria a lei No 30723 e declararia de prioridade e interesse nacional as áreas naturais e os povos indígenas nas regiões de Ucayali e Madre de Dios (fronteiriças com o Brasil)".

Quanto ao narcotráfico, o governo peruano diz realizar "esforços permanentes" para combater essas atividades "em todos os âmbitos", incluindo interdição nas zonas amazônicas que fazem fronteira com Brasil e Colômbia, mas que, no caso da fronteira com o Brasil registrou-se um incremento no narcotráfico, "que essencialmente responde ao aumento da influência de organizações criminosas tais como Comando Vermelho e a Família do Norte, que intervêm no transporte e na distribuição dos carregamentos de droga até território brasileiro".

A nota diz ainda que o Peru, ciente da preocupação das comunidades ashaninkas que habitam ambos os lados da fronteira, articula ações integrais para enfrentar a situação reportada nessa área geográfica, as quais incluem "trabalho conjunto entre as forças policiais e de inteligência peruanas e brasileiras".

Combate à exploração ilegal da selva resulta em tiros e 'clima de ameaça'

Em 2014, três líderes ashaninkas do Peru foram mortos quando se dirigiam para uma reunião com representantes de várias comunidades dos dois países na aldeia Apiwtxa, onde discutiriam ações de combate à exploração madeireira nas áreas peruanas. Um brasileiro radicado no Peru, que trabalhava com exploração de madeira, foi condenado pelos crimes e cumpriu pena de três anos. Ele foi solto no ano passado.

Nos últimos meses, dois índios foram alvo de tiros de pistoleiros desconhecidos quando navegavam em rios da região. O caso mais recente ocorreu no início de fevereiro, poucos dias antes da visita da Folha.

Enison, 28, secretário da Associação Ashaninka do Rio Amônia, teve sua canoa alvejada quando seguia para uma caçada; outro atentado aconteceu contra Manoel Piyãko, 72, quando ele viajava para Marechal Thaumaturgo, já fora da área da reserva indígena.

"Por sorte, nenhum dos dois se feriu. Mas vemos que há um clima de ameaça", diz Enison.

Os casos foram comunicados à Funai, segundo Francisco Piyãko, irmão de Moisés, que foi secretário de Povos Indígenas na gestão do governador Jorge Viana (1999-2007) e hoje é diretor da Opirj (Organização dos Povos Indígenas do Rio Juruá), com sede em Cruzeiro do Sul.

Mudaram o clima, o rio e o sabor do peixe

"Aqui, antes, o clima era todo certinho. No verão, quando vinha uma friagem de um, dois, três dias, a gente sabia que tinha chegado a seca, ia ficar dois meses sem chover. Hoje, vem o frio e dois dias depois pode chover forte. A natureza antes dava sinais. Tínhamos um calendário das flores: uma flor que abria anunciava o verão, época de certo peixe; outra flor, tempo de fazer o roçado. Quando você planta na seca, não pode chover, porque apodrece o que foi plantado. Hoje estamos perdendo muitas plantações porque chove na seca e tem seca na hora da chuva."

Aos 48 anos, Moisés Piyãko é referência de xamanismo entre os jovens líderes dos ashaninkas da comunidade Apiwtxa. As pessoas recorrem a ele em casos de doenças, de problemas variados e também para entender o que está acontecendo com os ciclos da natureza.

O xamã domina o rito da ayahuasca (kamarampi, em sua língua), bebida feita com cipó, usada para provocar visões e conectar as pessoas com o mundo espiritual.

Moisés está preocupado com o surgimento de novas doenças, que ele associa ao aquecimento do ambiente: "Não sei se é a quentura. Todo mundo está com dores, como se carregasse o mundo nas costas. Quando vamos para o roçado, a gente sente esse calor maior, cansaço e tontura".

O aumento da temperatura é sentido também pelas plantações. Os ashaninkas têm 30 variedades de mandioca domesticadas. Cada uma delas tem um tempo de crescimento e serve a um uso específico, a um prato diferente.

"Tem macaxeira que produz muito rapidamente, outra leva três meses para dar, e outra, ainda, leva oito meses; se você tentar comer com três meses, ela não cozinha. Então, a pessoa planta para ir colhendo uma depois da outra. Quando colhe, cada uma tem um jeito de cozinhar. Tem algumas que duram vários dias fora da terra: oito, dez dias. A gente leva para cozinhar quando vai viajar."

Mesmo conhecendo profundamente a planta, os índios têm tido perdas significavas de produção nas últimas temporadas devido a chuvas fora de época: "Não é só que chove muito. Em seguida vem um sol muito forte, que esquenta a água do solo e mata a mandioca e a batata e cozinha a raiz das bananeiras". Outro foco de preocupação é o comportamento do rio e dos peixes.

O Amônia, que banha suas terras, anda estranho. Suas águas já não sobem tanto quanto no passado, mesmo nas cheias. Neste ano, o rio subiu pela primeira vez em fevereiro, na época do Carnaval, mas deveria estar alto desde novembro.

Com isso, a população de peixes tem caído. "Antes, na piracema, subiam muitos peixes. Agora não tem mais uma piracema. Algumas espécies desapareceram daqui. Pirapitinga, por exemplo, não dá mais neste rio."

Além disso, as mudanças alteram o sabor dos alimentos. "Os peixes hoje têm um gosto tão forte que não se consegue comer, parece folha podre, e o gosto só desaparece quando o rio fica vários dias com muita água, o que é cada vez mais raro", diz.

A solução que os ashaninkas vêm tentando é criar peixes em açudes, para alimentação e para tentar repovoar o rio com eles.

Em dois açudes na aldeia Apiwtxa eles criam tambaquis e curimatãs, e também tracajás, as desejadas tartarugas amazônicas, que são cada vez mais raras na região.

"O peixe que comemos do açude é como o natural, porque é alimentado com frutas, com açaí, pupunha, mandioca, batata", explica Moisés.

Eu pergunto o que dizem os espíritos: "Eles me passam responsabilidade. Alertam que a floresta precisa ser preservada. Mas a atitude tem que ser nossa. Nós é que temos que alertar as pessoas e tomar as providências. O que nós estamos fazendo aqui é reflorestar áreas. Tudo o que você vê aqui nós plantamos. Tudo. Antes era capim e gado. Nós fizemos isso e agora cuidamos da nossa saúde. Não tem mais criança desnutrida, aqui se come o dia todo. Até sobra. Agora queremos processar polpa para congelar e estocar".

Os índios abandonaram a pecuária e proibiram a caça em 25% do território
O impacto de uma viagem à terra dos índios ashaninkas no Acre, no final da década de 1980, foi tão grande que, em 1990, o cantor e compositor Milton Nascimento lançou o disco "Txai", todo influenciado pela cultura e pela sonoridade dos instrumentos indígenas. O título é uma palavra muito usada no Acre para dizer "amigo" (tem origem nas línguas do tronco pano, dos yawanawás e kashinawás, e significa "metade de mim").

Naquela visita, pouco depois que Milton chegou à comunidade ashaninka, os índios decidiram abater uma vaca para comer no jantar. A cena violenta ocorreu bem em frente à casa em que estavam os hóspedes e chocou os visitantes.

Se o compositor chegasse a Apiwtxa hoje não veria sinal de gado. Ainda nos anos 1990, os índios abandonaram a pecuária, que estavam desenvolvendo sob influência da cultura dos brancos.

"Percebemos que o gado ocupa uma área muito grande de terra e produz menos comida do que se cultivarmos aquele espaço. Então, acabamos com as vacas e passamos a implantar a agrofloresta no pasto. Além de render mais, as frutas atraem bichos que podemos caçar. É uma forma de vida tradicional de nossa cultura", explica Francisco, irmão mais velho de Moisés.

Os descampados se tornaram pomares de açaí, pupunha, banana, laranja, goiaba, abacate, coco e de várias outras espécies, que formaram uma floresta alta e sombreada onde antes havia capim.

Os índios chegaram por sua própria experiência à conclusão que estudiosos como Jim Mason e Peter Singer ("Animal Factories") ou Jeremy Rifkin ("Beyond Beef") haviam chegado nas duas décadas anteriores.

Dessa forma, os ashaninkas do rio Amônia reproduziram a prática de seus antepassados desde o tempo dos incas, como descreveram os espanhóis que tentaram conquistar seu território a partir do século 16.

Eles fazem o mesmo que fizeram os antigos habitantes da Amazônia. A maior parte da região foi ocupada ao longo dos séculos anteriores à chegada dos portugueses.

"A floresta que temos hoje foi cultivada pelos homens, é o resultado da ação humana", explica Fabiano Lopez da Silva, da Fundação Vitória Amazônica, que atua em estudos sobre políticas públicas para conservação da floresta em áreas como o baixo rio Negro. "A imagem da floresta virgem é uma lenda urbana: cerca de 90% da biomassa é composta por 240 espécies de plantas úteis, cultivadas."

Ou seja, do mesmo jeito que aconteceu nos últimos anos na Apiwtxa, os habitantes da floresta, há milhares de anos, vieram plantando espécies que enriqueceram a produtividade da paisagem, criando uma seleção de plantas usadas para finalidades como alimento e confecção de cestaria e tecidos, por exemplo.

Lopez da Silva também destaca a criação de uma "reserva" de 25% do território onde os índios decidiram proibir a caça: "É louvável que eles mantenham espaços sem exploração. É uma forma de geração de estoques naturais", diz

Ação antiga de indígenas contra madeireira sofre derrota no STF
Após 30 anos, uma ação movida pelo Ministério Público Federal e os ashaninkas contra uma madeireira do Acre teve uma reviravolta na última semana no Supremo Tribunal Federal. O ministro Alexandre de Moraes reconsiderou decisão que era favorável aos índios e que ele havia tomado em setembro de 2017.

Em 2000, a madeireira Cameli, da família do ex-governador Orleir Cameli (1949-2013), foi condenada em primeira instância a pagar R$ 11,5 milhões entre multas e indenizações por extração ilegal de árvores e danos ao ambiente, entre 1981 e 1987, na área indígena. Atualizado, o valor corresponde hoje a R$ 35 milhões.

A empresa apelou a instâncias superiores e o caso chegou ao STF. Em setembro, Moraes negou o recurso que tentava anular a condenação. Na última segunda-feira (14/5), porém, ele reconsiderou a própria decisão.

O representante dos índios, Rodrigo Machado, disse que vai recorrer. Antes dessa última decisão, o advogado da madeireira, Marcelo Turbay, sócio de Antônio Carlos de Almeira Castro (Kakay), informou à Folha que havia apresentado recurso contra o julgamento de Moraes, mas que, paralelamente, a companhia aceitava discutir um acordo.

Perfil ecológico do povo ashaninka foi difundido com ajuda de seu 'embaixador'

No disco "Txai" (1990), Milton Nascimento canta com uma criança a canção "Benke", cujo primeiro verso diz "Beija-flor me chamou".

Era uma homenagem a Benki Piyãko, apelidado "Beija-flor" em português, com 16 anos na época. Desde então, ele se tornaria o líder mais conhecido dos ashaninkas, símbolo das políticas ecológicas adotadas pelos índios a partir do período em que suas terras foram demarcadas, logo após a Constituição de 1988.

Essa concepção ashaninka, que mistura hábitos dos antepassados com influências dos movimentos ambientalistas contemporâneos, deve muito à atividade de Benki.

Em parte pela ajuda do compositor e também por sua militância, o jovem se tornou uma espécie de embaixador de sua etnia no exterior.

Benki é o arauto da agrofloresta, palavra que resume a tese segundo a qual a floresta de pé produz mais alimentos e riqueza do que a agricultura intensiva ou a pecuária, que precisam do desmatamento.

Ao mesmo tempo, em contato com o mundo exterior, Benki moldou parcerias que ajudam a financiar a ampliação das práticas sustentáveis dos ashaninkas.

Já nos anos 1990, foi fechado um acordo comercial com uma empresa estrangeira de cosméticos para a qual os índios vendem urucum, planta de onde tiram a tinta para pintar a pele de vermelho.

Em 2007, ao comprar uma fazenda junto à sede do município de Marechal Thaumaturgo, Benki liderou a criação de um posto avançado dos ashaninkas na cidade com o objetivo de implantar um centro de desenvolvimento de práticas sustentáveis.

O Centro Yorenka Atame ("saberes da floresta", em sua língua) foi totalmente reflorestado, ganhou instalações para salas de aulas e uma pousada. Ali são ministrados cursos para pessoas da região sobre práticas de plantio e manutenção de agroflorestas. A ideia é disseminar as técnicas de geração de renda com a preservação da mata.

Em setembro último, o projeto recebeu o prêmio Equador, do Pnud (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento), em Nova York.

É junto a esse mesmo centro que os índios estão terminando a construção de uma fábrica de polpa de frutas, com verbas do Fundo Amazônia -uma linha de financiamento administrada pelo BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) com doações da Petrobras, do governo da Noruega e do banco de desenvolvimento alemão KfW.

A pequena indústria vai produzir sucos e polpas congelados e deverá gerar cerca de 20 empregos diretos. Com isso, possibilitará a comercialização de frutas produzidas na fazenda Yorenka, na aldeia Apiwtxa e em outras áreas, indígenas ou não, melhorando a performance econômica de projetos florestais.

Benki é presença frequente em eventos internacionais, como por exemplo a COP-23, conferência da ONU (Organização das Nações Unidas) sobre mudança climática que foi realizada na Alemanha em 2017.

Também em 2017, ele anunciou um acordo com a fundação europeia House of Indians, criada por um brasileiro radicado na Bélgica, para a inauguração, em Marechal Thaumaturgo, de um "ecomercado", loja que troca alimentos por material reciclável com o intuito de reduzir o volume de lixo descartado em áreas públicas da pequena cidade.

Após um ano de atuação, Marcelo Nunes Valadão, da House of Indians, comemora os resultados. "O projeto, chamado Troc Troc, alcançou seu objetivo de limpeza da cidade. Coletamos 3.000 quilos de alumínio e 140 mil garrafas PET, que deixaram de ir para rios, ruas...". Por telefone, de Bruxelas, Valadão disse que planeja levar a ideia para outras cidades do país.

A convicção dos ashaninkas de que é preciso reflorestar áreas desmatadas, mesmo que estejam fora das terras indígenas, nem sempre é bem aceita.

Líder vai buscar proteção policial e acaba processado
Depois de promover o reflorestamento de um lote em um assentamento do Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) em Marechal Thaumaturgo, Benki Piyãko se viu envolvido em uma disputa de terra -que, por sua vez, resultou em um caso judicial considerado estranho tanto pelos índios quanto por entidades nacionais e internacionais de direitos humanos e ambientais.

No final de 2014, após três ashaninkas terem sido assassinados quando discutiam ações contra madeireiras, Benki afirmou ter sido ameaçado e, dizendo temer por sua vida, fez um boletim de ocorrência na delegacia local.

Por ser índio, o caso foi encaminhado à Polícia Federal. Durante o inquérito, meses depois, foram ouvidos apenas os acusados pelas ameaças, que negaram tudo.

O delegado Eduardo Gomes não apenas pediu o arquivamento da denúncia de ameaça ao líder indígena como também o acusou de falso testemunho. "Desta feita, indiciei Benki pelo crime de denunciação caluniosa" (artigo 339 do Código Penal), concluiu o delegado, em 22 de abril de 2015.

Em novembro do mesmo ano, o promotor Washington Moreira, do Ministério Público estadual do Acre, acatou as conclusões do inquérito e denunciou Benki. O processo, então, foi aceito pela juíza Adamárcia do Nascimento, da Primeira Vara Criminal de Cruzeiro do Sul (AC), em 9 de novembro de 2015.

Pouco mais de dois anos depois, no último dia 13 de março, ocorreu a audiência final. Defesa e Ministério Público apresentaram suas alegações e, a qualquer momento, a juíza dará sua sentença. Em caso de condenação de Benki, a pena máxima é de oito anos.

Os índios tratam o caso como um processo kafkiano: ao procurar a polícia para pedir proteção, o líder ashaninka acabou acusado e ameaçado de prisão.

O advogado de Benki, Antonio Rodrigo Machado, informa que a acusação é descabida: segundo ele, o inquérito ocorreu quando os ânimos já estavam pacificados, Benki não citou, em seu depoimento à Polícia Federal, os nomes dos políticos que o teriam ameaçado, não havendo, portanto, a denúncia caluniosa.

O delegado Eduardo Gomes não trabalha mais na Polícia Federal em Cruzeiro do Sul.

A delegacia da cidade informou que não se manifesta sobre inquéritos já terminados e encaminhados ao Ministério Público.

"Em um país que prende um ex-presidente da República e o condena a 12 anos, não é difícil imaginar que um índio possa ser condenado a 8 anos em um caso sem provas", afirma Sebastião Salgado, preocupado com o processo.

Casamento segue tradição de primos cruzados

Tradicionalmente, os ashaninkas se casam conforme regras fixas para o estabelecimento dos pares, segundo as quais se juntam primos-irmãos predeterminados: um jovem deve se casar com a filha do irmão de sua mãe; uma jovem se casa com o filho do irmão de sua mãe.

Eles são chamados de "primos cruzados" na antropologia. Os ashaninkas dão preferência aos primos pelo lado da mãe.

Esse hábito pode parecer estranho aos brasileiros de origem europeia, para quem casamentos entre primos são mais raros, mas é comum em outras culturas.

O sistema é chamado de iroquês, por ser semelhante ao costume de uma tribo canadense, onde foi observado no século 19.

O princípio prevê que a irmã de sua mãe também é sua mãe. Assim, os filhos dela são seus irmãos (casar com um deles seria incesto); também um irmão de seu pai é como se fosse seu pai (seus filhos são como seus irmãos, e casar com eles é um incesto). A esses primos a antropologia denomina "paralelos".

Esquemas de casamentos entre primos cruzados são frequentes em grupos no Acre, como os yawanawás. Há algumas décadas, porém, o hábito não é seguido com rigor absoluto. Em uma análise de 800 casamentos, publicada em 1970, o antropólogo norte-americano John Bodley constatou que só uma pequena fração seguia o modelo à risca.

Mas, na comunidade visitada pela Folha, continua sendo o modelo predominante.

Enison, 28, que se casou com Iniriya (sua prima cruzada), conforme a norma tradicional, me diz que não há falta de jovens para realizar as uniões conforme a regra, mas têm ocorrido vários casamentos com pessoas de fora da comunidade.

A família que me hospedou em Apiwtxa era formada por um ashaninka, Wewito, e sua mulher, Auzelina, oriunda de outra etnia do Acre, os yawanawás. Eles se conheceram estudando para serem professores, na capital do estado, Rio Branco.

"Quando nos formamos, ele falou que ia me buscar, nem acreditei. Mas depois de uns meses ele foi, e eu vim morar com ele", conta Auzelina, que desde então adotou roupas e pinturas de rosto típicas das mulheres ashaninkas.

O irmão mais velho de Wewito, Francisco, também se casou com uma yawanawá, Eliane, mas ela mantém no rosto as pinturas típicas de seu povo de origem.

Wewito e Francisco são filhos do líder da comunidade, Antônio, 72, que ainda jovem casou com uma mulher branca, cujo pai era seringueiro na região. Seu nome é um retrato do preconceito contra os índios. Quando ele era pequeno, o registro de nascimento era feito na igreja -a certidão de batismo. Os ashaninkas eram chamados de campas, e o costume era pôr o nome da tribo como sobrenome. "O padre se recusou a registrá-lo com o nome de índio, que seria Piyãko Campa. Ele foi batizado como Antônio Campos," conta Francisca, sua mulher. Ela aprendeu a língua indígena e adotou a cultura tradicional, mas nunca usou roupas ou pinturas corporais dos índios.

Mais tarde, Antônio adotou seu prenome indígena, Piyãko, como sobrenome, que hoje identifica sua família: irmãos, filhos e sobrinhos, em um clã de cerca de 300 pessoas. Ele e Francisca, "Dona Pity", como é chamada, tiveram sete filhos e criaram mais sete, formando uma grande comunidade de parentes, para os quais Antônio é uma espécie de pinkatsari, líder ou "homem poderoso".

Descendentes de uma mulher que fala português e de um índio, os filhos de Pity e Antônio dominaram as duas línguas e a cultura dos dois povos, o que ajudou sua inserção nos debates que viriam a marcar o Brasil dos anos 1980 e 1990, a Constituinte e a redemocratização.

"Meu avô Samuel disse à minha mãe: 'Você não está casando só com meu filho, mas com o povo ashaninka'. E ela nos deu a facilidade da língua, que nos ajudou muito na luta pelos direitos. Na época, nós éramos chamados na região de 'os caboclos da Dona Pity'", conta Francisco.

Para ele, a missão de sua geração, que hoje beira os 50 anos, é manter os jovens ashaninkas de prontidão para enfrentar desafios que têm pela frente: a pressão de madeireiras e do tráfico de drogas e a ausência dos órgãos do Estado que deveriam se dedicar aos povos indígenas.

Colaborou Eliane Fernandes Ferreira

Mitos de criação do mundo mostram ligação com os incas

A ligação entre ashaninkas e incas é tão profunda que está registrada até nos mitos sobre a criação do mundo e do homem, como se os dois povos tivessem nascido um do outro.

A lenda é narrada por Moisés Piyãko, que em sua formação de xamã se dedica às tradições espirituais.

"Na história, os incas vieram logo depois de nós. Muito antigamente, havia uma comunidade ashaninka, e, no centro dela, havia uma lagoa, de onde eles ouviam o canto de um galo. Um dia, uma pessoa pegou um anzol para pescar. Cada isca que punha pescava alguma coisa, galinhas e outros bichos que não existiam."

Numa dessas vezes em que ele colocou o anzol, pescou um inca. Por isso, primeiro os incas viveram com os ashaninkas. Mas um dia, segundo a lenda, eles se afastaram para morar mais longe, e aí surgiu o povo inca. Eles nunca foram inimigos dos ashaninkas e também nunca os dominaram como fizeram com outros povos. Eles sempre viveram de igual para igual, mantinham relações de troca. "O que meu povo precisava, buscava nas cidades dos incas. E o que eles precisavam, compravam dos ashaninkas. Os incas não sabiam andar na floresta, não desciam para a floresta, ficavam só na montanha. Ouvi essa história do meu avô, quando eu era pequeno."

Segundo Moisés, os ashaninkas buscavam dos incas ferramentas, tecidos e cestarias, além de certos alimentos que eles tinham nas cidades e que os ashaninkas não plantavam. Os incas se interessavam especialmente por penas de aves da floresta, para adornos.

Havia muitas diferenças de cultura entre eles, talvez a mais marcante fosse que os ashaninkas comiam carne de macaco, os incas não: "Eles só comiam coisas da montanha. E compravam peixes e pássaros da floresta, penas e couro de animais".

O mesmo mito da criação narra também o surgimento dos não indígenas, que na língua deles se chamam wiracochas: "Depois que puxaram os incas, passou um tempo e o galo continuou cantando dentro do lago. Então o mesmo herói foi lá pescar de novo. Aí, quando ele puxou o anzol, veio um homem diferente, wiracocha. Eles ficaram com medo desse povo, que ninguém sabia quem era. Então pegaram um facão para cortá-lo. Mas de cada pedaço que cortavam nascia outro homem, que se multiplicava rapidamente, e eles ficaram com mais medo, desistiram de lutar e fugiram para longe daquele lugar, deixando os brancos por ali".

Com a multiplicação desses estrangeiros, representada pela chegada dos espanhóis, que rapidamente dominaram o território do antigo império, Pawa, o deus supremo dos ashaninkas, guardou a sabedoria, transformando os sábios para que eles não contassem aos invasores os segredos de seus poderes.

"Até hoje ninguém entende como os incas faziam aquelas construções tão grandes. Eram poderes que eles tinham. Eles pensavam as coisas, desenhavam e, com os poderes, elas ficavam prontas. Também nós tínhamos poderes semelhantes: os tecidos, por exemplo, eram feitos com poderes, sem o trabalho que temos que ter hoje em dia. As pessoas desenhavam um tecido e ele ficava pronto. Depois, esses poderes foram recolhidos, tudo fechado. As pessoas que tinham poderes foram transformadas. Hoje, o mundo na floresta é todo encantado, formado de pessoas que tinham poderes e foram transformadas em pássaros, árvores e animais."

"Nossa vida está conectada na floresta. Tem pássaro que fala frases inteiras em nossa língua. Quando nós fazemos nossas festas religiosas, reproduzimos músicas que os pássaros cantam. É o nosso povo que está encantado. Cada pessoa que adquiria um conhecimento muito grande, Pawa transformava em pássaro, assim, para guardar o conhecimento, o segredo."

"Muitos dos animais que existem são gente transformada em animal de sabedoria. A onça, por exemplo, é parte dessa proteção. Ela protege os espíritos que trabalham com ela. E ela pega os espíritos maus durante a noite e mata. Aqui, sempre ela anda pela aldeia, ouvimos ela, mas ela não mexe com a gente. Ela acorda a gente, mas não ataca as pessoas que estão deitadas.

'Ayahuasca é a chave para penetrar nos encantos guardados na floresta'
Segundo a narrativa ashaninka, Pawa escondeu a sabedoria ao transformar os sábios em animais. Mas precisava preservar a capacidade de alguns homens de acessar esses conhecimentos. Para isso criou então a ayahuasca, que põe os homens em contato com o mundo espiritual.

"Depois que Pawa transformou todas as pessoas que achou que era necessário, ele transformou horoa, a mulher, em uma folha, a chacrona; e o homem ele transformou em um cipó, que nós chamamos de kamarampi, e os incas chamavam de ayahuasca."

"O casamento desse homem com essa mulher é a chave para a gente conseguir penetrar em todos os encantos que estão guardados. Pawa deixou esse ensinamento de como seria possível decifrar os segredos. Com kamarampi você pode conversar com os pássaros e com os outros animais encantados, como nós estamos falando aqui. A bebida que tomamos nos rituais é a mistura do homem e da mulher. É a chave para acessar os ensinamentos."

Os ashaninkas reivindicam a primazia do conhecimento da ayahuasca, hoje presente em diversas culturas indígenas do Acre. Moisés afirma que seu avô, Samuel, um grande líder histórico (pinkatsari) dos ashaninkas do Acre, ensinou os segredos da ayahuasca a Mestre Irineu, o seringueiro que fundou a religião do Santo Daime.

"A nossa história é muito grande, muito antiga. O uso da ayahuasca como chave para decifrar os segredos guardados por Pawa já vem de muito tempo. Depois, de um século para cá, a população da Amazônia começou a tomar ayahuasca. Foi meu avô que serviu kamarampi pela primeira vez para o Mestre Irineu. E ele criou um rito, e depois vieram outros e criaram outros e outros. E isso nós não aceitamos, porque não há tantos mundos espirituais, tão diferentes. Só há um mundo espiritual, porque Pawa é único, não há tantos assim para escolher. Só há um, e você recebe, conforme seu merecimento, o que é bom ou ruim."

Entre os ashaninkas, o consumo ritual de kamarampi é feito em grupos de até seis pessoas, em reuniões discretas, em torno de um xamã, como Moisés. A finalidade é ouvir o mundo espiritual, receber ensinamentos, entender situações. É um momento de concentração, por assim dizer.

Já as festas coletivas (chamadas piarentsi) reúnem toda a aldeia e convidados, que consomem caiçuma, uma bebida levemente fermentada, feita de mandioca ou batata.

Essas festas têm um papel muito importante na vida dos ashaninkas, porque expressam alegria, gratidão e proximidade entre as pessoas da comunidade. Ao mesmo tempo, são "um termômetro para medir os ânimos dos deuses", como explica a antropóloga Erika Mesquita, que estuda a visão dos ashaninkas sobre as mudanças climáticas: ao participar da festa com os índios, se o deus dono da chuva (Inkaniteri) fica bêbado, ele fará cair chuva forte; se não chove, é porque ele não se divertiu tanto. Mas se chove fraco depois de uma festa, é sinal de que os espíritos femininos ficaram alegres e bêbados.

Sebastião Salgado visita aldeias para o projeto Amazônia

O fotógrafo Sebastião Salgado trabalha atualmente em um projeto sobre a Amazônia. Conhecido mundialmente por reportagens de documentação construídas ao longo de anos, como "Trabalhadores", "Êxodos" e "Gênesis", ele agora se dedica a comunidades indígenas que habitam a maior floresta do planeta.

"Amazônia" deve ser divulgado em livro e exposições a partir de 2021.

A Folha acompanha expedições do projeto e antecipa parte do conteúdo em reportagens especiais, como as que resultaram no caderno sobre os korubos, no final de 2017, e sobre os ashaninkas, tema desta edição.

Economista por formação, radicado na França durante a ditadura, Salgado iniciou-se na fotografia nos anos 1970. Trabalhou na prestigiosa agência Magnum, fundada por Robert Capa e Cartier-Bresson. Desde os anos 1990, mantém sua própria agência, Amazonas Images, em Paris.

Reconhecido como um dos maiores nomes da fotografia internacional, recebeu vários prêmios. Suas obras estão presentes em importantes coleções e museus do mundo.

Desde dezembro, ele integra a Academia Francesa de Belas Artes, maior reconhecimento do governo e da comunidade artística francesa a um criador. É o primeiro brasileiro a ocupar essa posição no Institut de France, que reúne as cinco grandes academias francesas.

FSP, 20/05/2018, Caderno Especial, p. 1-10

http://arte.folha.uol.com.br/ilustrada/2017/sebastiao-salgado/ashaninka…

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